O marido mandou a esposa para a serra para emagrecer, pois tinha perdido a cabeça, e assim pode dedicar‑se livremente aos prazeres com a sua secretária.

« Manuel, não percebo o que queres», disse Lurdes.

« Nada de especial », respondeu Manuel. « Quero estar só, descansar um pouco. Vai para o campo, relaxa, perde uns quilinhos. Caso contrário vais ficar toda desbotada. »

Lurdes lançou um olhar de desdém à silhueta do marido. Sabia que tinha ganho peso por causa dos cuidados, mas nada comentou.

« Onde fica esse campo? » perguntou.

« Num sítio muito pitoresco », sorriu Manuel. « Vais gostar. »

Lurdes decidiu não contestar. Também precisava de um tempo. « Talvez estejamos simplesmente cansados um do outro », pensou. « Vamos deixar as coisas um pouco ao léu. E não voltarei enquanto ele não me chamar. »

Começou a juntar as malas.

« Não estás zangada comigo, não? » insistiu Manuel. « É só por um tempinho, só para descansar. »

« Não, está tudo bem », respondeu Lurdes com um sorriso amarelo.

« Então vou-me», disse Manuel, dando-lhe um beijo na bochecha antes de sair.

Lurdes suspirou fundo. Os beijinhos que antes tinham calor, já eram só lembrança.

A viagem durou muito mais que o previsto. Lurdes errou a estrada duas vezes o GPS fazia birras e não havia sinal. No fim apareceu um sinal com o nome da aldeia. O lugar era isolado, as casas, embora de madeira, estavam bem cuidadas, com delicados entalhes.

« Aqui não há conforto moderno », pensou Lurdes.

E não se enganava. A casa parecia uma cabana caidinha. Sem carro nem telefone, sentiase transportada para outra época. Tirou o telemóvel. « Vou ligar agora », disse a si mesma, mas ainda não havia sinal.

O sol já se punha e Lurdes estava exausta. Se não encontrasse a casa, teria de passar a noite no carro.

Não tinha vontade de voltar à cidade, nem queria dar a Manuel a desculpa de não saber lidar com a situação.

Desceu do carro. A jaqueta vermelha que vestia sobressaía quase com humor contra a paisagem da aldeia. Sorriu para si.

« Vamos lá, Lurdes, não nos vamos perder », gritou em alta voz.

Na manhã seguinte, o canto estridente de um galo acordoua enquanto ainda dormia no carro.

« Mas que barulho? » resmungou Lurdes, abaixando a janela.

O galo fitoua com um olho só, depois continuou a cacarejar.

« Porque estás a gritar tanto? » exclamou Lurdes, mas viu uma vassoura a voar na frente do vidro e o galo calouse.

No beco apareceu um velho.

« Bom dia! », saudouo.

Lurdes observouo, surpresa. Aqueles habitantes pareciam ter saído de um conto de fadas.

« Não te preocupes com o nosso galo », disse o velho. « É simpático, mas cacareja como se lhe partissem a voz. »

Lurdes riu à beça; o sono desapareceu num instante. O velho também sorriu.

« Fica connosco muito tempo ou é só uma paragem? »

« Para descansar, enquanto puder », respondeu Lurdes.

« Entra, minha querida. Vem tomar pequenoalmoço. Vais conhecer a avó. Ela faz bolos e não há quem os coma. Os netos só vêm uma vez por ano, os filhos também »

Lurdes não hesitou. Queria conhecer os locais.

A avó de Pedro Ilhavo revelouse uma verdadeira avó de contodefadas usava um avental florido e um lenço na cabeça, sorria sem dentes e tinha rugas de compaixão. A casa era limpa e aconchegante.

« É maravilhoso aqui! » exclamou Lurdes. « Porque é que as crianças já não vêm mais? »

Dona Ana acenou de ombros.

« Somos nós que os dissemos para não vir. As estradas são um caos. Depois de chover, temos de esperar uma semana para sair. Houve uma ponte, mas era velha. Desabou há uns quinze anos. Vivemos como reclusos. Manuel vai à mercearia só uma vez por semana. O barco já não aguenta carga. Manuel é forte, mas a idade »

« Estes bolos são divinos! » disse Lurdes. « Não há ninguém que cuide de vós? Alguém tem de o fazer. »

« Para que? Somos só cinquenta. Antes éramos mil. Agora todos se foram. »

Lurdes refletiu.

« Estranho. E a administração, onde está? »

« Do outro lado da ponte. E, com o desvio, são sessenta quilómetros. Acham que não fomos pedir ajuda? A resposta é única: não temos dinheiro. »

Lurdes percebeu que tinha encontrado um projeto para as férias.

« Dizemme onde posso encontrar a administração? Ou podem acompanharme? Não parece que vá chover. »

Os mais velhos trocaram olhares.

« Estás a brincar? Vieste aqui para descansar. »

« Estou. O descanso pode assumir várias formas. E se chover? Tenho de pensar também em mim. »

Riram calorosamente.

A secretaria da câmara respondeu:

« Mas até quando nos vais atormentar! Acham que somos os vilões. Olhem as estradas da cidade! Quem vai pagar por uma ponte para uma aldeia de cinquenta habitantes? Procurem um patrocinador. Por exemplo, Simoes. Já o ouviram? »

Lurdes assentiu. Claro que o conhecia Simões era o dono da empresa onde o marido trabalhava. Era natural da zona; os pais mudaramse para a cidade quando ele tinha cerca de dez anos.

Depois de uma noite a refletir, Lurdes tomou a decisão. Tinha o número de Simões o marido o tinha chamado várias vezes do telemóvel dele. Decidiu ligar como terceira pessoa, sem dizer que Manuel era o marido.

A primeira chamada falhou; na segunda, Simões ouviu, ficou em silêncio um instante e depois riu.

« Sabes, quase me esqueço de que nasci aqui. Como vão as coisas? », perguntou.

Lurdes ficou contente.

« Tudo bem, tranquilo, a gente é ótima. Vou enviar fotos e vídeos. Jorge Batista, tentei de tudo ninguém quer ajudar os idosos. Vocês seriam os únicos a conseguir fazer alguma coisa. »

« Penso nisso. Mandame as fotos, quero lembrar como era. »

Durante dois dias, Lurdes filmou e fotografou para Simões. As mensagens foram lidas, mas não chegou resposta. Estava prestes a desistir quando Jorge Batista ligou ele próprio:

« Lurdes, pode vir amanhã ao meu escritório na Avenida da Liberdade, por volta das três? E preparar um plano preliminar das obras. »

« Claro, obrigada, Jorge! »

« É um pouco como voltar à infância. A vida é uma corrida nunca há tempo para sonhar. »

« Entendo. Mas tem de vir pessoalmente. Amanhã estarei lá, pode contar comigo. »

Ao desligar, percebeu que era no mesmo escritório onde o marido trabalhava. Sorriu para si, já a imaginar a surpresa que viria.

Chegou cedo, com ainda uma hora antes da reunião. Estacionou o carro e dirigiuse ao escritório do marido. A secretária não estava. Entrou e, ao ouvir vozes vindas da sala de descanso, aproximouse. Lá encontrou Manuel e a sua assistente.

Ao ver Lurdes, ficaram realmente pasmos. Ela ficou parada na porta, enquanto Manuel se levantava a correr, tentando puxar os calções.

« Lurdes, o que fazes aqui? »

Lurdes saiu correndo do escritório e, no corredor, cruzou Jorge Batista. Entregoulhe os documentos e, incapaz de conter as lágrimas, despistouse para a porta. Não se lembrava como tinha voltado à aldeia. Quando chegou, desabou na cama e começou a soluçar.

Na manhã seguinte bateram à porta para a acordar. Na soleira estava Jorge, acompanhado de um grupo de pessoas.

« Bom dia, Lurdes. Vi que ontem não estava pronta para falar, então vim pessoalmente. Quer um chá? »

« Claro, entre. »

Sem mencionar o que tinha acontecido na noite anterior, tomaram chá e reuniramse quase todos à volta da casa. Jorge olhou pela janela.

« Olha só a delegação! Lurdes, não será que este homem é o avô Ilhavo? »

Lurdes sorriu: « É ele. »

« Há trinta anos já era avô, e a companheira alimentavanos com os seus bolos. »

O homem fitou Lurdes com apreensão, e ela respondeu rapidamente:

« Dona Ana está em plena forma e continua a fazer os seus famosos bolos. »

O dia passou entre mil tarefas. Os colaboradores de Jorge mediam, anotavam e contavam.

« Lurdes, posso fazer-lhe uma pergunta?», perguntou Jorge. « Sobre o seu marido perdoao? »

Lurdes refletiu, depois sorriu:

« Não. Sabe, até agradeço que as coisas tenham terminado assim E então? »

Jorge ficou em silêncio. Lurdes levantouse e olhou à volta.

« Se a ponte for reconstruída, este canto pode tornarse num sítio extraordinário! Reformar as casas, criar cantos de descanso. A natureza está intocada, autêntica. Mas ninguém a cuida. E se não quiser voltar à cidade »

Jorge observavaa admirado. Aquela mulher era especial, decidida, inteligente. Nunca a tinha reparado, mas agora viaa sob outra luz.

« Lurdes, posso voltar? »

Ele olhoua atentamente: « Vem quando quiseres, ficarei feliz. »

A construção da ponte avançou a passos largos. Os habitantes agradeciam Lurdes, e os jovens começaram a regressar. Jorge tornouse um visitante frequente.

O marido ligouse várias vezes, mas Lurdes recusouse a atender e acabou por bloquear o número.

ao amanhecer, um golpe ecoou na porta. Ainda sonolenta, Lurdes abriu, esperando más notícias, mas encontrou Manuel.

« Oi, Lurdes. Vim buscarte. Basta de te fazer de difícil. Desculpa », disse ele.

Lurdes explodiu em riso:

« Desculpa? É só isso? »

« Tudo bem Preparate, vamos embora. Não podes expulsarme de casa, não te esqueças, não é a tua casa, já te esqueceste? »

« Agora expulsote eu! », exclamou Lurdes.

A porta rangeu ao fechar. Do quarto, Jorge apareceu vestido de forma descontraída:

« Esta casa foi comprada com fundos da minha empresa. E tu, Manuel Silva, achas que me enganas? No momento há uma auditoria nos nossos escritórios, e terás muitas perguntas. Quanto à Lurdes, já lhe disse para não se preocupar a saúde dela está em risco »

Os olhos de Manuel arregalaramse. Jorge abraçou Lurdes:

« Ela é minha namorada. Por favor, sai da casa. O processo de divórcio já foi apresentado, esperate notificação. »

O casamento acabou na aldeia. Jorge confessou ter reencontrado o amor por aquele recanto. A ponte foi reconstruída, a estrada renovada e abriuse uma mercearia. Os habitantes começaram a comprar casas como refúgios de verão. Lurdes e Jorge decidiram também remodelar a sua casa para ter um cantinho onde os filhos pudessem vir.

 Fim.

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