Filho, mãe e criança – são um só, portanto só ela decideCom o olhar firme, ela escreveu o futuro de todos num velho diário de família.

**14 de junho Diário**

Que criança a 41 anos! gritou o Miguel, meu marido, enquanto me segurava pelos braços. Na tua idade já se torna avó. Ana, por favor, não façam loucuras.

Eu respondi com a mesma firmeza que ele tanto temia:
Se quiseres que eu ignore tudo, tudo bem, já entendi. Mas já pensaste na criança?
Não quero estar a dançar na festa de casamento dela com uma bolsa de sangue ao lado da axila!

E se algo acontecer enquanto ela ainda for pequenina? Resolve isto, ou eu lhe dou o fora!

São vinte anos que vivo com o Miguel. Casei-me com ele ainda muito jovem, quando ainda estudava na Universidade de Coimbra.

Durante todo esse tempo, sempre acreditei que o Miguel fosse o meu porto seguro, a minha rocha. Nunca imaginei que ele poderia virar as costas a mim.

Nos últimos meses, a nossa família foi abalada por um escândalo a causa foi uma gravidez inesperada e tardia.

Miguel estava absolutamente contra a ideia de mais um filho:

Ana, estás louca? Queres tornarte mãe na velhice? Temos três filhos lindos: o Tiago já está na universidade, e o João e o Pedro ainda terminam o 8.º ano. Não é suficiente para ti?

E o que vão pensar os outros? E se os pais surtarem?

Miguel, eu sonho com uma menina toda a vida insisti Se Deus nos enviou este bebê, por que não deveria vir ao mundo?

E se for outro rapaz? Teremos que cuidar de cinco? o Miguel ficou irritado.

Eu tenho a certeza de que será uma menina.

Os irmãos também não foram solidários. Quando souberam da novidade, os gêmeos João e Pedro declararam que não queriam dividir o quarto com mais ninguém.

O mais velho, Tiago, também deu a sua opinião:

Mãe, não tens medo de algo acontecer contigo nesta idade? E se algo acontecer?

Vai correr tudo bem tranquilizeio Não sou tão velha assim!

A história já tinha se repetido antes. Quando eu engravidei pela primeira vez, o Miguel também não estava nada entusiasmado. Tiago tinha apenas 3,5 anos, o dinheiro era escasso, e morávamos com os pais de Miguel. As discussões com a sogra eram frequentes.

Mas, quando os médicos anunciaram que seriam gêmeos, tudo mudou. A sogra deunos dinheiro para o sinal da compra de um apartamento. Miguel tornouse mais cuidadoso, e os gêmeos João e Pedro mostraramse calmos e saudáveis; eu até consegui dormir melhor. Tiago ficou radiante por ter companhia para brincar, permitindome algum descanso.

Assim, desta vez, esperava que tudo se ajeitasse como num passe de mágica. Contudo, já na terceira semana de gravidez, os sintomas começaram a piorar sentia náuseas no trabalho.

Sou manicure há mais de dez anos, acostumada aos cheiros de esmaltes e óleos, mas agora os frascos coloridos me provocavam enjoo constante. As pastilhas não ajudavam; o estado só piorava e, para piorar, tive de reduzir a minha jornada.

Passava o dia deitada no sofá; até lavar a louça era um esforço impossível. Comprar mantimentos para a família também virou problema, o que irritava ainda mais o Miguel e os rapazes.

Depois da demissão a situação financeira da casa ficou apertada. Miguel, que trabalha como socorrista, passou a fazer turnos duplos para compensar a perda de renda. Tiago mudouse para o turno da noite no hospital e, de dia, trabalha a meioperíodo numa loja de eletrónica. Todos os dias sentia o olhar julgador da família, dos vizinhos que cochichavam quando eu saía ao supermercado, e a sensação de ser uma mulher sem apoio.

Chegou o segundo trimestre e eu precisava de um novo exame. O médico, sério, olhava o ultrassom enquanto lia parâmetros à enfermeira. Eu, imóvel, temia até respirar.

Depois de trinta minutos, quase sem aguentar, perguntei:

Doutor, é menino ou menina?

É uma menina respondeu, mas com um tom sombrio porém há um problema sério.

O que aconteceu? tremei.

Preciso avisar que a criança tem um defeito no desenvolvimento do tubo neural. É uma patologia grave. No 23.º semana o tubo deveria estar fechado; no caso da sua filha ainda está aberto. Pode nascer com deficiência.

Despejei lágrimas:

Não há nada que eu possa fazer pela minha filha? Existem medicamentos?

O médico desviou o olhar e ficou em silêncio.

Saí da sala e caminhei lentamente pelos corredores do hospital, como se o tempo tivesse congelado. Sentiame perdida, como num sonho ao chegar a casa, mas sem forças para sair do carro. Rompi em choro.

Depois de me recompor, entrei no apartamento. Miguel estava em casa, a aquecer o jantar no microondas e a assistir ao telejornal. Não havia crianças à nossa volta.

O melhor momento para conversar pensei .

Fui ao ultrassom hoje comecei O médico disse que será uma menina, mas tem problemas de saúde.

Que tipo de problemas? o Miguel ficou tenso.

Defeito no tubo neural.

E o que disse o Dr. Alexandre?

Nada A médica sugeriu abortar, mas eu recusei. Não consigo aceitar, é a minha filha!

Você enlouqueceu! Sabe o que isso significa? A criança pode viver com deficiência, se conseguir sobreviver. Amanhã vamos ao médico, eu levo a referência.

Não irei a lado nenhum, Miguel. Não me convenças

Então não conte comigo! Não quero ver você sofrendo e a criança a sofrer também!

Miguel levantouse da mesa, foi ao quarto, pegou uma grande mochila de ginásio e começou a arrumar as coisas.

Miguel, o que estás a fazer? gritei Estás a fugir? A filha não é só minha, também é tua! Como podes ser tão indiferente?

Não vou tolerar isto! Concordei quando disseste que íamos abandonar a criança, pensei que tudo ficaria bem. Mas não vou mais ceder às tuas imposições!

Pensaste nos nossos filhos mais velhos? Já viste alguma criança com deficiência? A minha mãe teve um filho com uma doença congénita; ele só viveu seis meses. Lembro ainda do horror que a família suportou. A minha mãe deixou de querer mais filhos depois disso. Não vou repetir o erro. Levo os rapazes comigo!

Miguel agarrou a mochila, vestiu o casaco e saiu do apartamento. Eu não consegui impedilo.

Minha sogra, Teresa Alves, ficou surpresa ao ver o filho na porta com as malas.

O que se passou? Discutiram?

Sim, estou a pedir o divórcio! Ana quer trazer ao mundo uma criança doente, e eu não concordo.

Filha, mãe e filho são um só, não se decide só um. Calma, deixame fazer um chá.

Miguel sentouse e, suspirando fundo, perguntou à mãe:

Mãe, se soubesses que o bebê está gravemente doente, ainda assim o trarias ao mundo?

Claro! Eu esperava até o último segundo por uma chance de cura. Naquela altura ainda não faziam cirurgias cardíacas.

E o ultrassom nunca erra? Os médicos do teu hospital nunca cometem erros?

Lembreime então da vizinha, a Dra. Catarina, que há um ano revelou que o filho de um vizinho tinha um defeito cardíaco, mas o rapaz nasceu saudável. Muitos pacientes reclamam desse especialista.

Resolvi investigar por mim mesma. Na manhã seguinte, Miguel foi à clínica pública. Subiu ao segundo andar, mas a porta do gabinete de ultrassom estava trancada. Perguntou à enfermeira ao lado:

O Dr. Alexandre não vai estar hoje?

Não, ele está de licença. Todas as marcações foram transferidas e o equipamento quebrou. É a terceira falha consecutiva.

O chefe do hospital comprou um aparelho barato que está sempre a avariar; aguardam a chegada de um técnico da região.

Miguel começou a duvidar da veracidade do diagnóstico. Um antigo colega dele trabalha num privado e sugeriu levarme lá.

Quando voltei da loja, não esperava encontrar o Miguel em casa. Olhoume seriamente e disse:

Arrumate, vamos ao privado. Veremos o que dizem lá.

Vestime depressa, peguei o cartão do SNS e saímos em silêncio.

No centro privado, atendemnos rapidamente. A médica analisou o monitor por longos minutos e, finalmente, disse:

Todos os parâmetros estão normais, a criança desenvolvese dentro do esperado. Não vejo defeitos. É uma menina muito ágil. Querem ouvir o coração?

Miguel e eu assentimos. O meu coração quebrouse ao ouvir o pequeno batimento. Ele, surpreendido, chorou. Eu, então, perguntei sobre o relatório anterior.

Disseramnos que há um defeito no tubo neural.

O tubo está fechado, a criança está saudável e a crescer dentro do prazo. Vou imprimir o laudo agora.

Um peso enorme saiu das minhas costas. Miguel abraçoume apertado e beijoume a bochecha, aliviado também.

Continuámos a fazer exames completos em diferentes clínicas, e todos confirmaram que tudo estava normal.

A nossa filha, a que chamámos Inês, nasceu totalmente saudável. Na alta, estavam presentes amigos e familiares, inclusive aqueles que antes me incitavam a abortar.

É mesmo parecida contigo exclamou a avó Teresa, ao segurar a netinha nos braços. Olha esses olhos azuis! Bravo, Miguel! Tenho orgulho de ti, filho!

Miguel apaixonouse pela Inês desde o primeiro olhar e dedicase a ela a cada instante livre.

Que tal assistir à televisão comigo? brinquei Porque estás sempre a correr atrás da Darlene.

Depois, respondeu ele, rindo Ainda temos muito que fazer com a Darlene. E tu, minha linda?

Os irmãos mais velhos, que antes protestavam contra a presença de um bebé, agora organizaram turnos de passeio com a irmãzinha.

Deixo aqui, neste diário, a recordação de que a vida pode ser imprevisível, mas que a esperança e a coragem podem transformar o medo em amor.

Ana.

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