Fiquei com o meu namorado sem saber que ele havia morrido dois dias antes—agora estou grávida do filho do seu fantasmaQuando o bebê nasceu, sua primeira risada ecoou como um sussurro do passado, provando que o amor transcende até mesmo as sombras da morte.

Durmo com o meu namorado sem saber que ele tinha morrido dois dias antes agora estou grável do filho do seu fantasma

Episódio 1

Juro que o vi. Toquei-lhe. Beijei-lhe. Senti-lhe. O hálito era morno, os lábios tinham aquele sabor de menta que ele sempre usava como sempre. Até trazia a camisola cinzenta que tanto lhe desagradava porque era grande demais e o fazia parecer um rato de biblioteca carinhoso. Era real. Abraçoume a noite inteira. Sussurrou amote ao ouvido. Disse que nos casaríamos no próximo ano. Recordo cada segundo: o jeito como deslizou os dedos pelo meu braço, como chorava quando eu chorava, como fazia amor com uma paixão que pensei que ia partir a minha alma ao meio. E então desapareceu.

Acordei só. Mas não tive medo. Pensei que tinha saído para correr, como às vezes faço. O perfume dele ainda pairava nos lençóis. A pele ainda ardia onde me tinha tocado. Mas algo não encaixava.

Liguei.
De novo.
E outra vez.

Então, a minha melhor amiga, Joana, entrou no quarto, pálida, sem entender por que chorava.

Miguel sussurrou. Não sabes?

Ríme. Saber quê?

O Tiago está morto.

Pisquei. Morto como?

Aumentou o choro. Morreu há dois dias. Acidente de carro, na noite da tempestade.

Não. Não. Não. Não.

Gritei. Empurreia. Dizialhe que era cruel dizer aquilo. Que não tinha graça. Mostreilhe a mensagem que o Tiago me enviara na noite anterior, o áudio que dizia: Estou a caminho. Sinto o teu corpo junto ao meu. Ela segurou o telemóvel, tremendo.

Miguel ele não poderia ter enviado isso. Já estava no necrotério.

O mundo inclinouse.

As minhas pernas fraquejaram.

Corri ao banheiro, peguei a toalha que ele usara, ainda húmida. A camisola que deixara no chão. A marca de mordida no meu pescoço.

Ele esteve aqui.
Precisava estar.

Mas a verdade é que o Tiago foi enterrado ontem.

E, de alguma forma, fiz amor com ele na noite passada.

Os dias passaram. As noites tornaramse insuportáveis. Não conseguia dormir. Sempre que fechava os olhos, viao. Às vezes ao pé da minha cama, outras a sussurrarme ao ouvido. Numa noite ouvi a sua voz: Não chores, amor. Ainda estou contigo. Tentei gravar, mas só obtive estática e a minha própria respiração aterrorizada.

Então o meu período faltou.

Duas vezes.

Pensei que fosse stress, luto, trauma.

Até vomitar pela quinta vez num dia.

Fiz um teste.

Duas linhas.

Positiva.

Desci ao chão.

A única pessoa com quem havia estado foi o Tiago.

Mas ele estava morto.
Enterrado. A decomporse. Desaparecido.

Contudo, algo cresce dentro de mim.
Algo que chuta à noite.
Algo que brilha sob a pele quando as luzes se apagam.

E sempre que choro e digo que não aguento

Ouçoo sussurrar das sombras:

Não estás só. O nosso filho vem.

Episódio 2

Não me lembro de ter adormecido. Só lembro de despertar na banheira, com o teste de gravidez ainda apertado na mão, aquelas duas linhas rosadas a zombar da minha sanidade. Não falava com ninguém há dias nem com a Joana. O telemóvel tocou dezenas de vezes. O nome Joana iluminava a ecrã. Ignorava todas as chamadas.

Como explicar que estou à espera de um bebé de um homem que há semanas está sob a terra? Quem me acreditaria? Nem eu acreditava totalmente. Até àquela noite.

Mal tinha adormecido quando algo pressionou o meu ventre por dentro. Não foi uma chute normal. Sentiuse inteligente. Deliberado. Quase como se intentasse chamar a minha atenção. Levanteime de golpe, ofegante, com as mãos no estômago. E então ouvio de novo.

A voz do Tiago. Dentro da minha cabeça.

Não tenhas medo, amor. Eu escolhite.

Gritei e saltei da cama. Olhei o ventre ao espelho, levantei a camisola. Juro que vi um leve pulsar de luz azul logo abaixo da pele. Piscou depois desapareceu. As pernas fraquejaram. Caí ao chão, soluçando.

No dia seguinte, obrigueime a ir ao hospital. Disse à doutora que tinha engravidado depois de o meu namorado me visitar. Mentí sobre as datas. Mentí sobre tudo exceto os sintomas.

Sonhos estranhos. Pele que brilha. Ouvir vozes de alguém que não está.

A expressão da doutora mudou de preocupação para suspeita tranquila.

Vamos fazer alguns exames disse cautelosamente. O stress pode afetar a mente, especialmente combinado com os hormónios da gravidez.

Pressionou o estetoscópio contra o ventre. O rosto congelou.

Não consigo ouvir batimentos. Mas algo se mexe.

Ordenou uma ecografia. Enquanto eu jazia na fria maca metálica, o rosto da técnica ficou pálido. Continuou a ajustar o scanner. Não disse nada até eu perguntar o que se passava.

Há um feto sussurrou , mas está a brilhar.

Saí do hospital sem esperar resultados. Aquela noite tive outro sonho. O Tiago estava de pé no nosso velho local junto ao lago, a brisa a mexer na sua camisola com capuz.

O nosso filho não é como os outros disse, com uma voz mais suave que o vento . Ele sou eu e é mais.

O que queres dizer? perguntei.

Mas ele apenas sorriu, triste. Vais perceber em breve. Mas deves protegêlo.

Acordei e encontrei as cortinas totalmente abertas, embora eu as tivesse trancado. A camisola que o Tiago trazia no sonho estava dobrada cuidadosamente à beira da cama. Toqueia. Ainda estava quente.

Então percebi o que crescia dentro de mim era real. Era dele. E estava a mudarme.

No dia seguinte, finalmente Liguei para a Joana. Precisava de ajuda. Ela veio a correr e abraçoume forte. Conteilhe tudo. Mostreilhe o ponto brilhante no ventre. Falei dos sonhos, da voz, do bebé.

Não riu.

Não gritou.

Sussurrou: Preciso levarte a um lugar.

Seguia até uma casa velha, escondida atrás da igreja da avó dela. Dentro, havia uma senhora de tranças grisalhas e olhos pálidos. Olhoume uma única vez e disse:

Não és a primeira. Mas terás de ser a última.

Perguntei o que queria dizer, mas a resposta geloume até aos ossos.

Carregas no ventre o filho de uma alma aprisionada. Esse bebé é ao mesmo tempo bênção e aviso. O pai não deveria ter regressado. Agora essa porta está aberta. E outros estão a atravessar.

Para levaro? perguntei.

Para levarte a ti.

De repente, as luzes piscavam. Uma brisa gelada atravessava as janelas. E das sombras ouvi novamente a voz do Tiago:

Corre.

Episódio 3

O quarto ficou gelado. Os olhos da senhora abriramse assustados enquanto as sombras se alargavam nas paredes como garras.

Ele está aqui sussurrou, apertando um rosário de coral e osso.

Joana empurroume para trás dela.

Mas eu já não tinha medo. Não do Tiago. Agora temia os outros.

Os que a senhora disse que vinham porque ele quebrou as regras.

Espalhou cinzas formando um círculo e ordenoume que ficasse dentro.

Não saias de lá, aconteça o que acontecer. Ouviste? advertiu . Agora és uma ponte. Entre a vida e a morte. E as pontes cruzam nos dois sentidos.

Entrei no círculo. O ventre brilhava com aquela luz inquietante. O bebé chutou, mais forte que nunca.

E então ouvi as vozes. Dezenas. Talvez centenas. Gritos, gemidos, súplicas, risos. Tudo vinha da escuridão.

Tiago, por favor supliquei . O que se passa?

Então o vi.

Mas não era como antes.
Os olhos vazios, cheios de tristeza e medo.

Desculpa disse . Não queria arrastarte para isto. Só sentia tanta falta de ti. Queria mais uma noite. Mais um momento. Não sabia que estava a abrir uma porta.

Aproximarme, as lágrimas corriam pelo rosto.

Por que eu? Por que o bebé?

Olhou para o ventre, depois para mim.

Porque o nosso amor foi mais forte que a morte. Mas um amor assim rompe as leis.

De repente, algo mais saiu das sombras. Uma figura monstruosa, retorcida, com metade de rosto e olhos flamejantes. Assobiou ao verme.

Tiago interveio entre nós.

Não a podes ter! rugiu . Não a levas para o nosso filho!

O monstro riu.

Quebraste a regra, espírito. Tocaste os vivos. Agora festinhamos.

O quarto tremeu. A senhora começou a cantar numa língua estranha. Joana seguroume a mão, a chorar.

Miguel! Não saias do círculo!

Gritei enquanto o monstro avançava sobre mim. Tiago lançouse contra ele no ar.

A senhora gritou:

AGORA! Escolhe, criança! Vida ou amor?

Tiago virouse para mim, ensanguentado e a desvanecerse.

Tens de me deixar ir, amor. Pelo nosso filho. Por ti.

Chorava, balançando a cabeça.

Não posso perderte outra vez!

Nunca me perdeste. Vivo nele agora. Em ti. Mas se te agarrar eles levarão tudo.

As luzes explodiram. O chão rachou. As sombras uivaram. E com todo o dor do meu coração, gritei o nome dele e despedime.

Nesse instante ele sorriu. E desapareceu.

A escuridão recuou. O monstro gritou e evaporouse em fumo. O silêncio caiu.

Caí ao chão. O círculo apagouse. E o bebé dentro de mim chutou uma vez. Depois outra. E acalmouse.

Nove meses depois, dei à luz a um menino. Não chorou como os outros. Apenas me olhou nos olhos, calmo, como se já soubesse tudo. A pele brilhava levemente na penumbra. E às vezes, quando canto-lhe à noite, juro que ouço uma segunda voz a harmonizarse com a minha a voz do Tiago.

Chamei o filho de Tiagoluz, que significa Luz de Tiago.

Porque nunca foi realmente meu.

Mas antes de atravessar para o outro lado, deixoume um último presente.

Um fragmento dele que nenhuma sombra jamais me poderá tirar.

FIM.

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Fiquei com o meu namorado sem saber que ele havia morrido dois dias antes—agora estou grávida do filho do seu fantasmaQuando o bebê nasceu, sua primeira risada ecoou como um sussurro do passado, provando que o amor transcende até mesmo as sombras da morte.