Quem é? respondeu a avó Maria Ferreira, ao lado de Miguel, enquanto subiam ao alpendre e fitavam o inesperado visitante. Sou a avó Maria! Sou a neta, melhor, a bisnetinha dela. Sou a filha de Alexandre o primogênito de Maria Ferreira.
Maria Ferreira repousava numa cadeira banhada pela luz dourada da manhã, saboreando os primeiros dias quentes da primavera que, para ela, surgia como um milagre. Só o destino sabia como sobrevivera ao inverno rigoroso que a vida lhe impôs.
Já não aguento mais um inverno! murmurou, soltando um suspiro de alívio. Não temia mais a partida; ao contrário, esperava aquele momento. A horta já transbordava de feijões. As roupas novas já estavam dobradas.
Nada a prendia ao chão daquele mundo.
***
Um dia, sua casa era um verdadeiro arraial: o marido, Félix António, homem alto e forte; quatro filhos Pedro, Rui, Tiago e a pequena Leonor. Viviam em harmonia, ajudandose mutuamente, raramente discutindo. Aos poucos, os filhos foram crescendo e espalhandose como folhas ao vento.
Os dois mais velhos foram para a universidade e depois para cidades diferentes, buscando trabalho. O filho do meio, na escola, tinha notas baixas, mas acabou por fundar um negócio de sucesso que o levou para o estrangeiro, onde acabou por ficar. Leonor, a filha, não ficou na aldeia; voou para Lisboa e, pouco tempo depois, casouse.
No início, as visitas eram frequentes. Cartas, depois chamadas pelo telemóvel, enchiam a casa de sons. Um a um, os netos surgiam; Maria Ferreira arrumava a velha mala surrada e ia visitar os filhos que precisavam de ajuda.
Com o tempo, os netos cresceram e ganharam independência. As chamadas tornaramse raras, os convites, quase inexistentes. O trabalho, as famílias, os filhos crescidos ocupavam todo o espaço. Só o falecimento do patriarca Félix António trouxe alguma movimentação. Todos imaginaram que aquele homem robusto viveria até cem, mas o destino foi outro.
Depois do funeral, cada filho seguiu o seu caminho. Ao princípio, ligaram à mãe, mas logo o silêncio se instalou.
Maria Ferreira tentou ligar sozinha, mas percebeu que já não havia mais quem atendesse ao outro lado. Assim passaramse os últimos dez anos; a cada ano, algum filho lembravase e telefonava, e ela passava a semana inteira sorrindo para si mesma.
Numa tarde, enquanto repousava na cadeira, ouviuse:
Bom dia, tia Maria! exclamou um jovem à porta, sorrindo como se fosse um velho amigo. Não se lembra de mim?
Maria Ferreira apertou os olhos, confusa:
Miguel! O que trazes?
Sim, tia Maria! respondeu o rapaz, entrando no pátio.
Miguel era filho de vizinhos que nunca passavam um dia sem uma refeição à beira da mesa. Maria lembravalo como a criança eternamente faminta. Por compaixão, alimentavao, entregavalhe roupas usadas das crianças e deixavao dormir quando os pais organizavam outra festa.
Os pais de Miguel desapareceram cedo demais. Levaramo para longe, e desde então Maria nunca mais o viu, sentindoo sempre à distância.
Onde estiveste todo esse tempo, Miguel? exclamou a avó, curiosa.
Primeiro num orfanato, depois servi no exército, depois estudava. Agora voltei à minha pequena pátria. Vou levantar a aldeia!
Levantar quê? gesticulou Maria, desdenhando. Todos já se foram.
Nada! Não desaparecerei!
E então começou uma nova vida para Maria Ferreira. Miguel conseguiu trabalho com o maior agricultor da aldeia, o senhor Duarte. Nos seus momentos de folga, reparava a casa velha que herdara dos pais e ajudava Maria nos afazeres. Ela, por sua vez, tratavao como um filho, chamandoo de meu filho e rindo das pequenas travessuras. Viviam juntos durante três anos.
Vou embora, tia Maria disse Miguel um dia, como se pedisse perdão. Duarte está a exigir trabalho sem pagar. Partirei para ganhar dinheiro noutro canto. Não te magoes!
Vai com Deus, Miguel! respondeu Maria, embora o coração apertasse.
Mais uma vez, Maria ficou só. A solidão às vezes lhe trazia lágrimas, mas ela continuava a contar os dias, esperando que o fim chegasse. Ainda assim, algo a mantinha ancorada naquele mundo.
****
Bom dia, tia Maria! ouviuse novamente uma voz familiar. Maria virouse para o portão e reconheceu um rosto conhecido.
Miguel! És tu, mesmo?
Sim, tia Maria! entrou, alto, bem vestido, como se tivesse voltado de uma viagem das estrelas. Estou de volta! De verdade!
Ah, que alegria! exclamou Maria, agitada. Vem, vem, Miguel! Vou preparar um bocado de chá! Já volto!
Um chá é ótimo! respondeu Miguel, rindo. Ainda não cheguei a casa. Não esperava encontrarte aqui, nem trouxe nenhum convite!
Meiohora depois, a avó e Miguel sentavamse à mesa, a beber chá de porcelanas antigas, sem saber o que dizer, mas sentindose completamente felizes.
Já sinto que estou a partir, Miguel secou uma lágrima, a voz embargada.
Não digas isso! brincou o jovem, abanando o ar. Estou aqui, vamos viver juntos, tia Maria! Todos vão invejar! Ganhei dinheiro, vou expandir a nossa fazenda! E tu, ainda aqui?
Senhoras e senhores! Há alguém em casa? interrompeu uma voz juvenil, doce como um sino. Maria olhou pela janela e viu uma moça em um casaco curto, com saltos altos.
Quem é? perguntou a avó, ao lado de Miguel, que já esticava a mão para a visitante.
Sou Violeta, bisneta de Alexandre respondeu a jovem. Vim de Lisboa, mas não me sinto bem na cidade. Quero viver no campo! O avô Alexandre prometeume um lugar aqui por alguns meses, dizendo que assim desapareceria o desejo de voltar. Ele ligou, o pai ligou, eu também, mas nunca alcançámos. Desculpemme! Não serei uma padeira! Tenho dinheiro! E ainda o teu pai e o avô enviaramnos presentes! Vou ficar até ao semestre estudo à distância e depois partirei!
Fica o tempo que quiseres! disse Maria, sorrindo. Só me alegra!
Passouse um mês. Maria observava Violeta, que manejava a enxada como se fosse uma bailarina, e não se parecia nem um pouco à cidade. Com a ajuda de Miguel, Violeta revirou o velho pomar, dividiuo em canteiros, ergueu uma estufa, comprou mudas aos vizinhos e começou a semear tudo com entusiasmo.
Miguel, por sua vez, usou o que ganhara para construir uma fazenda moderna. Contratou operários para reparar o telhado da casa de Maria e, ao invés de uma lareira esfarrapada, instalou aquecimento individual.
Maria irradiava felicidade; o sorriso não deixava o rosto. Já não estava mais sozinha.
De vez em quando, uma sombra de melancolia cruzava o seu semblante ao lembrarse que Violeta logo partiria para a cidade. Já se apegara tanto à bisneta. Mas o tempo voava, e Violeta preparavase para partir.
Como vou ficar aqui sozinha com o jardim? suspirou Maria, embrulhando pastéis para a viagem da neta.
Não te esqueças da água no barril, avó. Miguel rega o jardim! E eu volto para te visitar! sorriu Violeta.
Vais voltar? exultou Maria.
Claro! Não consigo sair daqui! Ameite, avó, de todo o coração. E ainda Miguel propôsme casamento! Um casamento de outono! Onde ir sem marido? Ele é da terra, como eu!
Um ano depois, Maria desfrutava do sol quente ao balançar o carrinho com o bisnetinho a dormir. Violeta e Miguel estavam na fazenda. O esforço conjunto fez a propriedade florescer, trazendo prosperidade a toda a aldeia.
Maria fitou o pequeno que dormia, e pensou:
Ainda não chegou a minha hora! Preciso ainda ajudar os meus filhos!
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