Convidados IndesejadosQuando a porta se abriu, revelando sombras que sussurravam promessas de caos, a família percebeu que os convidados indesejados já estavam dentro.

O telefone despertou a Vânia às cinco da manhã. Era de um número desconhecido.

Sim respondeu Vânia, de forma seca.

Vânia? ouviu ela uma voz feminina, alta e alegre. É-lhe a chamar?

Sou eu respondeu Vânia, indiferente.

E eu sou a Rita disse a mulher, radiante. Reconheceume?

Reconhecia, respondeu Vânia por cortesia, sem ter a menor ideia de quem fosse.

Eu também estava certa de que me reconheceria de imediato continuou Rita, ainda mais entusiasmada. Ainda bem que consegui falar consigo. Podemos conversar agora?

Posso.

Ótimo. Eu, o meu marido, os nossos filhos e eu já estamos na estação. Saímos do comboio há uma hora. Consegue ouvirme bem?

Sim.

O seu tom está um pouco baixo. Tem a certeza de que está tudo bem, Vânia?

Tudo ótimo.

Que bom! No início íamos ficar num hotel, pois pensámos que não tínhamos parentes nesta cidade. Mas lembrámosnos de si. Percebe?

Percebo.

É fantástico que tenha surgido a sua lembrança. Nem imagina a alegria que ficou a nossa família. As crianças especially.

Imagino bem.

O meu marido disse na hora: «Liga para a Vânia. Ela não nos vai deixar na mão».

Ele acertou. Eu não a deixarei na mão.

Então, poderemos ficar na sua casa? Entendi bem?

Entendeu. Pode ficar.

Ficaremos aqui só uns poucos dias prosseguiu Rita, ainda mais feliz. Só duas semanas, dá uma volta pela cidade e depois voltamos para casa. Em casa há mil coisas para fazer, e como se costuma dizer, em casa é melhor. Concorda?

Concordo.

Eu é que pensava o mesmo. O meu marido dizia que não podia ser que a Vânia não nos recebesse. Afinal, somos família. Mesmo que distante, mesmo que não nos vejamos há dez anos, continuamos família. Não é?

É verdade.

Vive sozinha agora?

Sozinha.

Numa casa de três quartos?

Sim.

Então vamos até à sua porta?

Vão embora.

Chegaremos dentro de uma hora. Ainda está lá?

Ainda estou.

Então espere. Chegaremos já.

Estou à espera respondeu Vânia.

Rita desligou o telemóvel, pôso sobre a mesa de cabeceira, virouse, puxou o cobertor até à cabeça e adormeceu, sem se preocupar muito com quem acabara de conversar.

Uma hora depois ouviuse o som da campainha da porta. Rita olhou para o relógio, fechou os olhos e virouse. O telefone voltou a tocar. Vânia dormia.

Depois de algum tempo, alguém começou a bater à porta. Vânia mantevese impassível. Finalmente, o celular tocou outra vez.

Sim disse Rita, sem abrir os olhos.

Vaniinha? exclamou a mesma mulher, ainda alegre.

Sim.

Somos nós. Chegámos. Tocamos e ligamos, mas não abre a porta.

Estão a chamar?

Sim.

Porque não a ouço?

Não sei.

Ligue outra vez, por favor.

O telefone da casa voltou a tocar.

Estamos a chamar disse a mulher.

Não, respondeu Vânia, não a ouço. Agora bata.

Bateram à porta.

Estamos a bater repetiu a mulher.

Não, respondeu Rita, não ouço.

Acho que estou a repetir, disse a mulher, um pouco irritada.

O quê? perguntou Vânia.

Onde está, Vaniinha?

Onde? Em casa.

Em casa onde?

Em Lisboa respondeu Vânia, a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Onde mais poderia estar?

Como em Lisboa? Por que não no Porto?

Mudeime há nove anos, logo depois do divórcio.

Por quê?

Porque me cansava o Porto, cheio de recordações desagradáveis.

É melhor em Lisboa?

Muito melhor.

O que há de melhor?

Tudo! Não há mais lembranças chatas. Mas fala menos, venha ver por si próprio. Quantos são?

Somos quatro: eu, o meu marido e os dois filhos. O mais velho chamase Pedro, o mais novo André. O André está na terceira tentativa de entrar na universidade este ano.

Então venham todos os quatro. Temos também uma universidade excelente aqui.

Quando devemos chegar?

Já, se puderem.

Agora não dá. Tenho imenso trabalho em Lisboa. O André só quer estudar lá. Nós viemos aqui para arrumar emprego. Planeávamos ficar consigo um ano, mas olha como ficou.

Então não vêm hoje?

Não.

Que pena. Eu já estava pronta para vos receber.

Também nos entristece. Nem imagina.

Eu consigo imaginar.

Não. Quando penso no que nos espera, não me apetece viver.

Rita decidiu que era hora de encerrar a conversa.

Muito bem disse ela , se não podem agora, venham quando puderem. Estou sempre feliz em vos ver. Quando se instalarem em Lisboa, digame a sua morada. Eu vou fazer uma visita, também por duas semanas. Depois veremos o que se passa. Afinal, já não tenho ninguém em Lisboa, a não ser você. Está combinado? Vai mandarme o endereço?

Mas Rita não ouviu resposta; a ligação cortou de repente.

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