Quando é que vamos nos mudar para a sua nova casa? perguntaram os sogros direto. Não entendeu? tensionouse Inês. Bom, já que terminaram tudo, achamos que logo nos chamarão também
Nuno, percebe que isso ultrapassa todos os limites? Inês já não segurava as emoções, ainda mais que o marido fingia não entender por que ela estava tão agitada.
E se eles realmente tinham armado tudo para que ela investisse alguns anos da vida naquela obra, colocando todo o dinheiro que ganhou, e agora quisessem deixála sem nada?
Os jovens não seguiram o exemplo dos colegas comprando miúdas casas por preços absurdos. Quando Nuno e Inês se conheceram, decidiram que, no futuro, iam construir a própria casa. Era mais barato, mais rápido e mais vantajoso. Em vez de 30m², eles conseguiam 130m² pelos mesmos euros.
Vai ter espaço para criar os filhos e ainda dá para ter animais de estimação sem medo exultava Inês.
Por sorte, o terreno já existia; era um lote nos arredores de Lisboa. Pertencia à tia de Inês, que o transferiu para a sobrinha ao saber da seriedade dos planos do casal.
No casamento eu não dei nada de verdade, então este será o meu presente: um cantinho onde vocês possam criar os filhos disse a tia, a terra está parada há vinte anos, melhor que sirva agora.
Mesmo assim não foi fácil, pois para economizar o casal fazia alguns trabalhos por conta própria. Tinha que ralar depois do trabalho, nos fins de semana e até em dias de chuva.
Inês ainda teve que abrir a herança. Recebeu o dinheiro da venda do apartamento da avó e reinvestiu na obra.
Quando, finalmente, a casa ficou pronta, perceberam que cada minuto de esforço valeu a pena.
Claro que a casa ainda não estava 100% acabada. Restavam detalhes na construção e no acabamento. Mas o fato de já poder viver lá deixou os recémcasados radiantes.
Começaram a passar noites na nova casa e a receber visitas. Inês só se lamentava por uma coisa os pais de Nuno nunca ajudaram, embora tivessem pedido ajuda várias vezes.
Os pais sempre tinham assuntos muito importantes, e não conseguiram ajudar nem com a instalação da cerca, nem com o plantio do pinheiro, nem sequer com a entrega da geladeira. Eles ainda tinham um grande 4×4 com reboque o carro ideal para o campo. Por isso, no fim, o casal acabou pagando a entrega.
Será que eles estão sempre ocupados? Mas com o quê? São aposentados, não é? espantouse Inês.
Eles não mentem, né? deu de ombros Nuno.
Inês percebeu que, provavelmente, os sogros estavam realmente ocupados, só que nunca coincidiam com os pedidos. Um pequeno verme de dúvida e desconfiança lhe cutucava a consciência.
Inês, hoje vem o televisor novo. Vai receber? Nuno se preparava para o trabalho, mastigando um sanduíche na cozinha recémrenovada.
Claro. Que horas chegam?
Disseram que da tarde ao fim da tarde, entre as 15h e as 20h. Dei teu número, prometeram ligar uma hora antes.
Obrigada, prepareite o almoço para levar.
Valeu, já vou Nuno deu um beijinho na bochecha da esposa e saiu apressado para o hall.
Por volta das quatro bateram à porta.
Inês achou que era a entrega, embora fosse estranho não terem ligado como prometido.
Ela abriu a porta. No limiar estavam os pais de Nuno Lília e António.
Oh! Inês ficou sem saber o que dizer, soltando apenas um ai.
Olá, Inês! Não nos reconheceste? Vamos ficar ricos! sorriu Lília.
Desculpe, reconheci, só não esperava que viessem.
Podemos entrar? piscou António.
Ah, claro, entrem.
Os sogros adentraram a ampla sala que se fundia à cozinha e olharam ao redor.
Que beleza aqui! exclamou Lília, balançando a cabeça. Ainda bem que construíram a casa, não compraram um apartamento. Casa é coisa sólida, espaçosa! Cabe todo mundo!
É concordou Inês.
Quando poderemos mudarnos para a sua nova casa? perguntaram direto.
Não entendeu? tensionouse Inês.
Já que terminaram tudo, achamos que logo nos chamarão ponderou António.
Não calculámos a casa para quatro pessoas recuou Inês, embaraçada pelos questionamentos dos sogros.
Que se nos dê um quarto extra, vamos ficar à vontade! riu o sogro.
Nós, Inês, vamos pedir aumento da pensão e alugar o nosso apartamento, já que agora temos onde ficar explicou Lília.
Já conversaram isso comigo? Inês não gostava da ideia dos pais do marido.
Ainda não, mas ele não vai se opor, tenho certeza.
Inês ficou boquiaberta com tamanha falta de tato. Eles nunca tinham atendido a um pedido de ajuda, e agora queriam morar na casa e ainda ganhar algum dinheiro.
A jovem não encontrou forças para dar um basta aos sogros, mas esperava muito em Nuno.
Não somos como estranhos! protestou António. Pelo menos ofereçamnos um chá!
Sim, claro respondeu Inês docilmente.
Os sogros tomavam chá calmamente, espalhados à mesa de jantar da sala, quando o telefone tocou.
O motorista da entrega desculpouse por não ter chamado uma hora antes e avisou que já estava a chegar.
Inês foi abrir a porta para o televisor. Os entregadores ajudaram a colocar a caixa enorme dentro e despediramse educadamente.
Uau, que tamanho! exclamou António. Onde vai ficar?
Aqui Inês apontou para a parede vazia.
Perfeito! À noite vamos sentar no sofá e ver as notícias.
Na verdade não íamos instalar antena.
Ah, que engraçado! E o que vão ver então? Tela vazia?
Nada. Filmes, séries, apps. Hoje em dia ninguém usa mais antena. Só os mais velhos deu de ombros Inês.
Então somos nós! riu Lília. Vou falar com Nuno para instalarem a antena.
Inês contava os minutos para a volta de Nuno, rezando para que não se atrasasse no trabalho. Por sorte, ele chegou a tempo.
Ahá, Nuno! exclamou ao ouvir o ronco do motor.
Inês correu ao hall para o encontrar.
Os teus pais vieram e querem mudarse para cá sussurrou, abraçandoo pelo pescoço.
O quê?! ele gritou.
Calma, eles vão contar tudo.
Como assim? perguntou Nuno.
Eles vieram fazer a visita de inspeção. Gostaram muito! afirmou António.
Que visita, vai nascer um filho e não há espaço? adivinhou Nuno.
Mas tem duas camas de sobra no andar de cima! interveio Lília.
Uma para o bebé e outra para hóspedes. Temos amigos que ficam à noite, festas Somos jovens, afinal sorriu Nuno.
No fim, todos concordaram que a casa seria o cenário perfeito para as próximas histórias de família, com direito a chá, sofá, televisão e, claro, muitas visitas inesperadas.
