Amiga imaginária
À volta da Leonor já iam uns três dias com um grupo de alunos sempre atrás dela. A miúda ficou famosa pela escola toda como uma espécie de vidente e conselheira, quase psicóloga. Todos queriam um pouco da sua sabedoria. Apanhavam-na à porta da casa de banho, sentavam-se com ela no refeitório, ofereciam-lhe rebuçados, cadernos com os trabalhos de casa e outros presentinhos, tudo coisas que, curiosamente, a Leonor recusava.
Gosto do Tiaguinho do 5.º B. Achas que algum dia podemos ser família? perguntava a colega de turma, Matilde, com aquele ar sonhador.
Não recomendo. O Tiaguinho, por fora, parece um anjo, mas por dentro passa o recreio a escarafunchar o nariz e a comer o que encontra lá dentro. Fome, não vais passar, mas não há mais nada a esperar. A vida toda dele vai ser a mexer no nariz respondeu Leonor, mastigando um pão de Deus e sorvendo o chá.
Que nojo! Então e o Ricardo? Ele tira boas notas, até aprende guitarra sorriu Matilde, outra vez a suspirar.
Esse Ricardo gosta é de torturar gatos. Prende uma lata de conserva à cauda e depois corre atrás deles nos quintais. Vai crescer para ser bruto e ainda por cima dado ao copo.
Porquê?
Onde é que já se viu guitarrista sóbrio? E tu ainda és tão nova para te preocupares com isso, aproveita a infância. Os rapazes não fogem. Corrige antes a matemática e deixa de roer as unhas, ainda ficas com bichos.
Não tenho amigos. Chamam-me gordo e nunca me convidam para nada disse o Paulinho do 4.º C, empurrando Matilde para o outro lado do banco.
Quarta-feira abrem inscrições para karaté. Fala com o professor de Educação Física. Não vais emagrecer tão cedo, mas deixam-te em paz. E tu, olha que não trates assim a tua futura mulher.
A Leonor levantou-se e foi levar o tabuleiro à copa para lavar.
Leonor, achas que entro na escola de condução já este ano, ou deixo para o próximo? perguntou a professora de Geografia, ao pé da pia, tentando disfarçar.
Dona Teresa, para tirar a carta é preciso ter carro, e a sua relíquia do seu pai já está pelas ruas da amargura. Percebe a diferença?
Acho que… sim…
A Leonor revirou os olhos e, lavando as mãos, continuou:
Venda lá o carro velho, compre uma bicicleta e uns calções, daqui a dois meses já há boleia para o emprego. Mas se quer saber mesmo, peça um crédito para casa o juro está uma delícia e aos 35 já não faz figura a viver com os pais. Digo isto com conhecimento de causa.
Com os professores a suspirar e ela seguida de olhares surpreendidos, a Leonor voltou para a aula de trabalhos manuais.
Em quarenta minutos, enquanto as colegas aprendiam a medir com fita métrica ou a enfiar linha na agulha, a Leonor remendou umas calças que trouxera de casa, apertou uma saia e ainda fez à pressa umas meias de lã à professora, explicando que grávidas têm de manter os pés quentes. A professora pediu de imediato para sair e correu à farmácia comprar um teste. No dia seguinte, houve bolo de chocolate para toda a turma, presente dela à Leonor.
Em casa, ela também se portava de maneira invulgar. Ralhou com a mãe por comprar carne picada do supermercado e fez ela mesma os rissóis. Nessa noite, em vez de horas no Youtube, sentou-se a ler Os Três Mosqueteiros e estava sempre a murmurar com alguém. O pai espreitava atrás do computador e a Leonor, sem hesitar, ralhou-lhe que andava torto. Mais valia ir bater o tapete do que andar por aí em sites manhosos.
Na escola, os rumores corriam, professores preocupados pediam ao psicólogo escolar para intervir. Marcaram uma sessão. No próprio dia de aulas, reuniu-se o conselho completo, diretora incluída.
Leonor, querida, alguém te anda a incomodar na escola? começou o psicólogo, de barba aparada e óculos de massa.
O que me incomoda é terem dado milhões à escola e só termos um cavalo velho e dois metros de corda no ginásio respondeu ela, com tédio.
Todos olharam para a diretora, que de repente saiu por uma janela aberta para uma reunião urgente.
Não tens amigos?
A amizade é abstrata atirou Leonor, enrolando as tranças com os dedos. Hoje brincas ao apanha com alguém no intervalo, amanhã tens essa amiga a lavar-te a loiça enquanto tu tratas dos papéis do IRS.
IRS, loiça?! Quem te disse essas coisas?
A minha amiga.
Aí está o problema! Podes chamá-la aqui?
Ela já cá está respondeu serena, deixando os presentes de olhos arregalados.
E como se chama?
D. Amélia Oliveira.
Santo Deus, quantos anos tem essa sua amiga?
Setenta.
E o que te diz ela?
Que os dentes limpam-se da gengiva para baixo, que o cão do meu prédio não é mau, só tem medo e fome, e que não devemos esquecer da família. E ainda que o seu imposto municipal está mal calculado há cinco anos, devia ir às Finanças pedir revisão, que andam a cobrar pelo valor patrimonial, não pelo valor de mercado.
O psicólogo anotou tudo, sublinhando esta parte duas vezes.
Depois, ligaram aos pais, que estavam no trabalho.
Esperem! berrou o pai, esbaforido do outro lado do telefone O nome da minha mãe era esse! Ela morreu há dez anos.
Ouviram-se vários suspiros e murmúrios de reza no gabinete.
Pois foi, passaram dez anos e ninguém mais se lembrou de ir ao cemitério. Arelva alta, vedação torta reclamou a Leonor.
Pois, eu queria, mas nunca há tempo… respondeu o pai, envergonhado.
A reunião terminou.
No dia seguinte, lá foi a família inteira ao cemitério. A Leonor só ouvira falar da avó pela boca do pai, em histórias ocas. Até encontrarem o túmulo demorou, tal o matagal que cobria o velho campo de mármore, um dia pinhal. A Leonor levou um ramo de tulipas amarelas e colocou-o numa garrafa cortada. O pai endireitou a vedação, a mãe limpou as ervas.
Pai, a avó diz que és um bom homem, mas que te perdeste no trabalho e no computador e não sobra tempo para nada, nem para mim, disse com doçura.
O pai corou, acenando só, em silêncio.
Diz-lhe que vamos mudar ele passou-lhe a mão pelo cabelo e depois pela fotografia desbotada da avó.
Agora ela está em paz e não voltará a visitar-me, embora eu já tenha saudades, de tão divertida, doce e esperta que era.
É verdade. A tua avó via as pessoas como ninguém. E ela diz mais alguma coisa?
Diz sim. Que a tua dieta da sopa de couve é uma treta. Se queres emagrecer vai ao ginásio. E abrir aquela conta em dólares foi má ideia há que pensar antes de se meter em coisas dessas. E sobre aquele cimento barato que compraste para a base do anexo
Terminei aquele dia a pensar como as palavras da minha avó vinham sempre em boa hora: há conselhos que, mesmo de longe, nunca perdem utilidade. E hoje percebi que por vezes basta ouvir, para mudar tudo e cuidar dos vivos antes que fiquem só lembrança.
