Lembrome, como se fosse ontem, dos dias em que a pequena Margarida não compreendia por que os pais lhe eram tão frios. O pai, António, irritavaa, e a mãe, Inês, cumpriaas mecânicamente os poucos cuidados que lhe cabiam, parecendo mais interessada no humor do marido.
A avó paterna, Natália de Almeida, explicava que o pai trabalhava muito, a mãe também se ocupava para que Margarida não precisasse de nada. E ainda as tarefas de casa, dizia Natália, mas a verdade só se revelou quando Margarida tinha oito anos e, por acaso, ouviu a primeira briga dos pais.
Inês, puseste sal demais na sopa outra vez! bradou António, com a voz carregada de irritação. Não consegues fazer nada direito!
António, mas eu tentei, estava tudo bem defendiase a mãe, tentando justificarse.
Tu estás sempre bem a tudo! E ainda não conseguiste sequer dar à luz a um filho! Os homens desdenhamme diz o irmãovelho! exclamou António, homem rígido, camioneiro da sua própria caravana, que já tinha visto de tudo. O tom de escárnio que lhe saiu na fala deixava Margarida desconfortável.
Foi então que percebeu porque o pai a enviava para a casa da avó sempre que regressava de uma viagem de trabalho: não suportava a ideia de ter uma filha que não fosse filho.
Com Natália, Margarida sentiase querida. Juntas estudavam, cozinhavam, até podiam costurar alguma roupa. Mas ainda assim, doíalhe ver os pais a comportarse daquele modo.
Pouco depois daquela discussão, António e Inês anunciaram, de súbito, que iriam mudarse para Lisboa. Alegavam estar estagnados ali, ansiosos por novidades, quem sabe até um filho que nascesse na nova vida. A decisão foi tomada pelo pai; a mãe concordou, como sempre.
Só que havia um problema: não queriam levar Margarida para a nova vida.
Vai viver com a avó e depois nós recolherteemos murmurou Inês, evitando o olhar de Margarida.
Eu nem consigo ir convosco respondeu Margarida, orgulhosa, embora o seu coração apertasse de mágoa. Prefiro ficar com a avó.
Mas nada mudou. Ela ficaria com a avó amorosa, com os amigos da escola e com os professores que a conheciam. Os pais seguiram o seu caminho e ela já não se preocuparia mais com eles.
Margarida mal tinha dez anos quando António e Inês receberam, finalmente, o tão aguardado filho o irmão, Bento. O pai anunciou a notícia por videoconferência, enquanto a mãe limitavase a telefonemas; os pais nunca tinham visitado Margarida, o pai mandava cumprimentos, e a avó recebialhe transferências ocasionais de euros, mas, na prática, a neta dependia do sustento da avó.
Um ano depois, a mãe apareceu de súbito, exigindo que Margarida fosse viver com eles. Viajou pessoalmente para a casa da avó.
Olá, minha flor cantou Inês. Agora vivemos todos juntos. Finalmente vais conhecer o teu irmão faze amizade.
Não quero ir a lado nenhum retrucou Margarida, o peito apertado. Estou bem aqui com a avó.
Não chores, minha filha! Já és maior, tens que ajudar a mãe.
Inês, travasnos! interveio Natália, a avó, antes que a mãe pudesse fazer de conta que faria de Margarida uma babá gratuita. Não deixarei!
É a minha filha, resolvemos nós! respondeu Inês, rosnadela.
A avó, porém, não se intimidou:
Se insistirem, denunciovos por abandono de criança! Perderão os direitos parentais advertiu.
Continuaram a discutir. Margarida nem se lembrava mais do que se falava; Natália correua ao mercado, e a mãe já não falava da mudança. No dia seguinte, partiu.
Durante os dez anos seguintes, os pais desapareceram. Margarida terminou o liceu, depois o curso técnico, e, graças ao velho amigo da avó, Ilídio Ferreira, arranjou emprego como assistente de contas numa pequena empresa.
Começou a namorar o motorista Vítor, e o casal planeou o casamento, mas o funeral de Natália interrompeu os planos. O pai e a mãe compareceram ao funeral juntos; Bento ficou ao cuidado de uma conhecida, pois não era adequado que o rapaz participasse naquele momento triste.
Margarida sentiase indiferente; amava a avó e a perda deixoua aturdida. Talvez por isso não tenha entendido, de imediato, a conversa dos pais à mesa do funeral.
Ah o apartamento está abandonado disse António, olhandose ao redor. Ninguém lhe dá valor.
Tiago respondeu Inês com reprovação. Ainda não, ainda não
O que é isso? Temos de resolver tudo de imediato. Precisamos irlá, porque Bento está sozinho.
Ilídio, pode indicar alguém? Um corretor para vender o imóvel?
Que pretendes vender, Tiago? perguntou Ilídio.
Este apartamento. Bento precisa de casa Não basta o dinheiro para um apartamento decente na cidade, mas dá para o arrasamento. Até aos dezoito anos pagaremos a hipoteca.
Margarida, com os olhos marejados, observava a janela, sem participar da conversa.
Tu queres despejar a própria filha? indagou Ilídio. Onde vai viver?
Ela já é maior! respondeu António. Que se case e o marido a sustente!
Pois interveio a sobrinha da avó. Natália tinha razão em relação a ti Mas nada vai sair, Tiago. O testamento está legalmente registrado e o apartamento pertence agora exclusivamente à Margarida.
António calouse.
Já trataste a avó? lançou ele a Margarida, que finalmente se embrenhava na discussão. Vamos ver o testamento pode ser contestado.
E isso Natália previu disse Ilídio, serenamente. Lembrate, Tiago, não te dou a Margarida.
António teve apenas um dia para consultar alguém e perceber que a lei estava do lado da filha. Poderia tentar outra via, mas os custos seriam altos e o resultado incerto.
Margarida, tens consciência? tentou ele persuadir a filha. Casarteás, o marido te sustentará, e Bento precisa de casa ele próprio era homem. Renuncia à herança!
Nem pensar replicou Margarida.
Podemos pagarte mil euros bastam para a primeira entrada, pegaa hipoteca.
Não quero, nem conversar contigo!
Se não desistires, chamo a polícia. Vocês serão expulsos daqui.
Margarida decidiu seguir a vontade da avó, que lhe tinha cuidado toda a vida, e não queria ficar sem teto. O pai nunca gostou da polícia, preferia evitar conflitos com a justiça. Assim, ele e a mãe regressaram, desaparecendo por quatro anos.
Nesse intervalo, Margarida e Vítor casaramse e tiveram uma filha, Natália. O dinheiro da família era apertado, mas viviam felizes e unidos. Então, a mãe de Margarida telefonou, exaltada:
Tu és a culpada de tudo! Foi por tua culpa que o Tiago morreu!
Se não tivesses mexido naquele apartamento, teu pai não teria de tanto trabalhar, nem teria feito aquela viagem! bradou a mãe.
Precisas de ajuda para o funeral? respondeu Margarida, em silêncio, sentindo pena do marido, mas só como estranho, não como pai.
Não preciso de nada! Por tua culpa o Bento ficou órfão! Vive com isso! acabou a mãe, desligando.
Margarida, sabes que não fizeste nada de errado? questionou Vítor, que assistia à chamada. Ele percebeu a palidez da esposa.
E se eu? começou a mãe, mas foi interrompida.
Não inventes! Eles te abandonaram há anos; não tem razão para sofrer por isso respondeu Vítor.
Tens razão suspirou Margarida.
Um ano depois, a mãe reapareceu sem aviso, envelhecida, com os lábios contraídos, e trouxe novas exigências:
Bento precisa de dinheiro. Ele é teu irmão, lembra? Vai entrar na universidade em breve.
Não poderá ser bolsista, então precisas de ajudar afirmou Inês.
Não me digas isso retrucou Margarida. Não devo nada a ti; sabes bem que não tenho recursos.
Vejo que a educação que Natália lhe deu deu frutos respondeu a mãe, cerrando os lábios. Sempre fui tua inimiga, e tu pareces a mesma.
Se disseres outra palavra contra a avó, lançote para fora! advertiu Margarida firmemente. Não tenho dinheiro, e se o tivesse, não o daria.
Ah, deixate de chororô! Vejo como vivem
O casal realmente tinha acabado de renovar a casa, comprado móveis novos e eletrodomésticos. O remodelado custara dois anos de poupança e o resto foi feito a crédito, quase quitado. Margarida não queria comentar nada; ainda não precisava justificarse perante aquela mulher estranha.
Pelo menos pergunta sobre a neta por cortesia
Ela tem os dois pais, logo está bem zombou Inês. Mas nós, com o Bento, não temos ajuda!
Recebem pensão por perda do sustento, e tu trabalhas também. Vivam dos próprios rendimentos. Que o Bento vá ao colégio.
O Tiago sonhava que o filho tivesse educação superior!
Basta! Não te dou dinheiro. Conversa encerrada.
Um velho ressentimento feriu Margarida; os pais nunca sonharam, nem pensaram no futuro da filha.
Tudo bem disse a mãe, dirigindose à porta. Se não o fazes por bondade, será de outra maneira.
Naquela noite, Margarida contou ao marido Vítor sobre a visita:
O que ela vai inventar agora? disse Vítor, estendendoa mão. Como pode tirar dinheiro de nós? Não temos nada.
Não sei respondeu Margarida, encolhendo os ombros. Mas tenho a certeza de que trama alguma coisa. Não viria assim sem motivo.
O plano de Inês ficou evidente quando, uma semana depois, Margarida recebeu uma intimação para comparecer ao tribunal.
Perdeu a cabeça? perguntou Margarida à mãe, calma. O que pretendes fazer no tribunal?
Quero forçarte a ajudar o teu irmão declarou Inês. Há lei que te obriga! Tens ainda tempo de mudar de ideia e não te humilhar no processo.
Então, estás disposta a humilharte por lei?
A lei está do meu lado. E eu sou mãe, defendo o meu filho!
Eu, então, não sou tua filha murmurou Margarida, desligando.
No tribunal, Inês fez um drama, chorando e narrando como fora obrigada a deixar a filha com a avó, como deu à luz ao filho esperado e perdeu o marido, ficando sem recursos. O juiz pareceu compadecerse dela, mas Margarida, serena e firme, contou a verdadeira história da família.
A decisão acabou por se basear, sobretudo, no fato de que o salário de Inês e a pensão de Bento estavam muito abaixo da linha da pobreza. O pedido de Inês foi rejeitado.
Saindo da sala, lançou à filha um olhar de pura antipatia.
A mãe partiu sem despedirse, e Margarida não sabia se um dia voltaria com novas exigências.
***
Hoje, ao lembrarme de tudo, vejo que a vida me trouxe a Vítor, a nossa filha Natália e um lar modesto, mas cheio de amor. As sombras do passado ainda rondam, mas já não me afligem como antes.
É tudo culpa tua! gritou a mãe, ao telefone, chorando. Por tua causa, o Tiago morreu!
Não preciso de ajuda nenhuma, mãe respondi, sentindome triste por ele, mas distante como um estranho.
Assim se encerram as memórias de uma infância marcada por rejeição e de um futuro construído com a força de quem realmente nos amou.
