Porque é que estás a gritar comigo?! protestou Manuel. Ando aqui a tratar e a alimentar a tua esposa, e ainda me falas nesse tom?! Francamente!!! Gritaram com fervor um ao outro durante meia hora, até Carmen ficar rouca e Manuel exausto
Manuel regressa agora a casa depois do turno da manhã na fábrica. O fim de semana está mesmo à porta e só isso já lhe traz um certo alívio, mas não se resume a ter tempo para descansar. No sábado à noite tem marcada uma esperada saída com uma mulher que conheceu online.
Trocaram mensagens durante um mês inteiro: falaram sobre os empregos, gostos, sonhos e até receios. Tudo como costuma ser nestes encontros modernos. Enfim, o dia do primeiro encontro está à porta. Falta só reservar mesa num restaurante acolhedor, fazer um telefonema rápido e decidir o que vai vestir.
Absorvido nos seus pensamentos, Manuel já está quase a chegar ao prédio típico bloco de apartamentos lisboeta, onde mora num T3 no quarto andar. Faltam só uns cinquenta metros. Parece que, com mais um passo, a vida podia dar uma reviravolta, mas
Ai estes mas.
Mesmo à entrada do prédio, de uma árvore que nunca lhe chamara à atenção, cai-lhe aos pés um corvo. A ave debate-se frenética, grasna estridente, e nos ramos lá em cima uma excitação geral toma conta de todo o bando. Os gritos parecem anunciar uma calamidade.
Só me faltava esta, refila Manuel.
A ave tenta erguer-se, mas volta a tombar. Dali percebe que a perna direita está nitidamente partida.
E agora, o que faço contigo? questiona-se alto.
Não consegue deixar passar. Tira o casaco, cobre com cuidado o corvo para este não se debater mais e leva-o até à entrada. Pelas costas chega-lhe o corropio ansioso do bando.
Em casa, tira a ave do casaco e examina o pernão, recebendo logo em troca uma bicada forte no dedo.
Valha-me Deus… resmunga, envolvendo o bico com um pano para evitar mais ataques.
Telefonemas para clínicas veterinárias não resultam não tratam aves. Amigos também não têm soluções. Recorda-se então: é excelente com as mãos, talvez consiga ele próprio ajudar.
Primeiro, prepara uma caixa baixa com toalhas macias e põe-na junto à janela. Dá-lhe logo um nome: Carmen.
Durante horas, Manuel arquiteta a tala: corta um canal com uma faca em dois ripados, ajusta com fita isoladora e prende aquilo à perna. Liberta o bico.
Carmen tenta logo bicá-lo outra vez.
Calma, rapariga Só quero ajudar. Mas assim não pode ser, ainda tenho de te alimentar e dar água.
Num instante está a pesquisar online e traça dois destinos: loja de pesca e farmácia. Na primeira compra larvas e pequenas minhocas, na segunda uma pinça e seringa. Volta a casa e inicia a refeição à força.
Tem de abrir-lhe o bico e inserir a comida com jeito; dá água com seringa. Carmen recusa, debate-se e protesta alto. Manuel resmunga, mas persevera.
Estão ambos cansados no fim. Carmen, alimentada e extenuada, rende-se ao sono. Ele também se deita.
De manhã o ritual repete-se: refeições, bicadas, resmungos. Só que agora nota um corvo maior do lado de fora, sentado no parapeito um macho vigilantíssimo.
Quase por impulso, Manuel abre a janela.
És o marido da Carmen, não és? Força, entra Vê tu mesmo, estou só a tentar ajudar.
O corvo, desconfiado, escuta-o de cabeça inclinada, espreitando Carmen na caixa. Depois avança com cautela.
Carmen solta um grunhido fraco. O macho vira-se para Manuel, estende as asas e grasna bem alto.
Oh pá, que raio! indigna-se Manuel. Estou aqui a tratar da tua mulher e tu só gritas?! O que é isto?!
Discutiram assim durante largos minutos homem e ave em pura cacofonia até o corvo não aguentar mais e Manuel perder o fôlego.
Depois, ele prepara duas caixinhas com as larvas e minhocas e chega-as para perto do corvo. Sem alaridos.
A ave analisa cautelosamente, prova a comida e, quando aprova, devora com vontade.
Pois claro, aposto que tudo isto foi só para ti, não?
Saciado, o macho aproxima-se de Carmen e começa a endireitar-lhe as penas.
Que ternura tão rara emociona-se Manuel. Carinho de família. Vá lá, vê se não resmungas comigo para eu poder tratar de ti!
Durante a noite o corvo vai-se, mas volta na manhã seguinte. Bate ao vidro com o bico, espera Manuel abrir, inspeciona Carmen e come tranquilo.
Bom dia cumprimenta Manuel com um sorriso. Parece que já começamos a perceber-nos
Enquanto alimenta Carmen e tenta evitar novas bicadas, o macho observa sem interferir.
De repente, uma angústia atinge Manuel.
Ai meu Deus Ela está à espera! Nem telefonei ao restaurante, nem reservei nada
Apanha o telemóvel, marca o número.
Desculpe começa ele, abrindo o coração com o que se passou e o porquê de não ter reservado mesa.
Então um corvo qualquer é mais importante do que jantar comigo?! interrompe a mulher, ofendida.
Não Não é isso Só não consegui deixar de ajudar
Olhe, fique com o seu corvo! diz, cortante, e desliga.
Pois, acabou-se suspira Manuel, olhando para o corvo. O nosso encontro acabou antes de começar.
O grande corvo salta então para a mesa diante dele. Abre as asas, estufa o peito e caminha altivo de um lado para o outro, como se desse lição.
Manuel ri-se, desarmado:
Não faço ideia se percebes o que digo, mas sinto o teu apoio. Achas que não me devo ir abaixo? Que é para seguir em frente?
Mesmo nesse momento batem à porta. É a vizinha Cláudia, do quinto andar sempre simpática no elevador, agora com um sorriso entre nervosa e gentil.
Desculpe hesita ela mas há uma semana que uma data de corvos dão voltas às suas janelas. Está tudo bem? Precisa de ajuda?
É difícil explicar atrapalha-se Manuel. Entre, veja por si.
Ela entra e fica boquiaberta.
Valha-me Nossa Senhora Está a tratar de um corvo?
Aquela é a Carmen, esclarece Manuel.
Então o corvo é o Carlos! ri-se Cláudia.
O riso dela é fresco, cristalino, dessas pequenas felicidades há muito apagadas em Manuel. Ele olha-a e pensa que talvez o tal jantar perdido não importe em nada.
Carlos volta a exibir-se na mesa e Cláudia ri mais.
Desde então, tudo se torna mais leve. Carlos revela afeto pela convidada: mal ela chega, estufa penas e salta para perto dela. Cláudia cora, entre sorrisos.
Carmen percebe finalmente que estão ali para ajudar; deixa-se alimentar sem birras e, pouco a pouco, recupera. Manuel até deixa a Cláudia uma chave extra, e ela passa a cuidar de Carmen e Carlos quando ele está no trabalho.
Manuel apaixona-se mais a cada dia. Já pensa em convidá-la para jantar quando acontece algo inusitado.
Numa noite, ao voltar do segundo turno, leva consigo um presente: uma corrente de prata com um pequeno coração vermelho para Cláudia.
Vai a sorrir, pensando como lha vai entregar, mas à luz do candeeiro duas sombras aproximam-se.
Dá-me a carteira, telemóvel e relógio! ordena um deles, mostrando uma navalha.
Despacha-te, tira o casaco! diz o outro.
Não teve tempo de sentir medo.
De repente, precipita-se sobre eles uma nuvem negra. Gritos pânico, dor, terror. Dezenas de bicos atacam furiosamente. O bando de corvos protege Manuel.
Corre para casa e, na manhã seguinte
À porta está Cláudia, pálida e trémula.
Meu Deus! diz ela, ao abraçá-lo. Está vivo Pensei que tinhas sido atacado
O que aconteceu? pergunta ele, a afagar-lhe o cabelo.
Durante a noite houve um ataque de corvos a dois homens na rua. Foram parar ao hospital, quase os comeram vivos.
Manuel sorri e lembra-se subitamente:
Comprei-te um presente.
Oh, não era preciso responde Cláudia, corando.
Quando ele lhe mostra a corrente de prata, ela sorri e beija-o na face.
Que lindo. Obrigada, e estende a mão, mas
Lá estão os mas!
Carlos surge como um relâmpago e apanha a corrente num pestaejar. Vai deixá-la junto a Carmen.
Ambos desatam a rir.
Compro-te outra, prometo!
Carlos abre as asas, estufa o peito, e solta um Caarrr! triunfante. Carmen segura a corrente e guarda-a com ela.
Manuel e Cláudia beijam-se à porta.
E, no fim de contas, isso é que interessa.
Afinal, é tudo uma questão de família.
