Querido diário,
Hoje lembro-me do aniversário da minha colega de faculdade, a Mariana, e de como a Inês, a mais discreta de todas, acabou presenteando a festa sem ser notada. Nós três estudávamos no Instituto Politécnico de Lisboa, onde as aulas eram sempre cheias de conversas e de gente a tentar chamar a atenção.
Mariana fez um convite amplo a todos os que pudessem aparecer, mas muitas meninas preferiram regressar às suas casas de campo para o fimdesemana. Inês, tímida e reservada, decidiu aceitar a oferta.
Ela raramente saía, e também acabara de completar dezoito anos, tal como a Mariana. Contudo, Inês não quis celebrar o seu próprio aniversário com convidados
Não tinha amigas próximas e os pais insistiram que ela ficasse em casa, ao lado da avó e do avô, para um jantar familiar. Assim termina: aniversários aos cinco, aos dezoito, pensou ela, melancólica.
É claro que Inês amava a família, mas sentiase presa num limbo entre a infância e a vida adulta. Perguntavase quando, enfim, algum rapaz notaria a sua delicadeza, a sua beleza quase invisível.
Ela sonhava com o amor, mas envergonhavase de si própria. Não era tão chamativa quanto a Mariana nem tão extravagante como a Sofia, amiga da Mariana. As garotas ousavam pintar o cabelo, vestir-se à moda, às vezes até de forma provocante nas festas da faculdade, o que sempre lhes rendeu advertências dos professores.
Já a Inês vestia o que a mãe escolhia e o que a avó tricotava. Reclamava que a neta não usava muito as roupas, mas ela só se sentia confortável nos suéteres antigos da avó, e isso só dentro de casa, sobretudo no inverno.
No dia do aniversário, a turma de estudantesdoze rapazes, entre eles eureuniuse na casa da Mariana. Quando o jantar terminou e a música começou a tocar, Inês saiu do apartamento e sentouse numa banca junto ao escalão do prédio.
Ninguém percebeu a sua partida; ela se sentia envergonhada pelos rapazes desconhecidos, ainda que ninguém a notasse de qualquer forma. Essa ausência de atenção era o que mais a entristecia.
Olhou para o relógio.
Já devia estar a caminho da casa da mãe, que deve estar a preocuparse pensou. Eu prometi chegar cedo
De repente, um rapaz saiu do corredor. Não era convidado da Mariana. Sentouse na mesma banca, olhou tristemente para a janela do segundo andar onde se ouvia música alegre e risos.
És tu de lá? perguntou ele, surpreendido. Ela assentiu indicando a janela.
E a Mariana? Está a dançar? A divertirse? indagou o rapaz, com olhos melancólicos.
Desta vez Inês ganhou coragem.
Não está a brincar? Ouço a música, parece que todos se divertem
É assim mesmo, aniversários são feitos para isso respondeu o rapaz. Eu, por outro lado, passei o dia sozinho, só um chá e um bolo com a família, como quando éramos crianças.
Inês ergueu as sobrancelhas, curiosa.
Também fiz isso. És amigo dela? apontou para a janela.
Um pouco, mas não completamente. Gostaria de ser seu amigo, mas ela nunca me chama, nem no seu aniversário. Somos vizinhos há anos, e ela percebe como a trato
O rapaz calouse. Inês suspirou compreensivamente e, então, disse:
Não te preocupes. Eu também passo por tudo isto. No fim, ninguém nota. Saí de lá e ninguém viu. Sou quase invisível. É como se eu não existisse para ninguém
Ora, não digas isso tentou tranquilizála ele. Talvez sejamos os azarados da turma, como dizem.
Não, não é azar. Somos apenas discretos, sem imposições. Talvez isso seja até uma vantagem: há liberdade nessa invisibilidade.
Achas mesmo? surpreendeuse ele. Por acaso, chamome Tiago. E tu?
Inês.
Ficamos ali, ouvindo a música, lançando olhares ocasionais para a janela, na esperança de que a Mariana aparecesse e nos convidasse para entrar e dançar. Mas isso nunca aconteceu.
Foi bom conhecerte disse Inês educadamente. Mas preciso voltar para casa; prometi não demorar.
Posso acompanharte até à paragem? ofereceume Tiago.
Caminhámos pelo Parque Eduardo VII, conversando e sorrindo sem querer. Tiago sentiu que a sua atenção agradava a Inês; o rubor nas suas bochechas e os pequenos coves que surgiam nos seus olhos deixaram-me perceber que ela estava a gostar da companhia.
Ele começou a contar histórias engraçadas da sua juventude, tentando fazera rir. O tempo passou rápido, chegámos à paragem. Inês agradeceu, mas Tiago não queria que ela fosse embora antes de subir ao autocarro. Inês, distraída, acabou por perder o primeiro autocarro e só conseguiu entrar no segundo.
Ao embarcar, acenou para Tiago como quem se despede de um velho amigo. Ele ficou ali, parado, incapaz de ir embora, encantado pela menina de olhos expressivos e covinhas nas bochechas.
Tiago desviouse, mas rapidamente percebeu que queria reencontrar Inês. Não tinha o número de telefone dela, nem o endereço. Que falta de jeito!
Na manhã seguinte, acordou cedo e correu até à casa da Mariana. Subiu as escadas e bateu à porta.
O que é, Tiago? perguntou Inês, meio zangada. Não vou sair contigo de novo, Pash. Já te avisei
Não, espera corouse Tiago. Eu queria apenas o número da tua colega de turma. Ela esteve aqui ontem e deixou um recado na banca. Preciso do telefone dela
De quem? perguntou Inês, confusa.
Do da Inês.
Inês? Inês deu um pálido sorriso. Ah, Inês certo, espera um momento.
Alguns minutos depois, Mariana entregoulhe um guardanapo.
É para a Inês. Queres? disse, fechando a porta.
Tiago, com o recado em mãos como um talismã, correu para casa. Passou o dia a escolher palavras, a ensaiar o que dizer. Ao fim da tarde, ligou para Inês, convidandoa a passear novamente e prometendo-lhe um gelado.
Surpreendentemente, Inês aceitou com entusiasmo. A voz dela ao telefone parecia ainda mais doce e suave.
Caminharam pelo parque, comeram gelado e descobriram muito um sobre o outro. As suas personalidades e interesses eram surpreendentemente parecidos.
Agora eu convidote disse Inês ao despedirse, sorrindo. Daqui a uns dias vamos ao cinema, em vez do parque. Que dizes?
Desde então, Inês e eu nunca mais nos separamos. Fomos ao cinema, a museus, e, após um ano, começámos a viajar juntos, já vistos como noivos pelos amigos.
Dois anos depois do nosso primeiro encontro, casámonos.
A mãe de Inês dizia que era cedo demais para a filha se casar, enquanto a avó, com orgulho, exclamava:
Bravo, Inês! Encontraste o teu destino. Não precisas de mudar de rapazes; o Tiago é um bom marido, cuida de ti como se fosses uma criança. O que mais poderia pedir?
É a tímida, mas agora está noivo brincavam as colegas da turma. A primeira a casar, e o rapaz parece radiante.
Ambos brilhavam de felicidade. Encontrámos, um no outro, compreensão, cuidado e o amor que sempre sonhámos.
Agora, ao lembrar daquela banca junto ao escadão, vejo como um pequeno ponto de partida pode mudar uma vida inteira. Aprendi que, mesmo quando nos sentimos invisíveis, basta um olhar atento para revelar que somos vistos por quem realmente importa.
Até a próxima,
Tiago.
