Vem comigo!

Oi, amiga! Deixa eu te contar uma história que aconteceu aqui no interior, lá na serra alentejana. Era uma vez o avô Joaquim, um homem rústico que vivia numa casa grande, rodeada de animais. Um dia, ele subiu na bicicleta, pedalou até a aldeia de São Miguel e, enquanto voltava, avistou um cachorrinho muito peculiar. O bicho era tão estranho que até os aldeões o chamavam de solitário, como quem diz de alguém que não se mistura.

A história começa bem antes disso. Há muitos anos, quando Joaquim ainda era jovem, saiu à floresta à procura de bolotas. No caminho encontrou um filhote ainda adolescente abandonado no meio das árvores. Ninguém sabia como aquele cãozinho tinha ido parar lá, mas ele estava encharcado pela chuva, tremendo. Joaquim se aproximou, apesar da aparência desengonçada e do pelo emaranhado.

Os olhos do cão eram castanhos, mas não pareciam os de um filhote; eram olhos de quem já viu muito. O avô, intrigado, disse:

Vem comigo! Não tenho cão no quintal agora. Vai ser um bom vigia, prometo que não te trato mal!

Ele então pegou a bicicleta e voltou à sua casa. No caminho, Joaquim deu várias voltas, mas ninguém o seguia. Acabou esquecendo o encontro na floresta.

Chegando ao lar, encontrou um verdadeiro império animal: três leitões, uma porca com dez leitões, a vaca Milca, um bocado de galinhas, seis patos com seus patinhos e, claro, o gato Plutão. Joaquim acendeu um cigarrinho (ele nunca gostou de coisas de loja) e, ao abrir o portão, sentouse na varanda para descansar.

Foi então que o olhar castanho o fitou novamente, tão intenso que o avô ficou sem saber o que fazer.

Então, vamos ao quintal? perguntou ele, depois de um longo silêncio. O filhote recuou, desaparecendo na sombra.

Passaramse dias, noites, e aqueles olhos permaneciam nele, como se avaliassem a sua alma. Até que, certo entardecer, o animal apareceu novamente, cheirou o avô e deitouse aos seus pés.

Joaquim não era um homem de afeto fácil; tratava os bichos como recursos. Já tinha matado porcos, vacas, galinhas Mas o quintal estava vazio de um cão que guardasse a casa. No início do verão, o veterinário diagnosticou carrapatos, e o avô, sempre duro, não se preocupou muito.

A esposa dele, Dona Catarina, era ainda mais forte de espírito. Todo o vilarejo lembravase de como ela dava um golpe de punho na testa de quem ousasse brincar com as galinhas quando vinha a hora de alimentar.

Joaquim, ainda com o cigarro na mão, olhou para o filhote ao seu lado.

Olha, bichinho, parece que decidiste ficar, né? Vou alimentarte duas vezes ao dia, o que Deus quiser, mas não vou abusar. Tenho uma casinha quentinha. À noite soltote um pouco, mas preciso que vigies o quintal, para ninguém passar sem medo. Se aceitares, vem comigo!

E foi assim que o cão ganhou o nome Lurdes. O avô nunca revelou de onde tirou aquele nome tão bonito e melódico, mas Lurdes agora tinha uma casinha, um grande haras e até uma coleira.

Com o tempo, aquela criaturinha desengonçada cresceu e tornouse um enorme cão majestoso, temido por toda a aldeia. Sussurravam por aí que nos ancestrais de Lurdes havia lobos. Era uma mistura de força e graça, com hábitos nada caninos: nada de abanarabo exagerado nem de lamber as mãos.

Quando avô Joaquim, a Catarina ou algum parente se aproximava, Lurdes ficava deitada, observando com olhos inteligentes. Mas se alguém estranho chegasse perto, quase não latia; apenas rosna, e o rosnado era assustador, sobretudo durante o dia. Por causa disso, moveram a casinha para o jardim, para que ninguém tropeçasse no portão.

À noite, Joaquim soltava Lurdes da coleira e dizia:

Volto daqui a três horas, fica aqui! As leiteiras têm medo de passar por ti na ordenha da manhã Não morde ninguém!

Lurdes nunca mordeu ninguém; parecia que tinha outros interesses. Sempre que o avô a encontrava na casinha, lhe dava um carinho, e ela devolvia o respeito. E, como era natural, Lurdes tinha filhotes de vez em quando, que se espalhavam pela aldeia como pãezinhos frescos. Pessoas de aldeias vizinhas vinham buscar os filhotes, pois, apesar do medo que provocava, respeitavam o animal.

Numa tarde de verão, Lurdes estava a repousar ao sol, de um lado da casinha, e observava, com um olho, a pequena Maria, de três anos, a brincar na caixa de areia sob a sombra de um carvalho ao lado do portão. Do outro olho, viu a avó Catarina a mexer na horta.

Maria adorava Lurdes. Correu até ela, espalhando os braços:

Lurdes! Lurdes!

O coração canino de Lurdes bateu mais forte de alegria. Ela vigiava Maria, a avó Catarina e acabou adormecendo.

De repente, acordou com alguém a arranhar o nariz. Era o gato Plutão, que miava desesperado:

Faz alguma coisa! Maria vai se afogar!

Lurdes olhou ao redor, mas Maria não estava nem na caixa, nem no balanço, nem perto da árvore. O gato apontou:

Ela foi para a lagoa, a roupa está na água! Ela está a tentar entrar! Ajudame!

Lurdes soltou um uivo que nunca tinha feito antes, tão alto que parecia um lamento de lobo. Ela correu, arranhou o ar, tentou quebrar a coleira, tudo para alcançar a lagoa.

A avó Catarina, ao ouvir o barulho, se levantou e exclamou:

Que horror, uma besta de cão! mas logo se apressou a procurar Maria.

Lurdes continuou a uivar, um uivo tão terrível que a gente sente os pelos de pé. Quando a avó finalmente encontrou a menina, puxoua da lagoa e a salvou. O alvoroço tomou conta da aldeia: chegou a ambulância, os pais de Maria choravam e riam ao mesmo tempo.

Ao cair da noite, o senhor Ivo, pai de Maria, apareceu com o avô Joaquim e a Catarina. Ivo sentouse ao lado de Lurdes e disse:

Obrigado por salvar a minha filha! Prometo que, se quiseres, vem viver comigo na cidade. Tenho uma casa grande, um parque enorme, e vou alimentarte bem. Quero que vivas feliz!

Lurdes olhou com os seus olhos castanhos, ficou em silêncio, apoiou a cabeça no ombro de Ivo por uns segundos e depois voltou ao avô Joaquim, deitandose aos seus pés. O velho ficou parado, sem saber como reagir a esse gesto de carinho, e as lágrimasrarasescorreram pelos cantos dos olhos.

E assim termina a história de Lurdes, a cadela que começou como um filhote solitário e acabou por ser a guardiã de um quintal, a heroína de uma aldeia e, quem sabe, talvez um dia, a companheira de um lar na cidade.

Um beijo, e até à próxima história! Anos depois, quando a senhora Catarina já não conseguia mais erguer os sacos de terra e o avô Joaquim contava sombras de um passado que ainda cheirava a leite quente, a gente percebeu que Lurdes nunca havia sido só um cão. Ela se tornara a própria alma da serra, um guardião silencioso que, ao anoitecer, fazia o vento cantar nas folhas como se fosse uma canção de ninar a todos que ainda tinham coragem de sonhar.

Numa manhã de outono, a filha de Ivo, agora adolescente, encontrou no pomar uma caixa de madeira coberta de musgo. Dentro havia um velho diário de couro, com a capa marcada pelo tempo e pelas patas de Lurdes. As páginas continham os relatos do cãoguardião: as noites em que acompanhou Joaquim nas colheitas, os segredos que ouviu dos ratos que roeu o celeiro e, sobretudo, a promessa que fizera a si mesmo de proteger aquele canto de terra, mesmo que o mundo inteiro mudasse ao seu redor.

Ler o diário trouxe lágrimas ao rosto de todos, mas também uma certeza: a coragem não está no tamanho dos dentes, mas no peso do coração. Assim, decidiram transformar o velho quintal em um pequeno museu ao ar livre, onde as crianças podiam correr livremente sob a sombra da velha figueira, e onde o nome Lurdes era gravado em pedra, ao lado de um retrato da cadela de olhos castanhos que ainda parecia observar tudo, como se soubesse que a história nunca termina realmente.

Quando o sol se pôs naquele dia, um uivo suave e distante ecoou pelos vales não de medo, mas de saudade e gratidão. Era Lurdes, ou talvez a memória dela, lembrando a todos que, enquanto houver quem cuide dos pequenos gestos, a luz de um coração generoso jamais se apagará.

E assim, sob o brilho das estrelas que ainda cobriam a serra alentejana, a aldeia aprendeu a ouvir o som do vento, a ler nas pegadas do tempo e a contar, de geração em geração, a lenda de um cão solitário que encontrou seu lar no coração de quem soube amar.

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