Sabes, Júlio, ela é tua irmã e eu sou tua esposa; já não aguento vê‑te tirar dos nossos filhos e dar tudo à Olívia. O próprio Júlio percebe que a esposa tem razão, mas não sabia agir de outra maneira. Sempre, desde a infância, quando a irmã precisava, ele foi o primeiro a ajudar. – Júlio, não me importo que ajudes a Olívia, mas ao tirares constantemente do nosso orçamento familiar, deixa de ser apoio e torna‑se prejuízo para nós. – Eu entendo tudo, mas não posso fazer diferente.

Sabes, Zé, ela é tua irmã, eu sou a tua esposa. E já não aguento ver como és sempre o primeiro a levar o que os nossos filhos têm e entregar tudo à Lurdes.

O José sabia que a Sofia tinha razão, mas não via outra saída. Sempre que a irmã precisava de ajuda, ele era o primeiro a estender a mão isso afinal já vinha desde a infância.

Zé, passame um prego gritava a pequena Lurdes, de sete anos, em cima de um banquinho ao lado da velha lareira.

E o que vais fazer com um prego? perguntou o irmão, de nove, desconfiado.

Vou fazer uma casinha para o gato.

De novo? Da última vez que te ajudei a construíla, o gato não dormiu lá dentro e ficaste chateada a semana inteira.

Desta vez dá certo, porque vou cobrila com tecido.

Cresceram como duas mudas no mesmo tronco. A mãe trabalhava numa fábrica de têxteis em Vila Nova de Famalicão; o pai falecera quando eram ainda pequenos. José, embora ainda fosse um rapaz, assumiu o papel de pilar da casa. Aprendeu a consertar bicicletas, a trocar torneiras e até a aquecer a sopinha da noite.

Zé, achas que um dia serei atriz? perguntava Lurdes.

Já és atriz. Quando caíste ontem, começaste a chorar e depois comeste compota com um sorriso isso foi teatro de verdade.

O tempo foi passando. José formouse em eletricidade, arranjou um emprego numa empresa de energia em Lisboa e casouse com a Sofia. Lurdes entrou no ensino de pedagogia, mudouse para um dormitório da universidade e ia visitar o irmão sempre que podia.

Sofia suspirava:

Sabes, Zé, a tua irmã já é adulta. Talvez seja altura dela aprender a fazer as coisas por conta própria?

Ela não é uma mala que eu possa simplesmente entregar, respondia José calmamente. Ela é a minha irmã.

Depois de terminar os estudos, Lurdes foi trabalhar numa aldeia do Alentejo, por ordem da secretaria de educação. Ficou num quarto gelado num albergue de professores, com uma velha fogão e um salário de 800. José aparecia nos feriados:

Eu já te disse: compra um aquecedor.

Não tenho agora, ainda tenho livros infantis para comprar.

Tragote o aquecedor. E também um casaco.

E a Sofia não vai zangarse?

Vai zangar, mas não vais congelar.

Um dia Lurdes ligou, a voz embargada de lágrimas:

Irmão estou grávida.

Então parabéns por que as lágrimas?

Ele desistiu. Disse que não está pronto para isto.

Isso é ainda pior. Aguenta firme. Vou aí.

Não precisa eu consigo

Irmã, isso nem se discute.

No dia seguinte chegou. Trouxe alimentos, dinheiro, uma manta e roupinhas para bebé.

A Sofia está furiosa disse, sentandose à mesa da cozinha.

Não quero que haja discussões por minha causa

Olha, a minha esposa é ótima, mas não foi ela quem me criou.

Percebeste que não é só comprar um telemóvel que perdi. É sério

Por isso estou aqui.

José esteve ao lado da família no dia mais importante. Segurou o neto nos braços como se fosse o maior tesouro.

Como o vais chamar?

Matias.

Boa escolha. Vai crescer e protegerte como eu faço.

Depois do nascimento, ajudava sempre que podia: era o dinheiro para a fórmula, era a reparação do quarto, era o carrinho novo. Enquanto isso, Sofia afastavase em silêncio.

Numa noite, ela disse:

Zé, não me importo que ajudes a Lurdes, mas quando tiras dinheiro do nosso orçamento familiar a cada minuto, deixa de ser apoio e passa a ser prejuízo para nós.

Eu entendo tudo, mas não consigo fazer de outra maneira.

Eu não consigo viver sentindo que a tua irmã sempre vem em primeiro e nós ficamos em segundo.

José ficou em silêncio. Amava a irmã e a esposa com a mesma intensidade.

Com o tempo, Lurdes ergueu-se. Criou um clube infantil na aldeia, foi querida e respeitada pelos vizinhos. O filho cresceu calmo e obediente.

José passou a visitar menos, mas sempre trazia algo:

Matias, olha o que o tio trouxe um conjunto de blocos de montar.

A mãe diz que já somos velhinhos, que a tia Sofia está cansada, que nos custamos mais ainda.

Ainda não sou tão velho quanto a tua mãe pensa.

Quando José fez cinquenta anos, adoeceu gravemente. Lurdes chegou à cidade com potes de compota, almôndegas caseiras e o filho.

Sofia, posso limpar? O João (apelido de José) tem sempre a cozinha à desordem riuse Lurdes.

Limpa. E põe as almôndegas na mesa. Ele não come nada sem ti.

Isso não é verdade! resmungou José do sofá.

Claro que não, só está a perder peso em uma semana

Riram como quando eram crianças. Naquele momento, Sofia finalmente viu Lurdes sem ciúmes, mas com compreensão.

Sabes murmurou, enquanto Lurdes ia para a cozinha tinhas razão. Ela é boa. Parecia que te obrigava a escolher entre nós.

Nunca escolhi. No meu coração há espaço para ambas.

Um ano depois, nasceu a neta de Sofia e José.

Matias entrou na universidade. Lurdes continuou a ser professora na aldeia e telefonava ao irmão todo domingo.

Como vai?

Nada. A Sofia está a bordar, eu a ver televisão. E tu?

O Matias está de férias, vamos ao bosque colher cogumelos.

É bom vêlo crescer honesto e trabalhador.

Porque foste tu o modelo para ele.

Já na velhice, sentados na varanda debaixo da casa, Lurdes disse:

Sabes, Zé, acho que Deus deume a ti como irmão de presente. Sem ti não teria conseguido.

E eu sem ti seria outra pessoa. Sempre estiveste ao meu lado respondeu ele não é ajudar, é ser família.

Nunca escolhi um sobre o outro. O coração tem espaço para os dois.

E assim, entre risos, compotas e blocos de montar, a família seguiu crescendo, provando que, em Portugal, a ajuda de um irmão pode ser tão quente quanto um terço de chá à beira da lareira.

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Sabes, Júlio, ela é tua irmã e eu sou tua esposa; já não aguento vê‑te tirar dos nossos filhos e dar tudo à Olívia. O próprio Júlio percebe que a esposa tem razão, mas não sabia agir de outra maneira. Sempre, desde a infância, quando a irmã precisava, ele foi o primeiro a ajudar. – Júlio, não me importo que ajudes a Olívia, mas ao tirares constantemente do nosso orçamento familiar, deixa de ser apoio e torna‑se prejuízo para nós. – Eu entendo tudo, mas não posso fazer diferente.