– Vera, no fim das contas, nada de grave aconteceu! Mas acontece aos homens – perderam o controle e não conseguiram parar a tempo. – Seja mais prudente. Você realmente vai ceder seu marido a outra garota? Ela vai achar que te venceu! Lute pela família! – Sogra persuasavaVera, com determinação nos olhos, respondeu firmemente que jamais abandonaria seu marido, pois o amor da família era sua força maior.

Então, Madalena, no fim das contas não aconteceu nada de grave! Homens às vezes perdem o controle, não conseguem frear a tempo diz a sogra, voz a flutuar como névoa sobre o quarto.
Seja mais sensata. Vai mesmo ceder o teu marido a outra menina? Ela vai achar que venceu! Luta pelo teu lar! insiste a mulher de prata, cujas mãos brilham como castiçais de fado.

No sábado ao alvorecer, Madalena entregou o filho Dinis aos pais. Combinou que o marido Jorge ficaria um tempo na casa dos avós, enquanto ela partia para o seu próprio destino.

Ao regressar, subiu ao varão e arrancou das janelas caixas de papelão, como se fossem barcos a esperar o mar. Primeiro vasculhou o quarto da criança, empilhando roupas, brinquedos, livros; fechava as caixas com fita adesiva e escrevia rótulos em letra curvilínea. Falava ao silêncio que, dentro de pouco, só restariam os móveis que jamais pretendia levar.

Por volta das doze, o telemóvel vibrou. Na tela, o nome Nina Vitorina.
Bom dia, Nina Vitorina respondeu Madalena, com a voz ainda embotada pelo sonho.
Olá, minha filha. O Jorge contoume tudo. Eu sei que dói, mas não te apresses. Espera um pouco, esfria a cabeça, pensa. Não destruas a família assim, por um instante implorou a sogra, cujas palavras ecoavam como um canto de sereia.

Não sou eu quem destrói a família, é o Jorge rebateu Madalena, os olhos a brilhar como faróis de um farol invisível.

Não te escapo da responsabilidade, mas talvez, só talvez, possas perdoar um primeiro deslize? insinuou Nina, como se oferecesse um biscoito de mel.

Que primeiro deslize? O teu filho tem seis meses e já se mete em confusões com a colega, enganandome. E tu dizes perdoar? cortou Madalena, a voz a quebrar como vidro.

Pensa novamente, querida. Estás a privar o Dinis do pai. E o Jorge adora o filho! sussurrou a voz que parecia vir de dentro da parede.

Nina Vitorina, o Jorge pode ver o Dinis, eu não vou impedir. Mas não quero viver mais com ele. Vamos acabar aqui disse Madalena, fechando duas últimas caixas, deslocandose para o quarto e empilhando o seu guardaroupa nas malas como se fossem pedaços de nuvem.

Exatamente uma hora depois, Nina apareceu na porta, como um fantasma de lenço branco, decidida a convencer a nora a não despedaçar o lar. O diálogo entrou num círculo eterno:

Madalena, nada grave aconteceu! Homens, às vezes, são como torrões de ferro que rolam ladeira abaixo.

Seja mais sábia. Vai realmente ceder o teu marido a outra rapariga? Ela pensa que te venceu! Luta pelo teu lar!

Nina Vitorina, Jorge não é um troféu que eu deva lutar por ele! Querem que eu convide a Jana para um duelo? Ou para o ringue? Que papel tem ela aqui? Se não fosse a Jana, teria aparecido a Élia ou a Cristina.

Vou contar-te um segredo: o Ivo, pai do Jorge, também pecou na juventude. Eu fui mais prudente que tu, guardei a família. Vês? Já quase trinta e cinco anos juntos. Breve celebraremos o jubileu de coral.

E qual foi a tua sabedoria? sorriu Madalena, curiosa como quem procura uma chave.

Não criei tempestades. Pelo contrário, fui mais doce: preparei as suas receitas favoritas, interesseime pelos seus assuntos, cuidei de mim mudei o corte de cabelo, emagreci, sai do trabalho com sorriso explicou a sogra.

Às vezes sabia que ele vinha de uma amante e quis lhe servir não chinelos, mas uma panela para bater na sua cabeça. Mas eu sorri, aguentei, e ainda assim o mantive ao meu lado. O filho cresceu com o pai, e o avô ainda está aqui.

Nina Vitorina, és incrível. Eu nunca conseguiria. Meu instinto de repulsa está tão desenvolvido que o que sugeres é como comer de um balde sujo respondeu Madalena, a voz a tremular como vela ao vento.

A sogra estourou, levantouse num salto abrupto e, sem despedirse, desapareceu pela porta como fumaça de cigarro.

Madalena continuou a embalar as coisas, consciente de que ainda não era o fim; Jorge e Nina ainda lhe tirariam os nervos. Por isso, apressavase a abandonar aquele apartamento que parecia um labirinto de sombras.

No dia seguinte, domingo, chegou seu pai. Juntos, encheram as malas e as caixas num carro um fiapo de carroça de carga e partiram. No caminho, Madalena pediu ao pai que parasse junto à casa da sogra para entregar as chaves do apartamento.

Imagina, contou Madalena à amiga Margarida no dia seguinte, ontem a sogra passou uma hora a suplicar que eu perdoasse as pequenas travessuras do Jorge e não pedisse o divórcio.

E que argumentos usou? perguntou Margarida, curiosa.

Os de sempre: Estás a privar a criança do pai, Todos os homens traem, As mulheres devem ser mais sábias. Depois contoume como, na mesma situação, ela trouxe o marido de volta ao ninho.

E como? insistiu a amiga.

Não vou detalhar, mas era um caos total. Não vais seguir esse caminho.

Já apresentaste o pedido de separação? indagou Margarida.

Sim, na sextafeira passada respondeu Madalena.

Então vais se livrar desse Don Juan. Era triste vêlo com a outra, com a Jana, a girar como pião disse Margarida.

O que significa era triste vêlo? Sabias que ele estava com a Jana? retrucou Madalena, ofendida.

Não sabia ao certo, mas suspeitava respondeu a amiga, culpada.

Por que não me contaste? Eu pensava que éramos amigas protestou Madalena, levantandose para ir embora.

Espera! deteve Margarida. Primeiro, eu realmente não sabia nada. Vi o mesmo que tu, tirei conclusões diferentes. Lembrate da festa da empresa?

A Jana rodopiava ao redor do Jorge. Viste isso? Quantas vezes ela fingiu viagens de negócios só para estar com ele?

Tu trabalhas na contabilidade, lidando com documentos. Por que não percebeste que a Jana substituía alguém nos deslocamentos de última hora? Suspeitei, mas não te falei porque não tinha certeza.

Poderias ter deixado uma pista.

E se eu estivesse errada e tudo fosse apenas imaginação? Que pensarías de mim? Lembraste da Svetlana Belev?

Ela contou que viu o marido com outra mulher, mostrou foto dele a abraçar a outra. O caso acabou em reconciliação, mas a Svetlana foi acusada de querer destruir a família por inveja.

Depois ela saiu da empresa. Não leves a peito. Se eu tivesse provas de ferro, diria. Agora conta, onde vais viver?

O apartamento não é meu; está no nome da sogra, então eu e o Dinis deixámos. Por enquanto moramos na casa dos meus pais.

Daqui a uma semana, vamos reformar o apartamento da avó disse Madalena. Os inquilinos foram embora há um mês. São duas divisões, não três, mas basta para nós.

Ainda precisamos resolver a creche acrescentou Margarida. A antiga é longe, mas a mãe de Dinis prometeu ajudar a transferir para a que fica no nosso quintal. Vou pedir a pensão alimentícia.

O Jorge aceita o divórcio? perguntou Margarida.

Ele diz que não quer, que aprendeu a lição e não vai repetir. Eu já não aguento. Já bastou. Ele pediu que eu não mova a pensão, pois vai pagar sozinho.

E tu?

Sou contra. Não quero mais cruzar com ele. Que tudo fique oficial. Ele chegou a dizer que ficaria com o filho, que tem casa melhor e salário maior.

Não respondi, só contei quantas viagens de negócios ele fez no último ano disse Madalena. Foram oito. Guardei essa informação para o tribunal. Quando ele quiser o Dinis, perguntarei onde a criança ficará quando ele estiver fora. Tenho trabalho, tenho casa. Não vai conseguir nada.

De fato, o Jorge entrou com um pedido de definição de residência para o filho, alegando que a exesposa não garantiria o padrão de vida necessário. Nina Vitorina, por sua vez, acusoua de esconder o menino:

Ela saiu do apartamento, levou o menino da creche. Pensávamos que viveriam na casa dos pais da Madalena, mas ficaram só uma semana e desapareceram.

Madalena explicou que morava num apartamento de dois quartos, que pertencia a ela, que o filho frequentava a creche ao lado da residência, e que as constantes viagens de trabalho do Jorge impossibilitariam a sua participação na criação.

No fim, nada deu certo para a sogra nem para o exmarido. Madalena evitou cruzar caminhos com o Jorge e, após o divórcio, encontrou outro emprego era especialista reconhecida, nada a impediu.

Logo depois, Margarida trouxe novas notícias:

A Jana deixou o emprego e foi embora.

Que foi? indagou Madalena, surpresa.

As tias dela arranjaram tudo. Ela deu a volta ao mundo, percebeu que ali não havia mais nada, e mudouse para a capital. Agora o teu ex está sozinho.

Isso já não me afeta, respondeu Madalena, com um sorriso que se desfazia em fumaça.

E assim, no poço de onde se bebe, quanto se enche, não há como esvaziar

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– Vera, no fim das contas, nada de grave aconteceu! Mas acontece aos homens – perderam o controle e não conseguiram parar a tempo. – Seja mais prudente. Você realmente vai ceder seu marido a outra garota? Ela vai achar que te venceu! Lute pela família! – Sogra persuasavaVera, com determinação nos olhos, respondeu firmemente que jamais abandonaria seu marido, pois o amor da família era sua força maior.