Nunca amei a minha esposa, apesar de já lho ter dito centenas de vezes. Ela não teve culpa disso tivemos uma vida tranquila juntos. Nunca houve discussões ou cobranças ela era bondosa e doce. Só havia um problema entre nós: não existia amor. Os utensílios de cozinha e de mesa estavam sempre impecáveis.
Todos os dias, deitava-me e acordava a pensar em deixá-la, em finalmente encontrar aquela mulher por quem pudesse sentir paixão.
Mas será que conseguiria? Ao lado da Leonor sentia-me confortável. Além de ser uma excelente dona de casa, a minha mulher era realmente bonita. Todos os meus amigos ainda hoje me invejam e não entendem como tive tanta sorte. Eu próprio não sei bem como foi que esta mulher se apaixonou por mim.
Sou apenas um homem simples, igual a tantos outros. Mas ela ama-me verdadeiramente. É curioso.
O amor e dedicação dela não me davam descanso. E ainda mais a beleza da Leonor. Sabia perfeitamente: mal saísse desta casa e rompesse todos os laços, logo surgiria outro candidato para conquistar o coração dela alguém mais rico, mais bonito, mais bem-sucedido.
Só de imaginar outro homem a abraçá-la, quase enlouquecia. Leonor era minha, apesar de nunca ter sentido nada por ela nem nunca senti. Casei-me com ela porque me agradava ter ao meu lado uma mulher tão bonita.
Mas será possível viver para sempre sem amar verdadeiramente alguém? Achei que conseguiria, mas enganei-me. Entre a cozinha e a sala de jantar, pensava nisto.
Tenho de lhe falar amanhã, decidi antes de adormecer.
De manhã, durante o pequeno-almoço, ganhei coragem para uma conversa sincera:
Leonor, senta-te. Preciso de te dizer algo.
Estou a ouvir, meu querido.
Imagina que nós os dois nos separamos, cada um a ir para o seu canto de Lisboa.
Leonor riu-se:
Que ideia estranha É algum tipo de jogo?
Ouve até ao fim. Isto é importante para nós.
Está bem, já imaginei.
Diz-me a verdade: se eu sair de casa, irás encontrar outra pessoa?
Tiago, o que se passa contigo? Porque é que hás de sair de casa?
Porque não te amo, nunca te amei.
O quê? Estás a brincar? Não estou a perceber
Quero deixar-te, mas não consigo suportar a ideia de te ver com outro.
Nessa altura, Leonor ficou calada durante alguns minutos, a pensar, e depois disse:
Melhor que tu não encontrarei, por isso podes ir sem medo, que não estarei com mais ninguém além de ti.
Prometes?
Claro, prometo garantiu Leonor.
E eu, afinal, para onde vou?
E não tens para onde ir?
Não, estivemos sempre juntos. Talvez o melhor seja mesmo ficarmos juntos até ao fim disse eu, já resignado.
Não te preocupes. Quando nos separarmos, dividimos o apartamento em dois T1.
Sério? Não esperava que me ajudasses assim. Porquê?
Porque te amo, Tiago. E quando se ama alguém, não se pode obrigá-la a ficar ao nosso lado.
Alguns meses passaram e acabámos mesmo por nos separar. Semanas depois, fiquei a saber que Leonor não cumpriu a promessa; arranjou outro homem e nunca quis realmente dividir o apartamento a casa era dela, herdada da avó.
Fiquei sem nada sozinho, como um penedo. Como confiar nas pessoas depois disto? Não sei
Por vezes damos valor apenas ao que podemos perder, esquecendo aquilo que já não sentimos. E só quando ficamos sós percebemos que a honestidade consigo próprio e com os outros devia ser o primeiro passo no caminho da felicidade.
