26 de outubro de 2024
Querido diário,
Hoje, ao limpar o sótão da casa que herdámos dos meus avós em Vila Nova de Famalicão, encontrei uma caixa de papelão cheia de cartas amareladas. Não as abria há décadas; a poeira das últimas décadas ainda cobria as mãos que as escrevera. Releio a primeira, depois a segunda, e assim por diante, como se cada linha fosse um portal para outra vida.
Tudo começou nos corredores do Instituto Politécnico de Lisboa, onde eu, Lurdes Alves, e o Tiago Pereira nos conhecemos. Eu era a garota do interior, vinda de um vilarejo no Minho, com os cabelos longos e negros como a noite de inverno e os olhos que pareciam refletir o Rio Douro ao entardecer. Tiago, por outro lado, era lisboeta, filho de engenheiros que esperavam que ele seguisse os passos da família.
Ele me conquistou imediatamente. O seu sorriso largo, a sua energia incontrolável, faziamme sentir como se fosse lançada num vendaval. Cada dia, ele aparecia com uma rosa à porta do dormeiro da residência universitária, deixava bilhetes ao pé da porta e, por vezes, aparecia à meianoite na janela para me desejar boa noite. A minha cama ficava no résdochão, mas ele sempre encontrava um jeito de fazer-me sentir segura.
Os primeiros meses foram uma sequência de festas estudantis, passeios pela Alfama, beijos roubados sob o céu de Lisboa. Tudo parecia um fado alegre, cheio de acordes menores e maiores. Mas, ao fim do primeiro ano, Tiago começou a descurar os estudos. Nunca foi um estudioso; o seu coração já estava ocupado demais com o nosso romance. Acabou por ser expulso do instituto. Ele não se deixou abater; ao contrário, disseme, Vou arranjar um trabalho, volto a estudar ao tempo parcial e, assim, poderei casarme contigo, minha alegria.
Tiago conseguiu um emprego numa fábrica de têxteis em São João da Madeira e contou aos seus pais a intenção de casarse. Os meus pais, embora pouco conhecessem o rapaz, já tinham ouvido falar dele nas visitas à casa da família. O pai de Tiago, porém, tinha um plano diferente: queria que o filho se casasse com a filha dos amigos de família, a Rita Silva. Nem Tiago nem Rita tinham vontade alguma de cumprir essa aliança.
Eu acreditava que, se explicasse ao pai de Tiago o quanto eu o amava, ele entenderia. Mas o seu discurso foi recebido como Tu largaste os livros por causa de um amor de verão! gritou o patriarca. Nós enviámoste para aprender, não para te casares! O velho, ainda impregnado da mentalidade de que a família precisava de uma jovem do campo para reforçar laços, insistiu que eu fosse afastada de Tiago. Assim, a sua mãe, a fim de esfriar o romance, mandouo para o serviço militar.
Fiquei só, e as cartas que Tiago me enviava eram o único consolo. Cada missiva era cheia de ternura e paixão, lembrandome das primeiras noites em que trocávamos promessas ao som de fado nas tavernas. De repente, porém, a correspondência cessou. Passaramse meses, depois um ano, sem uma única palavra. Sentime perdida, como se o vento tivesse levado a minha bússola.
Um colega de curso, o Sandro Mendes, tentou tranquilizarme. É normal, Lurdes. Quando a distância é grande, os sentimentos esfriam; talvez fosse só um encanto. Eu não sabia que Sandro estava secretamente apaixonado por mim e que, desde que Tiago se afastou, ele planejava aproximarse. Ele escreveu ao Tiago pedindolhe que deixasse de me escrever, alegando que os dois pretendiam casarse em breve.
Acabei por aceitar a proposta de Sandro. Ele tornouse o meu apoio constante, sempre ao meu lado, oferecendome o carinho que eu ainda não tinha compreendido. Que ao menos Sandro seja feliz, pensei, aceitando a sua mão.
Ainda que quisesse lançar fora as cartas de Tiago, a mão não se mexia. Coloqueias numa caixa e guardeias num canto da cômoda. Assim, comecei a viver a minha nova vida ao lado de Sandro, à sombra das ruas de Lisboa, enquanto, do outro lado da cidade, Tiago recebia a notícia de que eu havia casado com ele.
O tempo voou. Dez anos depois, ainda morávamos na mesma cidade, mas como duas linhas paralelas que nunca se cruzavam. Ouvirumor de que Tiago havia casado outra vez, desta vez com uma mulher chamada Marta, e que tinham um filho. Eu, por minha vez, com Sandro, tive duas meninas, Ana e Beatriz, que agora eram adultas e já tinham as próprias famílias. A rotina de cuidar dos filhos e trabalhar como enfermeira tornara a minha vida estável, porém sem a centelha que um dia sentira.
Trinta e cinco anos depois, a minha família desfezse. Sandro sentia que nunca tinha conseguido amarme de verdade; encontrou consolo num caso extraconjugal. As filhas mudaramse, os lares já não se encontravam. Sandro acabou por confessarme, num adeus triste, que fora ele quem tinha organizado a minha separação de Tiago.
Tiago, por sua vez, também ficou só. A sua segunda esposa o deixou, e o filho que teve cresceu e foi embora. Assim, ambos éramos apenas sombras das nossas próprias histórias.
Ainda assim, naquela tarde, ao abrir a última carta de Tiago, lágrimas e sorrisos misturaramse nos meus olhos. Senti uma necessidade urgente de saber onde ele estava, como era a sua vida agora. Decidi escrever-lhe uma carta à antiga morada que ainda constava nos documentos: um pequeno apartamento em Alfama, com vista para o Tejo. Propuslhe encontrarnos num café da esquina da minha rua, na Baixa.
No dia seguinte, culpeime pela imprudência: Por que sou tão tola? Mas, ao mesmo tempo, era a única coisa que eu podia fazer.
Tiago, ao regressar ao lar, encontrouse com a caixa de correio antiga, algo quase vintage nos tempos de mensagens instantâneas. O nome no envelope fezo parar, como se a própria sorte lhe sussurrasse. Leu a carta, e o tempo pareceu retroceder.
À hora combinada, entrei no Café A Brasileira, o coração a mil. O estabelecimento estava quase vazio, exceto por uma mesa onde uma figura esperava. Lurdes, ele murmurou, quase num sussurro.
Sim, respondi, desviando o olhar por um segundo, depois fixandoo nos olhos. O seu olhar era o mesmo de todos aqueles anos; reconhecio instantaneamente. Era ela, a minha Lurdes, ainda viva no coração dele.
Conversámos, chorámos, rimos. Quando saímos do café, as mãos entrelaçadas, prometemos nunca mais nos separar.
P.S. Já se passaram quase cinco anos desde aquele reencontro. Tiago e eu vivemos cada dia como se fosse um presente, compartilhando o mesmo apartamento na mesma rua, rindo ao som das azulejarias que nos rodeiam. O verdadeiro amor, descobri, nunca desaparece; só aguarda o momento certo para renascer.
Lurdes.
