Chega de cozinhar para todos!

Já não cozinho para toda a gente! Só para mim e para a Ana dissese a voz cansada de Cláudia.

Por quê? rebateu Tiago, furioso. Porque na nossa família, como agora percebo, cada um cuida de si. Então vivam assim!

Mãe, onde está o meu pequenoalmoço? Lurdes invadiu o quarto sem bater. Vou chegar atrasada à escola!

Cláudia tentou levantarse, mas a cabeça girou. O termómetro marcava trinta e oito graus. A garganta ardiam em brasa, o peito rangia.

Lurdes, estou gripada pega alguma coisa no frigorífico disse a mãe, a voz entrecortada.

Não há nada! Só iogurtes para a pequena! Lurdes ficou à porta, braços cruzados sobre o peito. Tu só pensas na Ana!

Do berçário ouviuse um choro. Beatriz despertou. Cláudia obrigouse a ficar em pé, as pernas tremiam, círculos giravam à sua frente.

Nina, onde está a minha camisa? Tiago saiu da casa de banho. A azul, com listras?

Deve estar no armário

Não! Foite passar ontem?

Cláudia se encostou à parede. No dia anterior passara o dia inteiro com febre, tentando cuidar da irmã mais nova.

Não consegui.

Maldição! Tenho reunião! Tiago bateu a porta da casa de banho com o punho, irritado.

Ana chorava cada vez mais alto. Cláudia agarrouse à cadeirinha infantil, levantou a filha nos braços. Lurdes se aninhou na mãe, soluçando.

Mãe! gritou Lurdes da cozinha. Não há nada aqui! Nem pão!

Dinheiro na mesa, compra alguma coisa na estrada.

Não vou à mercearia! Tenho prova! E, afinal, esse é o teu dever respondeu Ana, irritada. Alimentar a família!

Cláudia, em silêncio, foi para a cozinha, ainda a embalar Beatriz. Tirou das congelações as almôndegas e pôsas na frigideira.

E ainda frita o macarrão! ordenou Lurdes, com o telemóvel colado ao ouvido.

Enquanto o pequenoalmoço se preparava, Tiago saiu do quarto com a camisa amarrotada.

Tive que pôrla. Estou parecendo um semteto. Obrigado por isso!

Cláudia ficou muda. Falar doía, e não lhe restava energia para explicações.

A Sofia tem aniversário hoje anunciou Lurdes, enquanto se servia de macarrão. Vou à casa dela depois da escola. Volto tarde.

Lurdes, estou muito mal. Podes ficar aqui e ajudar com a irmã?

Ah, claro! Já fico há meio ano à espera desta festa! E eu não pedi a irmã! Isso são os vossos problemas!

A menina agarrou a mochila e saiu batendo a porta.

Tiago terminou o pequenoalmoço, a folhear as notícias no telemóvel.

Tiago, podes chegar mais cedo hoje? Estou realmente mal.

Não posso. Temos um jantar de empresa depois do trabalho. As responsabilidades, já sabes.

Mas eu estou doente

Então toma alguma coisa. Há paracetamol ali, ou o que quiseres. Não vais ficar deitada. Aguenta.

Ele lhe deu um beijo na têmpora, a mão suada de calor, e foi embora.

Cláudia ficou sozinha com a filha de três anos. Beatriz exigia atenção, comida, brincadeiras. Cláudia fazia tudo no automático, sentindo as forças a escaparem-lhe.

Ao almoço, a febre subiu a trinta e nove graus. Alimentou a criança, colocoua a dormir e foi sentarse no sofá. A cabeça batia, o coração acelerava.

O telemóvel vibrou. Mensagem de Lurdes: Mãe, dáme dinheiro para o presente da Sofia. Urgente!.

Cláudia não respondeu. Nem sequer teve força para atender.

Ao cair da noite, Tiago chegou primeiro, feliz, com um saco de compras da mercearia.

Comprei cerveja e batatas fritas! É dia de futebol! lançouse no sofá e ligou a televisão.

Tiago, alimenta a Ana, por favor. Não consigo levantarme.

Que está assim, tão mal? ele finalmente a observou. Por que estás tão rubra?

A febre está lá em cima. O dia inteiro

Então chama a emergência se for pior. Onde está a Ana?

No berço. Vai acordar em breve.

Certo, deixoa acordar primeiro.

A menina despertou meia hora depois, chorando, chamando a mãe. Tiago, relutante, afastouse da televisão, pegoua nos braços.

Por que choras? Vai para o pai!

Mas a pequena se agarrou a Cláudia, chorando ainda mais alto. Tiago ficou perdido.

Nina, ela querte!

Dá-lhe um biscoito do armário. E um sumo.

Onde? Não encontro!

Tive de levantarme. O mundo girava, mal consegui agarrarme à parede. Cláudia pegou nos biscoitos, encheu o copo de sumo. Beatriz acalmouse um pouco.

Lurdes regressou ao meiodia. Cláudia não dormia a febre impedia o sono.

Por que não respondeste à mensagem? começou a filha, à porta. Tive de pedir dinheiro à mãe da Sofia! Que vergonha!

Lurdes, passei o dia inteira com quase quarenta graus

E daí? Não conseguiste pegar o telemóvel? Dois segundos!

Na manhã seguinte, Tiago a acordou, esfregando-lhe o ombro.

Nina, levanta! Tenho de ir ao trabalho e a Ana tem ensaio!

A temperatura baixou, mas a fraqueza ficou. Cláudia vestiuse, pegou a filha e começou a vestirse.

E o pequenoalmoço? perguntou o marido.

Faz por ti. Levo a Ana ao jardimdeinfância.

Por mim? Mas eu não sei! E não tenho tempo!

Aprende.

Algo na sua voz fez Tiago calarse. Murmurou algo e dirigiuse à cozinha.

Quando Cláudia regressou do jardimdeinfância, a casa era um caos. Louça suja, coisas espalhadas, cama amassada. Normalmente limpava tudo na hora, mas não hoje.

Tomou um duche, bebeu um chá e deitouse.

Ao cair da noite, a família sentouse à mesa uma mesa vazia.

Mãe, o que vamos jantar? perguntou Lurdes.

Não sei. O que fizeres será o jantar.

O quê? a filha arregalou os olhos.

Literalmente. Já não cozinho para toda a gente! Só para mim e para a Ana.

Por quê? indignouse Tiago.

Porque na nossa família, como percebi, cada um cuida de si. Então vivam assim!

Nina, o que se passa? o marido tentou abraçara, mas Cláudia afastouse.

Estou cansada de ser criada à mão! Ontem mostraram-me que sou apenas o pessoal de serviço. Gratuita.

Mãe, eu já pedi desculpa! mentiu Lurdes.

Não, não perdoaste. E o pai também. Ninguém sequer perguntou como me sinto.

Então desculpa! resmungou a filha. Agora vamos passar fome?

O frigorífico está cheio de produtos. Há mãos disponíveis. Preparai.

A primeira semana foi um inferno. Lurdes fazia crises, Tiago bufava e batia nas portas. Cláudia mantevese firme, cozinhando só para si e Beatriz, lavando apenas as suas roupas, limpando só o quarto da criança.

Mãe, as minhas jeans estão sujas! Está tudo sujo! reclamou Lurdes.

A máquina de lavar está lá. O detergente está no armário.

Não sei usar!

Vais aprender. O manual está no tampão.

Tiago ia trabalhar de camisa amassada, comia em cafés. O dinheiro evaporava diante dos olhos.

Nina, isso é um desastre! Comer fora todos os dias!

Cozinha em casa. Sai mais barato.

Eu não sei!

O YouTube ajuda! Há milhões de receitas.

A casa afundava no caos: louça empilhada, chão por limpar, pó por todo o lado. Cláudia via tudo, mas não intervinha, limitandose a manter a limpeza no quarto da filha.

Depois de duas semanas, Lurdes tentou fazer macarrão. Esqueceuse de salgar a água, passouo ao dente ficou um bolo.

Mãe, ajuda!

Não. Aprende sozinha.

És mãe! Deves fazer isso!

Tenho a obrigação de cuidar dos menores. Preparar iguarias para ti não está nos meus deveres. Pão, leite, cereais tudo está aqui. Não ficarás com fome.

Tiago tentou fritar ovos. Queimouos; tentou novamente e, desta vez, ficou comestível.

Olha, Nina! Fiz ovos fritos!

Cláudia assentiu e voltou ao seu livro. Nenhum elogio, nenhuma celebração.

Três semanas depois, o apartamento parecia um depósito. Lurdes chorava ao lado de uma pilha de roupa suja.

Mãe, por favor! Só mais uma vez! Não tenho nada para a escola!

Ontem estiveste o dia todo em casa. Poderias ter lavado.

Eu fiz os trabalhos!

Eu trabalho a distância, cozinho, limpo depois da Ana, levoa a passear. E ainda consigo tudo.

És adulta!

E tu queres privilégios de adulto? Sair à noite, ganhar dinheiro para diversão? Então cumpre as responsabilidades de adulto também.

Até ao fim do mês a resistência foi quebrada. Lurdes aprendeu a lavar, a cozinhar pratos simples, a limpar a sua bagunça. Tiago dominou não só os ovos, mas também o macarrão e, até, uma sopa simples.

Numa noite, Cláudia chegou do parque com a Ana. A mesa da cozinha estava posta, o aroma da comida preenchia o ar. Tiago e Lurdes estavam sentados, rostos ainda marcados pela tensão.

Mãe, preparamos o jantar disse a filha, baixinho. Eu fiz a salada, o pai assou o frango.

Obrigada respondeu Cláudia, serena.

Perdoanos, mãe Lurdes abaixou o olhar. Realmente não percebíamos o quanto era difícil para ti.

Nina, não vamos mais fazer isto acrescentou Tiago. Prometemos ajudar.

Cláudia os observou. Não tinham mudado de pessoa, mas o medo de ficar sem a mãe que fazia tudo sozinha ainda habitava-os.

Bem disse ela. Mas lembremse: eu não sou empregada. Sou pessoa. Membro da família. E o tratamento tem de ser adequado.

Percebemos acenou Lurdes. De verdade, percebemos.

Durante o jantar falaram pouco, mas o clima mudou. Lurdes levantouse para limpar a mesa, Tiago foi à pia lavar a louça. Pequenos gestos, mas para Nina foram uma vitória.

À noite, ao colocar Beatriz na cama, sussurrou:

Vais crescer forte e independente. Não vais achar que o mundo deve tudo a ti. E encontrarás um homem que lave o prato sem precisar de ser lembrado.

Beatriz sorriu sonolenta e abraçoua ao pescoço. No quarto, Tiago esperava com uma chávena de chá.

Toma. O teu favorito, com mel.

Obrigada.

Nina, vais mesmo largarnos?

Cláudia ficou em silêncio.

Não te deixaria. Mas não voltaria a viver como antes. Basta. Também sou pessoa e mereço respeito.

Realmente percebemos tudo.

Veremos sorriu ela, bebendo o chá. O tempo dirá.

E o tempo mostrou. A família não ficou perfeita. Lurdes ainda se esquecia de lavar a louça de vez em quando, Tiago deixava a camisa amarrotada. Mas a atitude mudou.

Agora viam em Nina não uma ajudante gratuita, mas uma mulher, esposa, mãe, que tem direito a cansarse, adoecer, querer descansar.

Era o início de uma nova vida, onde cada um responde pelos seus atos, mas oferece ajuda ao próximo. Onde um obrigado surge após uma refeição feita com carinho. Onde a mãe pode deitarse à tarde sem que ninguém se indigne pela falta do almoço.

Uma pequena revolução dentro de um lar português. E, se também vives assim, experimenta este truque. Funciona.

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Chega de cozinhar para todos!