Desesperada, ela concordou em casar com o filho do rico empresário que não sabia andar… E, um mês depois, ela percebeu…

Estás a brincar comigo, dissese Tânia, fitando Manuel Correia com os olhos tão abertos que pareciam duas luas cheias.

Ele balançou a cabeça, como quem tenta afastar nuvens pesadas.

Não, não brinco. Doute tempo para refletir. A proposta não é daquelas que se encontram à rua. Até consigo adivinhar o que estás a pensar agora. Pesa tudo, pensa bemcalmo volto daqui a uma semana.

Tânia viuo afastarse, aturdida. As palavras que acabara de ouvir não conseguiam entrar na sua cabeça como água fria num copo quente.

Conhecia Manuel há três verões. Ele era dono de uma rede de postos de abastecimento espalhados entre Lisboa e Setúbal, e de outros negócios que brilhavam como faróis na névoa. Tânia trabalhava a tempo parcial como limpajanelas num desses postos. Sempre cumprimentava a equipa com um sorriso e uma palavra amiga; era um homem justo, na verdade.

O salário no posto era razoável, por isso havia sempre uma fila de candidatos. Há dois meses, depois de terminar a limpeza, Tânia estava sentada na escadaria do posto, a esperar o fim do turno, quando a porta de serviço abriuse de repente e Manuel apareceu.

Posso sentarme?

Tânia saltou da cadeira.

Claro respondeulhe, sem nem pensar.

Por que te pões de pé tão depressa? Senta, não mordo. Está um dia lindo.

Ela sorriu, sentouse outra vez.

Sim, na primavera parece que o tempo está sempre a favor.

É porque já estamos fartos do inverno.

Talvez tenhas razão.

Ele puxouse na cadeira, olhando para o horizonte como se procurasse respostas nas nuvens.

Sempre me perguntei: por que trabalhas como limpajanelas? A Leonor ofereceute mudarte para operadora, não foi? Melhor salário, trabalho mais leve.

Gostava bastante, mas o horário não encaixa explicou Tânia a minha filha, a pequena Madalena, adoece frequentemente. Quando está bem, o vizinho pode ficar com ela; mas quando se agrava, preciso estar ao lado. Por isso eu e a Leonor trocamos turnos sempre que é preciso. Ela ajudame sempre.

Entendo O que se passa com a menina?

Não pergunte Os médicos não compreendem. Tem crises falta de ar, pânico, tantos sintomas. Os exames mais sérios são privados e dizemnos que devemos esperar, que talvez um dia ela cresça e a coisa passe. Eu não consigo esperar

Aguenta firme. Vai passar, tenho fé.

Tânia agradeceu. Naquela noite, Manuel entregoulhe um envelope com um bónus inesperado, sem explicações, apenas o dinheiro 500 euros, cintilando como estrelas na palma da mão.

Ela não o viu mais. Até que, na manhã seguinte, ele apareceu à porta da sua casa.

Ao vêlo, o coração de Tânia parou por um instante. Quando ouviu a proposta, o frio tornouse ainda mais gélido.

Manuel tinha um filho Ângelo, quase trinta, confinado a uma cadeira de rodas desde um acidente há sete anos. Os médicos fizeram tudo o que puderam, mas ele nunca voltou a levantarse. A depressão, o isolamento, a recusa quase total de falar, até ao próprio pai.

Então Manuel teve uma ideia: casar o filho. De verdade. Para que Ângelo recuperasse um sentido, um motivo para lutar. Não sabia se funcionaria, mas achou que Tânia seria a pessoa ideal.

Tânia, vais ser bem cuidada. Terás tudo de que precisas. A Madalena receberá todos os exames, todo o tratamento necessário. Ofereçote um contrato de um ano. Passado esse tempo poderás ir embora o que quer que aconteça. Se o Ângelo melhorar ótimo. Se não recompensarei generosamente.

Tânia ficou sem respirar; o choque a deixou muda.

Como se lesse os seus pensamentos, Manuel prosseguiu em voz baixa:

Por favor, ajudame. É uma troca justa. Não sei se o meu filho sequer te tocará. E será mais fácil para ti serás respeitada, oficialmente casada. Imagina casarnos não por amor, mas por necessidade. Só peçote que não contes a ninguém o que falamos.

Espera, Manuel E o Ângelo concordaele?

O homem sorriu com tristeza.

Ele diz que não lhe importa. Direi a ele que tenho problemas nos negócios, na saúde O que importa é que esteja casado, legitimamente. Sempre confiou em mim. É uma mentira para o bem maior.

Manuel saiu, e Tânia ficou sentada, insensível, o sangue a ferver de indignação. Contudo, a franqueza do homem tirou-lhe um pouco da dureza da proposta.

E se pensasse na pequena Madalena? O que não faria por ela? Qualquer coisa.

Ele também era pai. Amava o filho, também.

O turno ainda não tinha acabado quando o telefone disparou:

Tânia! A filha está a ter outra crise! Uma forte!

Vou já! Chamem a ambulância!

Chegouse ao portão exatamente quando a viatura parou.

Onde estiveste, mãe? perguntou o médico com severidade.

No trabalho

A crise era realmente grave.

Será que vamos ao hospital? indagou Tânia, tímida.

O médico, que lá estava pela primeira vez, fez um gesto cansado.

Que importa? Não vão ajudar lá. Só vão agitar a criança. Melhor ir à capital, a Lisboa, a um bom centro, com especialistas de verdade.

Quarenta minutos depois, os médicos foram embora. Tânia discou Manuel.

Concordo. Madalena teve outra crise.

No dia seguinte, partiam. Manuel chegou a buscálas, acompanhado de um jovem de barba limpa.

Tânia, leva só o essencial. O resto compramos no caminho.

Ela assentiu. Madalena curiosa examinava o carro, grande e reluzente.

Manuel se agachou ao lado da filha.

Gostas?

Muito!

Queres sentarte à frente? Assim vês tudo.

Posso? Quero mesmo!

A menina virouse para a mãe.

Se a polícia vir, vai darnos multa advertiu Tânia.

Manuel riu, abriu a porta.

Sobe, Madalena! E se alguém quiser multar, multamos a eles!

Quanto mais se aproximavam da casa, mais nervosa ficava Tânia.

Ó Deus, por que concordei? E se ele for estranho, agressivo?

Manuel percebeu a ansiedade.

Tânia, relaxa. Ainda temos uma semana antes do casamento. Podes mudar de ideia a qualquer momento. E o Ângelo é um bom rapaz, inteligente, mas algo ficou partido dentro dele. Verás por ti mesma.

Tânia saiu do carro, ajudou a filha a descer e, de repente, ficou imóvel, olhando para a casa. Não era só uma casa; era um palacete de conto de fadas, com torres que pareciam tocar o céu. Madalena, incapaz de conter a alegria, exclamou:

Mãe, vamos viver como nos contos agora?!

Manuel, rindo, ergueu a menina nos braços.

Gostas?

Muito!

Até ao casamento, Tânia só encontrou Ângelo algumas vezes no jantar. O jovem mal comia, mal falava. Sentavase à mesa, presente em corpo, mas com a mente a flutuar nas nuvens. Tânia observavao atentamente. Era bonito, pálido, como se o sol nunca o tivesse beijado. Sentia que ele, como ela, carregava dor. E agradecia que não levantasse a questão do casamento iminente.

No dia da cerimónia, parecia que cem pessoas zumbiam ao redor de Tânia. O vestido chegou literalmente no dia anterior; ao vêlo, ela caiu numa cadeira.

Quanto custou isso? perguntou.

Manuel sorriu.

Tânia, és demasiado impressionável. Melhor não saberes. Olha o que mais tenho.

Tirouse do bolso uma miniatura do próprio vestido.

Madalena, vamos experimentar?

A menina gritou tanto que tiveram de tapar os ouvidos. Depois veio o provador a pequena princesa desfilou pela sala com dignidade, radiante.

Num instante, Tânia virouse e viu Ângelo. Ele estava na porta do quarto, a observar Madalena. Nos olhos, um sorriso à espreita.

Madalena agora dormia no quarto ao lado do casal. Não há muito tempo atrás Tânia não imaginava viver ali.

Manuel sugeriu ir à casa de campo, mas Ângelo balançou a cabeça.

Obrigado, pai. Ficaremos aqui.

A cama era enorme. Ângelo mantinha distância, sem fazer movimentos. Tânia, que planeara vigiar a noite inteira, adormeceu rapidamente, como se fosse abraçada por um cobertor de nuvens.

Passouse uma semana. Começaram a conversar ao cair da noite. Ângelo revelouse incrivelmente inteligente, espirituoso, apaixonado por livros e ciência. Não tentou chegar mais perto, mas Tânia foise soltando.

Numa madrugada acordou com o coração a palpitar.

Algo não está bem

Correu ao quarto da filha. O medo materializouse: Madalena estava em crise.

Ângelo, ajuda! Chamem a ambulância!

Ele apareceu na porta num instante, agarrou o telefone. Um minuto depois, Manuel, ainda sonolento, entrou.

Vou chamar o António eu mesmo.

A ambulância chegou rapidamente. Os médicos eram estranhos, vestiam fatos modernos, aparelhos reluzentes. O médico de família chegou depois, conversou longamente depois da crise passar. Tânia sentouse ao lado da filha; Ângelo, próximo, segurava a mão da menina.

Tânia, perguntou ele suavemente, tem ela estas crises desde que nasceu?

Sim fomos a tantos hospitais, fizemos todos os exames, nada ajudou. Foi por isso que a minha excompanheira disseme para não atrapalhar a vida dele.

Amavaso?

Talvez. Mas foi há muito tempo

Então aceitas a oferta do meu pai

Tânia arqueou uma sobrancelha, surpresa.

Ângelo sorriu.

O pai pensa que não sei nada. Mas eu sempre o li como livro aberto. Tinha medo de quem ele escolheria para mim. Quando te vi, surpreendime. Não és alguém que faria isto por dinheiro. Agora parece que tudo se encaixa.

Olhoua nos olhos.

Não chores, Tânia. Curaremos a Madalena. Ela é lutadora. Não se partiu ao contrário de mim.

Por que te partiste? És inteligente, bonito, gentil

Ele deu um sorriso irónico. Sê sincera: casarias comigo se as coisas fossem diferentes?

Tânia hesitou, depois assentiu.

Sim. Acho que amarte seria mais fácil que amar os inúmeros homens que fingem ser heróis. Mas nem é isso. Não sei explicar.

Ângelo sorriu.

Não precisas de explicação. Por alguma razão, acredito em ti.

Dias depois, Tânia encontrouo numa atividade estranha. Ele tinha montado um aparelho complexo e tentava calibrálo.

É um treinador explicou. Depois do acidente, devia usaro três horas por dia. Decidi que já não importava. Agora sinto vergonha. Perante a Madalena. Perante ti.

Um bater à porta interrompeuos. Manuel apareceu no limiar.

Posso entrar?

Entre, pai.

O homem ficou imóvel ao ver o que o filho fazia. Engoliu em seco e voltouse para Tânia.

Digame as tuas dores de parto foram difíceis?

Por quê?

O médico disse que talvez tivessem arrancado a Madalena bruscamente e machucado o osso temporal. Por fora tudo parecia curado, mas por dentro há um nervo a ser pressionado.

Tânia afundou numa cadeira.

Não pode ser O que fazemos agora?

Lágrimas escorreram-lhe pelo rosto.

Calate, não chores disse Manuel. O médico disse que não é sentença de morte. Precisa de cirurgia. Vão retirar o que está a apertar, e a Madalena ficará saudável.

Mas é a cabeça dela É perigoso

Ângelo tomoua pela mão.

Ouve o pai. A Madalena vai poder viver sem crises.

Quanto vai custar?

Manuel ficou boquiaberto.

Isso já não te compete. És família agora.

Tânia ficou no hospital com a filha. A cirurgia correu bem. Em duas semanas deveriam regressar a casa.

Casa.

Mas Tânia já não sabia onde realmente era o seu lar.

Ângelo ligava todos os dias. Falavam longas horas sobre Madalena, sobre eles, sobre pequenas coisas. Sentiase como se se conhecessem desde sempre.

O contrato de um ano aproximavase do fim. Tânia tentava não pensar no que viria depois.

Na noite da partida, Manuel veio buscaras sombrio, tenso.

Aconteceu alguma coisa?

Não sei como dizer Ângelo tem bebido nos últimos dois dias.

O quê? Ele nunca bebia!

Pensei o mesmo. Estava a treinar há um mês, a progredir e então explodiu. Diz que nada funciona.

Tânia entrou na sala. Ângelo estava sentado na escuridão. Ela acendeu a luz e começou a recolher as garrafas da mesa.

Onde vais pôr isso?

Já não bebes mais.

Por quê?

Porque sou a tua esposa. E não gosto quando bebes.

Ângelo ficou pasmo.

Não vai durar muito Madalena está saudável. Não tens mais razão para ficar com um homem inválido.

Tânia endireitouse.

Queres dizer com um idiota? Ângelo, pensei que fosses forte e inteligente, que aguentarias tudo. Estava tão errada?

Ele abaixou a cabeça.

Desculpa acho que não consegui lidar.

Bem, agora estou aqui. Talvez devêssemos tentar outra vez?

O ano acabou. Manuel estava nervoso: Ângelo começara a andar com andador. Os médicos diziam que logo poderia caminhar, talvez até correr.

E Tânia chegara a hora de partir.

Talvez ofereçamos mais dinheiro? perguntou Manuel à esposa, timidamente.

No jantar, apareceu Tânia, com Madalena e Ângelo na cadeira de rodas.

Pai, temos notícias disse Ângelo.

Manuel estreitou os ombros e olhou para Tânia.

Vais embora, não é?

Tânia e Ângelo trocaram olhares. Ela balançou a cabeça.

Não exatamente.

Não me tortures!

Vais ser avô. Madalena vai ter um irmãozinho ou uma irmãzinha.

Manuel ficou em silêncio. De repente, saltou, abraçou os três e chorou um choro forte, como se temesse acordar de um sonho.

Lágrimas de alegria, de alívio, de perceber que a sua família finalmente era, de verdade, uma família.

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Desesperada, ela concordou em casar com o filho do rico empresário que não sabia andar… E, um mês depois, ela percebeu…