Felicidade Livre à Moda Portuguesa

Felicidade Livre

Tiago, espera! Para um bocadinho

Tiago diminuiu o passo, virando-se.

Atrás dele, no carreiro que atravessava o velho quintal por entre alfazema e tílias, vinha apressada Matilde, rapariga de dezasseis anos, de botas altas e saia curta, de casaco branco e lenço de lã enrolado na cabeça. Cachos castanhos fugiam-lhe por debaixo do lenço, realçando seus olhos verdes com notas de mel. Havia sempre um brilho húmido neles, como se a qualquer momento pudesse chorar, tornando-a frágil, tão delicada que apetecia proteger.

A cada passo Matilde escorregava na gravilha, mas não abrandava a marcha.

Matilde, não corras! Olha o chão! Vais cair! gritou Tiago com preocupação. Afinal Deixa-te ir, até te fica bem correr assim. As bochechas vermelhas, os olhos a brilhar. Que bela estás! Já não te via assim há tanto tempo. Estás a recuperar!

Matilde sorriu, aproximando-se mais. Tiago estendeu-lhe a mão, ela agarrou-a, piscando-lhe o olho.

O que querias? perguntou Tiago, olhando para os lados, inclinou-se, beijou-lhe a face rapidamente. A tua mãe não quer que eu te faça companhia. Disse que me punha de castigo se tentasse suspirou, fingindo desalento.

O sorriso esboroou-se em Matilde, baixou os olhos e apertou a alça da mala, mas logo voltou a sorrir.

Tiago, eles dizem tudo aquilo para meter respeito! Não te fazem mal nenhum! Anda comigo ao cinema, sim? Já comprei os bilhetes. Olha!

Ela tirou a luva e abriu a mão, mostrando dois retalhos de papel.

Tiago segurou na mão dela com ternura, sentiu-lhe o calor dos dedos longos e belos como os de uma pianista, e acariciou-os.

Cinema?… Bem… Não sei… Tenho uns recados para fazer… armou-se em desinteressado, franzindo o sobrolho. Matilde puxou a mão, enfiou-a de novo na luva. Mas se insistes tanto Vamos lá, então. acedeu, com um sorriso emburrado. Mas que filme é? Mais um romancezito, aposto!

Não, é sobre a guerra. O João viu e disse que era de arrepiar! respondeu rapidamente Matilde, abanando a cabeça. Mas eu sozinha não quero ir, mete medo, e as amigas não querem.

O João? Ele inventa tanto Porque não vais com ele? Ele é um rapaz sossegado, não te diz que não! Tiago ergueu o queixo com orgulho. Já que lhe dás ouvidos

João Lopes era colega de turma de Matilde, rapaz estudioso e sempre em busca de saber. Não jogava futebol, nem fazia travessuras, mas aplicava-se e era estimado por todas as professoras. Ele andava sempre atrás de Matilde. Tiago via-o como um rival sem força, mole, passivo. Matilde, pelo contrário, gostava de gente viva, com garra, como Tiago.

Só que agora, Tiago estava proibido de entrar na vida dos Martins, e o João, pelo contrário, era sempre recebido de braços abertos pela mãe de Matilde, Dona Rosa, que até lhe oferecia bolos caseiros…

Eu não ouço ninguém! indignou-se Matilde. Se te convido é porque não quero outros. Então, vais ou não?

Corou, semicerrando os olhos.

Tiago sentiu-se feliz, acenou de leve.

Pronto, vamos! Ela tem medo da guerra E eu? Acha que não tenho coração? Vou sonhar com bombas a noite toda só por tua causa, Matilde! brincou ele, piscando o olho. Matilde desatou a rir, abanando a mão:

Não digas disparates, não tens medo de nada! Então espero-te às sete menos dez à porta do cinema. Agora tenho de ir. A mãe pôs-me a cortar couves a cozinha está um caos! Vou, sim.

Com cuidado, Matilde virou costas e seguiu caminho para casa.

Viviam apenas duas casas acima uma da outra, tinham crescido juntos entre brincadeiras no largo e nas tílias, subiam a ameixoeira, contra as ordens maternas, para comerem das frutas, cuspindo os caroços para ver quem chegava mais longe, sempre os dois juntos. Iam ambos para a secundária, mas Tiago era dois anos mais velho. As amigas invejavam-na por ele lhe dar atenção, mas Matilde sempre achou aquilo natural, como se Tiago fizesse parte dela desde sempre.

Naquele inverno, Matilde magoou-se a fazer ski com o grupo da escola. De súbito, ficou tonta, a vista escurecida, dores a espalharem-se pelo corpo todo. Caiu para um monte de neve, ficou ali aos gemidos, com suor gelado nas costas, e um medo antigo da dor. Ao lado surgiu Tiago, como sempre, ao ouvir-lhe o grito. Desde pequena que ele vinha ao primeiro som do choro.

Quando Tiago a trouxe ao colo de volta a casa, a perna já inchava dentro da bota, e tiveram de a rasgar. Matilde segurara-o com tanta força pelo ombro que deixou marcas. Mas Tiago nem se queixou, só dela é que se preocupava.

Chegou a ambulância, levaram-na à urgência. Descobriram que o osso não era o pior: Matilde tinha o coração frágil, uma lista de diagnósticos complicados apareceu no seu boletim de saúde. Ficou internada semanas, só voltou para casa quando a Primavera rebentava.

A perna demorou a sarar; Matilde amuava, zangava-se por tudo, só se animava quando Tiago aparecia. Ele improvisava distrações: ora desdobrava no seu quarto um mapa-mundo e faziam viagens imaginárias na cama; ora trazia puzzles e jogos de montar; outras vezes pintavam cartazes ou escreviam histórias.

Assim que te tirarem essa porcaria, vamos passear, onde quiseres! Diz lá, onde imaginas ir?

Matilde encolhia os ombros.

Só queria poder ir à rua, mas a mãe acha que, se for, me dá alguma coisa ao peito. Até já me esqueci como se anda

Que disparate! Só precisas mexer-te, como meu avô no Minho, voltava da guerra todo torto, o médico obrigou-o a mexer-se e agora ninguém o para! Fica descansada, ciência não para, Matilde. Vais ver que há maneira!

Para animá-la, roubava-lhe a boneca e obrigava-a a ir buscá-la de canadianas.

Ena, com bonecas ainda? Já estás na idade das queixas, pareces a Dona Irene da mercearia! Ânimo, miúda, ainda vamos dançar juntos!

Matilde! Vai-te deitar, já disse! Tiago, pelo amor de Deus, que brincadeiras são estas? Sabes que ela não pode! entrava dona Rosa, alarmada.

Ó senhora Rosa, ela parece um bacalhau seco nesta cama! Precisa é de vida, de alegria! Deixem-na viver, só isso!

Não és tu quem decide, Tiago! Vai para casa! O João vem para lhe ajudar nos trabalhos, já perdeu tanto tempo por tua causa!

Tiago fingia bravata.

Na soleira, Dona Rosa encostou-o bruscamente à parede.

Deixa a minha filha em paz! Ela não pode fazer nada, nem filhos para dar, dizem os médicos. Um parto matava-a. Eu quero a menina viva, percebes? Tu não digas nada disto. E sai.

Quando Tiago, já perto de casa, assimilou o que lhe dissera a vizinha Matilde era deficiente, o coração defeituoso.

Morrer? E se morrer já hoje? Não! Ela tem de viver! Vai ser feliz, prometo! praguejou por dentro.

A avó Isabel estranhou vê-lo de peito nu, regando-se com água fria no quintal.

Tiago! Vais adoecer, rapaz! Vem cá dentro!

Já vou, avó. Só um chá. Dorme bem, minha velhinha!

Viviam só os dois. Dos pais, pouco se falava perdidos ou mortos. Avó Isabel contava histórias truncadas evitava contar que a filha o abandonara.

Matilde e a mãe peregrinavam para médicos. Dona Rosa trazia sempre bolos, esperando milagres.

Por agora nada há a fazer, talvez um dia a ciência avance, mas até lá só descanso dizia o doutor.

Claro, claro… O João ajuda muito. Ensina-lhe montes de coisas contou dona Rosa, com Matilde corando.

Boa escolha, Matilde, um homem que vale por mil! ria o médico, despedindo-se.

Assim se vivia. Matilde quase não saía, a mãe sempre em cima dela.

No cinema, o ar era abafado e cheirava a tabaco. Matilde, apertando a mão de Tiago, viu o filme a chorar baixinho no ombro dele.

Matilde, calma! Tudo acaba bem! Princesa! sussurrava Tiago, acariciando-lhe os cabelos.

Disseram-lhes pssssh! de vários lugares.

Estou maldisposta, Tiago. Sairemos?

Saíram de mansinho, a luz do átrio cegou-os. Tiago sentou-a, foi-lhe buscar água.

A porteira olhou-os de lado.

Tão nova… Já são casados? Onde é que isto vai parar

Tiago apareceu de repente, respondendo alto:

Não, mas vamos casar! Muito em breve!

Quê? balbuciou Matilde, tonta. Estás a brincar?

Agarrou-lhe o braço, virando-o para si.

Não brinco com isto! respondeu Tiago firme. Ia dizer-te mais tarde, mas tenho de ir para tropa. Quando voltar, casamos. Queria mostrar-te o mundo. Prometi, não foi? Se não todo, pelo menos os pinguins!

Ela assentiu, olhos brilhando.

Então cumpro. E hão-de arranjar-te médicos bons, os melhores. Vais ficar bem, ter o nosso filho! falou com fervor. Queria beijá-la ali, mas a porteira olhava com olhos de lince. Com ela, nem pensar.

Bebe a água, vamos dar uma volta sugeriu, puxando-a para si; ela escapuliu-se, séria:

Eu não posso ter filhos mesmo?

Tiago hesitou prometera não revelar. Agora não interessa. Depois logo se vê. Anda, vamos passear!

Matilde anuiu em silêncio, deixou-o ajudá-la a vestir o sobretudo depois virou-se, trincou o lábio. Era incompleta, menos-mulher. Como se vive assim?

Depois, Tiago arranjou uma aventura: foram até à oficina do Custódio, deram umas voltas de mota. Puseram-lhe um capacete enorme, sentou-se à frente dele, com mil cuidados.

Na calmaria do motor, com as mãos de Tiago firmes à volta da cintura, sentiu-se livre, esqueceu doenças e medos. Só contava aquele minuto

Nessa noite, veio o médico a correr. Injeção calmante. Não toma conta da criança?!, exclamou, pensando que Matilde estava grávida.

Estive só no cinema murmurava Matilde. Passa logo…

Estavas com Tiago? perguntou a mãe, preocupada.

Sim. E ele é o único que me diz sempre, sempre a verdade! Sobre tudo! Até que não posso ter filhos…

Matilde voltou a chorar, caindo no colo da mãe.

Vou-lhe dar uma carga de porrada! ameaçou o pai, apertando os punhos.

Não te atrevas, pai! Ele é o melhor de todos. O João não é nada ao pé dele!

Vai dormir! ordenou o pai, apagando a luz.

A partir desse dia, Dona Rosa proibiu Tiago na porta. Só viu Matilde na véspera de partir para a tropa. Quase rebentou o portão à pancada só para a ver.

Do alto da escada, o pai apareceu de caçadeira na mão.

Vai atirar, senhor Alfredo? Vá lá. Mais um rapaz, menos um Só faço falta à avó e a mais ninguém. Diga-lhe que fui embora. Assim não se preocupa.

Tiago aproximou-se, peito erguido, enfrentando a arma.

Alfredo hesitou, baixou o cano.

És tolo, Tiago. O quartel talvez te meta juízo. Agora sai. Matilde está a dormir, não a quero despertar. Pelo bem da tua avó.

Ficaram resolvidos: tudo de ruim era culpa de Tiago. Fora ele quem levara Matilde à neve, quem estimulara a correr riscos. Que desaparecesse das suas vidas.

Não te rales, Rosa. Ele vai à tropa, lá se acomoda. Esquece a Matilde, desdenhou o pai.

Dona Rosa espreitou, vigiando se Matilde ouvia. Ela estava à janela, de pés descalços, sem fazer barulho olhando a silhueta de Tiago.

Vira-te! Olha para mim! implorou por dentro.

Ele virou-se, ajeitando a boina, e acenou só para ela, imperceptivelmente. Ela percebeu

Tiago só voltou quatro anos depois. Matilde nunca soube: ele tinha ido para a Guiné, dado como desaparecido. Avó Isabel faleceu, ele não chegou a tempo do funeral. Matilde não foi permitida ir. As cartas que escrevia desapareciam.

Ainda não responde? perguntava a senhora da estação dos correios, com pena. Deve andar ocupado ou já não lhe interessa. Queres um conselho? Olha que o João está um homem bonito, parece doutor! Vai ter com ele, Matilde…

Tiago voltou num Outono. A casa negra esperava-o sozinha, cheirando a mofo e saudades. A chuva arruinara o telhado, as paredes colavam-se de humidade, na sala ainda estava o xaile da avó. Sobre a cómoda, ícones velhos já quase apagados.

Sentou-se, fechou os olhos. Tudo igual, mas diferente. Ou seria ele que já era outro?

Na manhã seguinte, foi ao quintal dos Martins; Dona Rosa sacudia roupa no estendal.

Dona Rosa! chamou ele, largando o cigarro. Ainda está igual, a senhora!

Parecia-lhe uma eternidade desde que partira.

Quem? apertou os olhos.

Sou eu, Tiago. Posso entrar?

Sem esperar resposta, abriu o portão, espiando o quarto de Matilde. Cortinas fechadas, os vasos de flores desapareceram.

Foi-se embora, Tiago. E tu, vivo? respondeu ela, reticente e resignada. Voltaste, pois Muitas coisas mudaram.

Para onde?… perguntou ele, olhos baixos, largando o cigarro.

Para Lisboa. O João entrou para a universidade de lá, ela não quis ficar. Casaram-se. Disse que tinhas morrido. Decidiram ir embora. João tem família ali. Escreveram agora dizendo que estão bem, Matilde também entrou no Instituto. Graças ao João, ela nunca ficou sozinha. Quando a tua avó morreu, ela quase se foi a baixo outra vez, chamaram outro médico Mas o João esteve sempre ali. Por favor, Tiago (e Rosa segurou-lhe no braço, com ternura) deixa-os em paz. Merecem uma hipótese de serem felizes. Entende

Ela olhou-o com pena, encolhendo os ombros.

Matilde nunca gostou do João! resmungou Tiago, cuspindo de lado.

Antes era assim. Depois viu como ele lhe faz bem, como a segura, não lhe falta nada. Por favor, não voltes à vida dela.

Tiago não respondeu. Virou costas, foi embora. Dona Rosa recolheu-se, exausta, para casa, onde o marido lia, influência boa do João.

Tiago, mais uma noite na casa vazia, fez a mala, fechou janelas, trancou a porta. No dia seguinte foi ao cemitério, parou junto da sepultura da avó, ouvindo um melro cantar. Tirou o crucifixo do pescoço e pousou-o sobre a pedra.

Desculpa, avó Isabel…

E partiu

Tiago tornou-se duro, incapaz de aceitar limites. Arriscava sem medo, liderava, juntava dinheiro nos negócios, nem todos limpos. Mas procurava.

Localizar Matilde era fácil: Lisboa, universidade, marido conhecido. Mas ele procurava era oportunidades.

Oito anos passaram. Depois de mexer em tudoreparações de carros, antiguidades, supermercados, fornecimentos, Tiago aproximou-se do mundo médico. Estabeleceu contacto com uma cardiologista de renome, Dr. Maria da Luz, no Hospital de Santa Maria.

Porque te interessa tanto doenças do coração, Tiago? perguntou a médica.

Há alguém que quero ajudar. Para que viva bem.

Preciso do processo clínico. Tens? Ou então análises recentes, exames.

Arranjo isso.

Conseguiu os documentos. E, para tal, teve de negociar favores, combinar somas em euros, trocas. Não era elegante nem legal, mas resultava.

Uma noite, em Lisboa, no corredor da casa, Rita levantava-se cedo, de roupão.

Vais sair já? Que horas são?

Preciso de ir, assuntos urgentes, dois ou três dias, não te aborreças. Se perguntarem por mim, dizes que não sabes quando volto. És livre. Só não quero ninguém em casa, está bem?

Sim, senhor. Fico em casa. Queres pequeno-almoço?

Não posso. Até breve.

Sabia que Rita não o amava, nem fingia. Eles tinham ambos o que era conveniente: para ela, um homem bonito e seguro, para ele uma companheira doce e compreensiva. Afinal, o mundo é complicado.

Na pastelaria, reunido com o administrador clínico, Tiago viu-o trémulo, preocupado com o processo da Dona Matilde Martins.

Isto não é legal, senhor Tiago! protestava, mordendo as unhas. Não podemos partilhar dados!

Quanto quer, doutor? Eu pago. Sabe, Matilde teve o azar de casar com um homem que a sufoca, diz-lhe sempre o que fazer, só a deixa trabalhar para calar a boca dos colegas. Não lhe permite férias, espetáculos. Não há alegria, só o papel de doente numa casa escura. O marido é promovido por ter esposa doente a casa, o carro, tudo para ele, Matilde apanha o autocarro. Conseguiu até um filho ela não podia engravidar, mas ele precisava de um herdeiro. E agora, espreme também o miúdo. É triste, doutor Eu só quero saber como ajudá-la. Os melhores médicos, lá fora. Tenho meios para isso, só preciso dessa informação.

Tiago falava baixo mas a raiva era tão grande que lhe apetecia esmagar o copo na mão.

É criminoso, Tiago! Mexeres desta maneira! sussurrou o médico, nervoso. Vais destruir a vida deles.

O crime é aproveitar-se da doença de alguém! explodiu Tiago. Dê-me as informações, receba o dinheiro. Salvará uma família.

Na rua, o médico finalmente cedeu, os papéis na mala.

Obrigado. Os aparelhos chegam para a semana.

Despediu-se, determinado.

*

Matilde caminhava devagar pelo bairro antigo. Não pensava em nada, limitava-se a respirar. Amanhã tinha consulta, João marcara num horário difícil, e tinha reunião na escola do filho à noite. Pais de João viriam de Trás-os-Montes passar uns dias. Tanta coisa a organizar Mas agora, queria só caminhar e respirar.

Passou uma mota, dois jovens aos risos. Matilde sorriu, lembrando as voltas que dera com Tiago.

Matilde! ouviu o seu nome. Parou, petrificada. Matilde, olá!

Tiago. Espírito antigo, rosto diferente, mas igual.

Sentou-a num banco.

Preciso falar contigo, é urgente!

Ela tocava-lhe o rosto e os ombros, quase sem acreditar. A avó Isabel dizia que não voltavas

Chorou, apertando-o. Tiago abraçou-a, forte e doce.

Onde conversamos? Café? perguntou.

Anda a minha casa, o João e o Valter já estão. Valter é nosso filho, vais conhecê-lo. respondeu ela.

Não posso ali. Precisamos de privacidade insistiu Tiago.

Sentaram-se numa esplanada.

Matilde, tens de vir comigo para fora. Há médicos que conseguem tratar a tua doença. Já está tudo pago. Vais ficar bem, livre, com vida tua outra vez!

Ele não me prende… Tem medo, só isso balbuciou ela.

Ele vive à tua custa, Matilde! O filho é criado a medo, tu a sobreviver…

Tiago, e tu? Casaste? O que tens feito? perguntou ela, desviando o assunto.

Tudo e nada. Fui bruto negócios, zangas. Mas agora só quero tirar-te desse fado. A clínica espera por ti. Aceita, por favor!

De repente o João apareceu.

Matilde, já estou aqui. Traz o Valter para jantar. Ah, é o Tiago? Que surpresa

João agarrou no braço da mulher, tentando afastá-la, Matilde hesitou.

Ele ofereceu-me uma oportunidade, João. Só queria saber mais

A tremura voltava-lhe à voz.

Ar fresco, mulher! Toma a tua medicação! João apressou-a. Tiago foi atrás, derrotado.

Em casa, ar gelado, o cheiro do jantar. O filho olhava o estranho.

Tiago, disse o pai, secamente, Valter vai à sala comer, nós conversamos cá.

Matilde trouxe chá, pondo um sorriso esforçado, mas João controlava tudo.

Deste que apareceste, só problemas. Querias o quê, levar a Matilde para uma operação arriscada que ninguém conhece, gastar dinheiro que nem dele sabes a origem? E se ela morre? Fica lá, com o filho aqui? Temos a nossa vida, não precisamos de ti! Onde estiveste todo este tempo? vociferou João.

Estive a lutar pelo que não temos. A Matilde precisa de vida. Não é só existir! Vai, Matilde, tu podes.

Eu fico aqui murmurou ela, encostando a cabeça nas costas de Tiago. Tenho medo, Tiago. Medo de morrer, medo de O Valter é pequeno ainda. Deixa tudo como está.

Vamos beber chá, rapazes sorriu Matilde. Provei um bolo novo. Depois, Tiago, parte para a tua casa, sim?

Tiago levantou-se, pegou na gabardina, saiu sem se despedir.

A rua estava húmida, cheia de gente, mas ele ia como um navio desgovernado.

Porquê? Tantos anos a tentar, a vender metade dos negócios, tudo em vão.

Quiseste mais vencer o João do que salvar a Matilde. Perdeste, aceita! pensou, sentindo só a amargura.

***

Rita esperava-o sem dormir.

Olá, murmurou ela, de roupão no corredor. Fiz sopa Queres provar?

Foi até ele, abraçou-o. Pensei que não voltavas. Que ficavas com ela…

Rita chorava baixinho, encostada ao peito dele.

Que disparate. Então e tu? Como sobrevivia eu sem ti? Tiago sentiu-se leve como nunca, livre. Não devia mais nada, nem a si mesmo. Podia, finalmente, viver amar Rita, casar, ter filhos, construir uma vida só deles. Os outros que sigam o seu rumo.

É fácil, afinal basta permitires-te a felicidade.

Rita via o homem comer a sopa e sorria, certa de que, naquele recanto, enfim, nascia também a sua pequena família.

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