Traição, choque, mistério.

Natália preparava o jantar quando alguém bateu à porta.

Boa tarde! A senhora é a Natália? perguntou a desconhecida, com cerca de sua idade.

Sim, e a senhora quem é? Não consigo lembrála respondeu Natália, confusa.

Eu sou a amante do seu marido declarou a mulher de repente.

Rui? repetiu Natália, desconfiada.

Rui­zinho corrigiu a visitante, com um sorriso sarcástico.

E vocês se amam? Eu estou a impedir a felicidade de vocês? disse Natália, mordaz.

O que ele lhe contou? Que os nossos filhos ainda são pequenos e não pode abandonálos? retrucou a amante.

Não Ele disse que devemos esperar esperar até que o seu pai interrompeu a mulher, a voz carregada de surpresa.

Natália ficou imóvel. O pai de Lurdes, António, ainda não tinha setenta anos, nunca se doía e não tinha intenção de partir.

Está a confundir as coisas protestou Natália.

Ele contou que, assim que o António falecer, ele deixará tudo para você insistiu Lurdes.

Por que esperar? O que ele tem a perder? indagou Natália, irritada.

Ele prometeu que, quando o pai desaparecer, você terá que mudarse para o apartamento dele explicou Lurdes, sem pudor.

O meu pai está perfeitamente bem! Não vou abandonar o meu lar, que herdei da avó, nem entregar nada ao Rui! exclamou Natália, furiosa.

E se ele quiser ficar com a casa, a garagem e a quinta? retrucou Lurdes, provocando.

Não se preocupe, Natália. Eu não estou a segurar o Rui. Nunca o segurei, embora, no início, fosse apaixonada por ele. Depois, ingenuamente, pensei que a família precisava dele, e, finalmente, não percebi nada de suspeito. Foi um erro.

Vai libertálo, então? insistiu Natália.

Claro. Pode já levar as coisas dele.

Não, não O Rui levará tudo quando quiser. Basta libertálo.

Não se preocupe, hoje mesmo o deixarei livre. Amanhã, apresentarei o pedido de divórcio e partilharei o património conforme o juiz decidir. Não prometo entregar o apartamento; é da minha avó, e as reformas foram pagas pelos meus pais. Você tem a sua própria casa, não é?

Tenho, e não preciso de mais nada.

Então adeus, Natália. Espero nunca mais cruzar o seu caminho. disse Lurdes, saindo.

Natália recolheu as coisas do marido, sem intenção de discutir, mas já sabia como fazer com que ele saísse de casa sozinho. Ele ainda acreditava que podia voltar a qualquer momento, mas já não era assim.

Isto é um absurdo ele pensa que, enquanto o meu pai viver, eu lhe darei o apartamento Tudo por culpa minha! pensou Natália, dobrando as roupas do marido em sacos de viagem.

Rui chegou do trabalho e não percebeu nada de fora do comum, exceto o fato de Natália recusar o jantar.

Querida, obrigado pelo jantar. Vou dar uma volta, se me permite disse ele, a caminhar para a porta.

Vá, vá! respondeu Natália, ironizando.

Claro, querido, caminhar à noite faz bem à saúde.

O que? Que idade tenho? começou a discutir Rui, ainda se achando jovem.

Você já tem cinquenta e poucos anos, não acha?

Não! Ainda me sinto

Não se iluda, amor. É preciso encarar a realidade.

Você fala de idade como se fosse algo que me define.

Não, mas está a envelhecer, e eu também.

Você acha que ainda é atraente?

Claro, mas até as mulheres mais belas cedem o lugar nos ônibus a quem tem mais cortesia.

Quando foi isso? ele não lembrava.

Eu lembro. Já me mostraram o respeito, até nos transportes.

E agora?

Agora estamos a viver em quartos diferentes há um ano.

E então?

Talvez os problemas tenham surgido por causa da sua idade, mas o Pedro, o nosso vizinho, também tem a mesma idade e ainda diz que sente saudades de mim.

Quem é esse Pedro?

É o vizinho que se tornou um ouvido atento.

Está a dizer que já não preciso de você?

Eu só quero que nos separemos, que o Rui vá para a minha casa.

Pegue o que quiser.

Como?

Eu não o estou a prender. Nunca o fiz, embora o amasse no início. Depois, ingenuamente, pensei que o filho precisava de um pai, e deixeio ir. Agora percebo que errei.

Então vai libertálo?

Sim, pode já levar as coisas dele.

Rui saiu, levou o carro, a garagem e a quinta que o juiz lhe concedeu. Natália recebeu o apartamento, vendeu a quinta e, acompanhada do pai António, viajou primeiro a Lisboa, depois ao Porto e, finalmente, ao Algarve. António continuava vigoroso, sem sinais de doença, e não havia pressa para que partisse.

Lurdes, percebendo que Rui passeava noites longas, decidiu seguilo. Quando o encontrou, deixou as malas do marido na porta da casa de Natália e saiu sem dizer nada. Rui, de volta da caminhada, tentou conversar, mas Lurdes nem sequer se aproximou da porta.

Desesperado, Rui dirigiuse à casa de Natália. As vizinhas contaram-lhe que Natália já não estava; tinha partido novamente com o pai. Sem saber para onde ir, ele considerou o velho galpão da garagem, onde ainda havia luz, podia instalar um banheiro e, quem sabe, transformar o espaço em um novo lar. O verão ainda era curto, mas o futuro permanecia aberto.

No fim, cada um seguiu o seu caminho: Natália aprendeu que o amor que se sustenta apenas em promessas vazias acaba por ruir, e que a verdadeira segurança vem da própria força interior. Rui percebeu que fugir dos problemas não resolve nada, e que a honestidade consigo mesmo é o primeiro passo para a paz.

A vida, como um rio que corre para o mar, ensinanos que não se pode segurar o que já quer partir; é preciso deixarsse fluir e encontrar o valor dentro de nós mesmos.

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Traição, choque, mistério.