Filomena, vamos comer! Já chega de ficar deitada! ecoou, irritado, a voz do marido sobre a cabeceira.
A cabeça latejava, a garganta ardia, o nariz estava entupido! Tentou levantarse o corpo parecia algodão. Não era de admirar que estivesse doente.
A semana inteira fez um calor escaldante, e ontem, ao anoitecer, começou a nevar com chuva. Primavera, quem diria! Chamar um táxi naquela situação era impossível; não é de se estranhar. Acabou por ter de voltar do trabalho num autocarro urbano. Esperou trinta minutos pelo ônibus, que chegou lotado. Mal entrou no interior, já foi vitória. Ainda teve de caminhar um bom trecho da paragem até à porta.
Mesmo pedindo ao marido que a colhasse no caminho:
Lurdes, eu e o Tiaguzinho passamos na casa da mãe. Chegaremos tarde anunciou Vítor.
Como sempre
Assim, Filomena chegou a casa tarde, toda encharcada e congelada. Olhou o relógio: 8 da manhã. Sábado.
Vítor, traz o termómetro, por favor! suplicou ela.
O quê? Está doente? espantou Vítor. E o pequeno-almoço?
Vai fazer você mesmo? pediu a esposa.
Como assim, eu? ficou perdido o marido. E o Tiago?
O rapaz tem dez anos! E tu és um homem de verdade. Prepara uns ovos mexidos. Deixa que o filho ajude; eu já lhe ensinei a cozinhar, já está crescido.
Ensinaste o filho a cozinhar? exclamou Vítor.
Sim. Mas ele vive com o telemóvel o dia todo, não quer fazer mais nada encolheu os ombros Filomena.
Estás doente de gravidade? Um homem não tem de saber cozinhar, nem de aprender! Isso é coisa de mulher! irritouse Vítor. Está bem, vamos para a casa dos pais, já que não tens tempo para nós. Amanhã à noite voltamos.
E, num piscar de olhos, Vítor e o sogro partiram para a casa dos pais de Vítor. Filomena, ainda fraquinha, arrancou o termómetro, ligou a chaleira e ficou a pensar
«Por que tudo isto aconteceu? Quando foi que o momento em que o marido poderia, sem esforço, preparar não só para ele mas para mim, se perdeu? Quando deixámos de cuidar um do outro na doença? Quando as tarefas domésticas se tornaram só a minha responsabilidade?»
O termómetro marcava 39,2°C. Tomou o remédio e foi para a cama.
Mais tarde, o telemóvel despertoua. Era a mãe:
Filomena, por que não respondes? Eu esperava o teu telefonema de manhã reclamou Vitória, a sogra.
Mãe, estou um pouco doente. Tomo o remédio e volto a dormir respondeu Filomena, rouca.
Ah, só um bocadinho! E onde está o Vítor? Ainda na casa da mãe dele? resmungou a sogra.
Partimos com o Tiago para não nos contagiarmos respondeu sem ânimo a filha.
Você realmente acredita nisso? Não contagiarmos Diz-me logo, para não te sobrecarregares, até a louça ficar por lavar! irritouse a senhora.
Mas mãe! tentou argumentar Filomena, mas não lhe foi permitido. Sabia que a mãe já tinha razão.
Não te faça de inocente! Tenho o direito de me zangar. Eu caseite, não te vendi como escrava! Mediste a temperatura?
Sim. Estava alta de manhã, agora já está mais leve, só falta força. reclamou a filha.
Deitate! O pai vai buscarte, vou levantarte! Não é para ficar só doente, espera aí. desligou Vitória.
Filomena levantouse devagar, lavouse, juntou o portátil e as coisas necessárias, pronto para encontrar o pai.
Ai! o pai agarrou o peito ao ver a filha.
O quê, pai? O que se passa? assustouse Filomena.
Ah, és tu! o homem pegou a mala da filha. Eu já pensei que tinha encontrado a morte! Estou pálido de medo!
Pai! Por que assusta assim? riuse a filha. Vamos?
Vamos. Agarrate a mim, senão o vento te leva! ajudouo o pai a sentarse no carro. Estás tão magra, tão cansada. Olha, filha, a mãe tem razão, parece que te venderam como escrava. Perdoame, mas pareces um bocado…
Filomena não respondeu; estava cansada. Na casa dos pais havia calor, boa comida e, finalmente, um pouco de felicidade. Vitória cuidoua de verdade e, ao fim da tarde, Filomena começou a melhorar.
Lembrouse de ligar para Vítor e avisar que não estaria em casa. Ele respondeu com desprezo:
O quê? Não consigo trazer os remédios. Bebi umas cervejas com o pai. E daí? Hoje é sábado, vamos ver o futebol. Ah, a mãe queria falar contigo. e passou o telefone à mãe.
Filomena! És mulher! Não te podes ficar a relaxar e deixar o marido com fome! O que é importante na família? O homem tem de estar satisfeito, quente e fora do caminho! E tu? Só tomas uma pastilha e pronto! ironizou Kátia, a vizinha.
A própria mãe de Vítor, ao ouvir a conversa, apanhou o telefone:
Ah, minha nora! O marido que? Fraco? Doente? Como deve ser, quente, bem alimentado e sem tocar? protestou Vitória.
Por que fraco? Porque é homem de família! Todos os homens são assim. resmungou a sogra, surpresa com a resposta. Vítor, como está?
Como? Sempre a encrenca! Levanto a filha. Um verdadeiro homem não consegue cuidar da esposa! Nem compra remédios tomou a cerveja A esposa está doente e ele só se alegra. a relação era tensa.
Que disparates! Os rapazes foram embora para não incomodar a Filomena. bufou Kátia. Achamos a solução! Remédios, cuidados! Ela só é preguiçosa. Esquecida dos maridos! Mas eles são família! Não há problema! Vou cuidar dos meus rapazes! E a filha? Uma coruja!
Vitória ficou a olhar o telemóvel em silêncio.
Filha, realmente precisas disso? És ainda jovem! É exagero. a mãe ficou indignada.
Então chegou a mensagem do marido:
«Filomena, manda dinheiro? Falta até ao salário. Gastei tudo no Tiago. Tive de pagar as aulas e as coisas dele!»
«E eu sempre pagava o aluguer e a despesa do mês. Está tudo bem?», respondeu Filomena, incrédula.
«Claro, o apartamento é teu! Manda já, estou na loja!», insistiu Vítor.
«Não há dinheiro. Gastei nos remédios», mentiu.
«Como assim não? A tua doença nos custa caro! Pergunta aos teus pais», sugeriu ele.
«Pergunta à tua mãe», respondeu Filomena, surpresa.
«Ela não vai entender onde gastei o salário», retrucou Vítor.
«Não percebo», respondeu a filha.
«Sou um homem adulto. Tenho as minhas despesas. Não tenho de te prestar contas nem à mãe. Já estou na loja. Enviame!», gritou.
«Não vou enviar!», respondeu Filomena curtamente.
Ele respondeu a ela, chamandoa de avarenta, ingrata, má mãe e esposa. Filomena, finalmente, respondeu à sogra:
Não, mãe! Já não preciso.
A noite inteira ele e a sogra enviaram mensagens furiosas, ele zangado, ela a educar. Filomena simplesmente silenciou tudo.
No domingo de manhã, enquanto a família tomava o pequenoalmoço, Vítor ligou:
Filomena, vamos ficar com o Tiago na casa da mãe. Ela nos ama e cuida de nós, ao contrário de ti. Ela dizia que ainda não sabia que mãe seria. Tu não és mãe! Coruja! encerrou a chamada.
E assim está! exclamou Igor, o tio, a olhar a Filomena. O que tens a dizer?
Só vejo divórcio! Não quero, respondeu ela, a olhar o omelete com salsa. Decidiuse.
Mas não foi fácil!
Ótimo! Mãe, já vou embora. Chego ao almoço, talvez não consiga. gritou o pai, a sair da casa.
Filó, toma o remédio, desliga o telemóvel e vai dormir. Precisas de repousar. a mãe disse carinhosamente.
Filomena fez exatamente isso. Hoje era domingo, amanhã iria ao trabalho. Podia descansar.
Acordou a meiodia, e o pai chegou:
Olha, são as tuas chaves. Joga fora o que não serve! entregou.
O quê? ficou confusa Filomena.
Troquei as fechaduras da tua casa, juntei as coisas do Vítor e do Tiago e levei à sogra, depois devolvo. explicou o pai. Fica aqui por enquanto, ok? E não atendas ao telemóvel. Mais seguro assim.
Na cozinha, a mãe feliz preparava tudo. Sempre sonharam com isso, mas deixaram a filha descobrir por si mesma.
Filomena entrou com o pedido de divórcio. Recebeu críticas como estúpida, destruiu a família, coruja, mãe inútil, ingrata, e tudo isso foi o menos ofensivo.
Mesmo assim, estava feliz, pela primeira vez em muito tempo! O divórcio foi rápido; não tinham filhos nem bens partilhados. Um ano depois do casamento, Vítor decidiu que era mais barato levar o filho consigo do que pagar pensões. A exesposa não se opôs. Ele esqueceuse de pedir conselhos à Filomena, nem avisar. Não lhe importava que o Tiago e ele não se entendiam, que o rapaz estava a arruinar a vida da jovem. Vítor esqueceuse das despesas do filho, do apartamento que, afinal, pertencia a Filomena. Até a própria esposa ficou de fora. Por quê? Era mais fácil Ele era homem! Pai!
Mas o tribunal pôs ordem. O juiz, que Vítor tentou manipular, acabou por decidir por justiça. Vítor e o filho vivem agora com a mãe, que controla os gastos e ensina a fazer a casa. Três homens não são a mesma coisa! É complicado.
Filomena, aos 27, feliz após o divórcio, comprou um carro para não mais ficar à mercê do mau tempo. O que fazer agora? Amar-se, claro!
Autora: Maria da Conceição.
