O Ladrão de Enchidos
É impossível não reparar neste gato. Especialmente porque ele anda a furtar na mercearia pequena ali no bairro de Lisboa. E faz isto de tal maneira… que simplesmente não dá para ficar zangado. Pelo contrário.
O dono da loja já espera ansiosamente sempre pelo início da cena, que acaba por filmar no telemóvel. Depois, à noite, mostra à esposa e os dois fartam-se de rir. Pois bem, cá vai.
O bichano senta-se durante horas à porta aberta, fingindo que só está ali a apanhar sol, nada de especial. Olha em volta, a ver se ninguém está a ver. O dono esconde-se atrás do grande frigorífico, que é de onde grava tudo.
Com o caminho livre, o gato entra devagarinho e segue diretamente para a prateleira dos enchidos. Aí ganha velocidade, agarra uma salsicha ou uma alheira, e foge imediatamente mas…
A fome é mais forte: não vai longe. Dois metros depois, já está sentado a deliciar-se com o produto do roubo.
O dono vem cá fora e, sem se aproximar, pergunta:
Está bom, é?
O gato levanta a cabeça e mia de acordo.
Ainda bem. responde o homem. Volta sempre.
Aposto que se está a perguntar… Como é possível?
Os enchidos ficam numa prateleira, à temperatura ambiente, pouco visível, dispostos em pedacinhos e em separado. É simples.
O dono da mercearia, António Monteiro, tem um coração de ouro.
Decidiu alimentar o gato desta forma porque o animal apareceu um dia magro, esfomeado, um esqueleto… mas recusava por completo aproximar-se de pessoas ou aceitar comida diretamente da mão do dono. Então António teve uma ideia.
Começou por pôr salsichas mesmo à entrada. Chamou o ladrão de Fidalgo. Para que Fidalgo pudesse conquistá-las sozinho. Honestamente roubadas.
E eis que resultou. Aos poucos, António foi pondo os enchidos cada vez mais dentro da loja, até chegar à prateleira das mercearias, na prateleira mais baixa quase ao nível do chão.
E assim se criou o posto de alimentação.
Fidalgo poderia, hoje em dia, simplesmente entrar, escolher o petisco e ir embora. Mas…
A verdade, senhoras e senhores, está no ritual. Porque o roubado tem outro sabor!
Mais tarde, António colocou mesmo ao lado da loja uma taça de água, uma grande tigela de comida para gato de marca e uma caixa de areia. Montou também uma pequena casota com manta quente ali perto.
Fidalgo continuava cauteloso e não se deixava apanhar ao colo, mas era conversador.
António ia sempre atrás do enxerto roubado e tentava dialogar.
Fidalgo, durante a refeição, ora olhava, ora respondia ao seu jeito.
Há pouco tempo, porém, António começou a matutar num detalhe.
Fidalgo estava muito mais gordinho e saudável, já não precisava de salsichas para sobreviver. Apesar disso…
Continuava a roubar duas vezes por dia e escapava-se para trás do edifício.
António tentou vezes sem conta descobrir para onde Fidalgo ia, mas o malandro era ágil.
Resolveu então comprar uma pequena câmara com bom alcance, que transmitia para o computador no escritório da loja.
E foi assim que, numa noite, descobriu o segredo de Fidalgo.
De uma janelinha da cave ao lado, saltou um gatinho laranja, impaciente, que se atirou logo à salsicha trazida por Fidalgo.
Amanhã, ouviste? Amanhã trazes os dois cá para casa! gritava Maria Amália, a esposa, entre lágrimas e sorrisos, mas…
Não era tarefa fácil. Fidalgo, agora adormecido frequentemente no meio da loja, até era simples de apanhar. Mas o gatinho… impossível.
E os dias passaram. António, pela câmara, via o pequeno laranja a beber água na tigela do Fidalgo ou a descansar na casota, mas…
Se alguém se aproximava, ele fugia veloz como um foguete.
Tudo mudou num certo dia.
António ouviu um barulho estranho junto à entrada da loja.
Não havia clientes.
Ao ir espreitar, deparou-se com o gatinho laranja, a miar aflito no degrau da porta.
Que foi, pequenino?
O gato aproximou-se, fitou-o nos olhos e virou-se. António seguiu-o sem hesitar.
Atrás do prédio, estava Fidalgo, a gemer. Uma mordida de cão ferira-lhe a pata traseira. Mesmo assim, conseguiu escapar, apesar do ferimento fundo.
O pequeno laranja encostou a cabeça à barriga de Fidalgo e voltou a miar alto.
Ai, Nossa Senhora…
António tirou o casaco, aconchegou Fidalgo nele, apanhou o miúdo mansinho pela primeira vez e pô-lo no bolso. Fechou a loja, enfiou tudo no carro.
Horas no veterinário. Cinco delas, enquanto tratavam Fidalgo e lhe cosiam a ferida.
E foi ali que António fez amizade com o laranjinha.
Batizou-o de Brilho. Um pequeno, alegre, brincalhão e muito tagarela.
Ao fim do dia, António fechou a mercearia, levou para casa o Fidalgo ainda meio anestesiado e o Brilho.
Maria Amália não podia estar mais feliz. E o que faz uma portuguesa radiante?
Claro… Telefona às amigas! Isso demora, exige explicação e muitos conselhos.
Depois de tudo, António, Fidalgo e Brilho dormem estendidos na cama.
Bonito serviço… comenta Maria Amália. Agora, onde é que eu me deito?
Brilho logo se encosta a ela, ronrona e começa a amassar-lhe o peito com as patinhas.
E foi assim que encontraram o seu lar.
Agora, dois gatos grandes, bem tratados e tranquilos, nem lembram os vadios de outros tempos.
Por vezes, Fidalgo ainda lambe Brilho, à maneira antiga. E Brilho adora.
Do outro lado da rua, junto à sapataria, vive uma pequena gata cinzenta. A funcionária vem sempre à mercearia de António comprar-lhe mimos.
Talvez um dia, também a leve para casa.
Talvez um dia…
Alguém os leve a todos.
E os gatos se tornem tão raros, que passem a ser entregues só contra lista de espera e curso de preparação obrigatório!
Que acham?
Será possível?
António Monteiro
Foto retirada da internet.
