Enquanto Estiveste em Viagem de Trabalho

Enquanto estiveste em Lisboa

Aninhas, cheguei a casa, vem receber-me!

O quê, Leonel?! Mas já? Pensava que só voltavas daqui a três dias…

Ana, uma mulher de trinta anos de rosto aberto e gentil, surgiu apressada no corredor, ajeitando o seu robe de seda e olhando, atónita, para o marido de regresso a casa.

Quis fazer-te uma surpresa, Ana Maria. Parece que resultou! Ou não estás contente de me ver? Leonel, alto e de ombros largos, sorria com satisfação, saboreando o impacto da sua chegada.

Estou, claro que estou! Vai já para a cozinha que eu aqueço o jantar

Orgulhoso do seu efeito, Leonel seguiu para a cozinha. Lá encontrou um verdadeiro banquete: morangos frescos, chocolate, um jantar recém-saído do forno… Parecia tudo feito especialmente para ele.

Ó Ana, não estás fácil hoje! Como é que adivinhaste que eu vinha? És mesmo perspicaz!

Serviu-se generosamente e começou a comer. A esposa, porém, não aparecia, mas ele achou melhor não a chamar devia estar a vestir-se de propósito para o receber.

Leonel, eu… nós…

Que maravilha, Ana! O teu assado está divino, e esta salada, os crepes… Não me largo disto! André?!

Leonel deu meia-volta e deparou-se com Ana a entrar na sala, de braço dado com André, seu irmão. Ana baixava os olhos, envergonhada. André, de calções e t-shirt, esfregava a testa como quem tinha sido afastado do sono.

Sim, Leonel, sou eu. Olá, mano…

Olá. Agora expliquem-me o que se passa aqui. Embora, se calhar, já nem quer dizer muita coisa…

Leonel, eu… Eu já há muito que te queria dizer isto. Estou apaixonada pelo teu irmão, o André, só quero estar com ele. Perdoa-me. Ana disse tudo de uma vez, lançando um olhar de lado ao que já era o seu ex-marido.

A colher caiu das mãos de Leonel. Os restos de comida espalharam-se pelo chão, ressoando pela cozinha.

E vocês, pelo que vejo… Acabaram de…

Sim. Estávamos juntos, precisamente agora.

Fantástico, Ana! E tu também, André, que bem jogado! Agora percebo este jantar todo caprichado… E, sobretudo, para quem ele era.

Ana não conseguia encarar o marido. Sentia que, se levantasse os olhos, toda a coragem lhe fugiria.

E a Inês? O que fazemos à nossa filha? Ela sabe de alguma coisa?

Não, não sabe.

E agora, onde está?

Está na vizinha, a ver bonecos animados.

Costumas deixá-la lá muitas vezes?

Tem sido hábito nestes últimos seis meses…

Acabaram-se as perguntas. E os sentimentos também. Leonel, cansado da viagem, não via razão para um escândalo. Homem de feitio pacato, não sabia ficar zangado muito tempo, mas se alguém o levava ao limite, era de fugir. Esta situação, com dois dos seus mais próximos, mergulhou-o num tropeço emocional, mas apenas por instantes.

Daqui a dez minutos, quero a casa vazia. Comecem a mexer-se. disse Leonel, bebendo o chá calmamente. Nem olhou para o irmão.

«O que é que ela vê no André? São praticamente iguais, até as sardas… Não sabe o que é trabalho, nem juízo… Só vai perder com ele. Enfim, cada um faz o que quer!» ponderou o homem, continuando a beber o chá.

Não saio daqui até obter o teu consentimento, André afirmou, firme.

E que consentimento é esse?

O divórcio… Liberta a Ana, ela não te ama.

Eu vejo bem quem é que a minha mulher ama… Leonel sorriu, irónico. Querem divórcio? Haverá divórcio mas pelo tribunal! Quero ver como gastam o dinheiro todo em advogados…

Leonel… Ana pousou uma mão no pulso do marido. Leonel, só te peço que tudo isto seja pacífico. Conheço-te, sei que és bom homem

Ele abanou a cabeça com serenidade.

Pois bem. Mas André, não te quero mais por irmão.

Há mais um pedido…

Diz lá.

Deixa-me ficar com a casa após o divórcio, Leonel! Ana sorriu, piscando os olhos. A Inês está tão habituada a este lugar, a escola, os amigos… Se dividirmos a casa, não teremos dinheiro para mudar, e teríamos de voltar para a aldeia…

Leonel apoiou o queixo nas mãos, pensativo. Vendo-o a hesitar, Ana intensificou:

Meu querido Leonel, sê generoso… Faz este favor à nossa filha, só temos uma. Tu, com o teu trabalho, ganhas bem, vais conseguir recuperar! Por favor, faz isso por ela…

Calma, Ana. Tenho uma ideia melhor.

E qual é? perguntou Ana, cheia de esperança. Vais também deixar-nos o carro? A Inês ficava felicíssima

A Inês vai viver comigo.

O quê?! Estás louco? Tu nunca cuidaste de crianças! Estás sempre em trabalho, quase não sabes o nome dela!

Pois vamos ver respondeu Leonel. E foi buscar a filha.

Pouco depois regressou, de mão dada com uma menina de dez anos, já no quarto ano. Apertava forte a mão do pai e sorria, orgulhosa.

Para que é que a trouxeste? Para a meteres nesta confusão? disparou Ana, aborrecida.

Leonel sentou-se na cozinha, a filha nas pernas, e perguntou-lhe:

Inês, meu tesouro, posso fazer-te umas perguntas?

Claro! respondeu feliz.

Prometes que respondes com sinceridade? Vou falar contigo como com gente grande.

Mesmo como falas com os tios no escritório?

Mesmo assim.

A menina assentiu, muito séria.

Diz-me, a mãe alguma vez te bateu? Nem que fosse nesta última semana?

A pequenita desviou o olhar, inquieta, a torcer o tecido do vestido nos dedos.

Que disparate é este?! gritou Ana. Deixa a menina em paz!

Cala-te, Ana. Estou a falar com a filha. Leonel envolveu-a nos braços, acariciando-lhe o cabelo. Não tenhas medo, Inês. Lembras-te da promessa?

Ela assentiu, com lágrimas a nascer. Abraçando o pai, sussurrou baixinho:

Sim, bateu-me três vezes… Uma vez por causa da nota, outra porque entornei o leite… A última porque gritei com o tio André. Eles estavam a beijar-se enquanto tu estavas fora…

Pronto, já passou, o pai está contigo. Agora ninguém te vai magoar.

É mentira! gritou Ana. Nunca lhe toquei sequer!

Pretendias ficar com a casa e o carro, tudo pela filha? Leonel virou-se para a filha. Respondes só mais uma coisa?

Sim…

Se pudesses escolher, com quem gostavas de viver, comigo ou com a mãe?

A menina olhou primeiro para o pai, depois para a mãe. Ana fez de tudo para a convencer com gestos e promessas.

Prometes não te ires embora mais durante muito tempo?

Prometo! respondeu Leonel sem hesitar.

Eu quero ficar contigo, papá.

Sua mal agradecida! berrou Ana, tentando bater na menina, mas Leonel resguardou-a com o corpo. André permaneceu imóvel durante toda a cena.

Pronto, Ana, a conversa está terminada. Não voltarás a vê-la, disse serenamente Leonel, levando Inês para o quarto.

Em poucos minutos, Leonel ajudou Inês a arrumar as coisas. Felizmente, ele tinha ainda a mala da viagem pronta. Foram para um pequeno hotel do lado oposto da cidade, um dos que Leonel costumava reservar em serviço.

…Passados alguns meses, houve julgamento. Considerando que Ana e o novo companheiro não tinham renda certa, nem condições para criar a criança, o juiz decidiu que Inês ficaria com o pai ainda mais com o total acordo da menina.

Leonel acordou dividir a casa como previsto; vendeu a sua parte e comprou um novo apartamento. A filha podia ver a mãe aos fins de semana, mas vivia com o pai. Leonel mudou os hábitos, deixou as viagens longas de trabalho, passou a dedicar-se à filha. E, com o tempo, o sorriso voltou ao rosto de Inês. E isso, para Leonel, valia mais do que qualquer nota de escudo ou trabalho bem pago.

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