— Você não é da família — exclamou a sogra, recolhendo a carne do prato da nora e jogando‑a de volta na panelaA senhora, ainda furiosa, proclamou que a nora nunca mais teria permissão de tocar nas panelas da casa.

Tu não és da nossa família disse a sogra, devolvendo a carne ao tacho.

Eu ficava parado ao lado do fogão, com o prato na mão ainda coberto de molho de carne de porco à Alentejana que a Dona Rosa Maria acabara de preparar. Os pedaços de carne sumiam no tacho, um a um, como se a sogra fosse a contaros a dedo.

Como assim? perguntei, sem acreditar nos ouvidos.

E o que há de estranho nisso? respondeu a Dona Rosa, secando as mãos no avental e virandose para a nora. Não te aceitamos como filha; foste tu que se insinuaste aqui.

O silêncio na cozinha era tal que se ouvia o borbulhar da sopa. Eu pus o prato na mesa, tirei um fio de cabelo da testa; as mãos tremiam.

Dona Rosa, não percebo. Estamos casados há cinco anos! Temos uma filha

E daí? interrompeu a sogra. A nossa tal Lurdes é só gente da rua. E vais continuar a ser a estranha.

A porta se abriu e entrou o Vítor, o cabelo despenteado, a camisa aberta claramente acordado no sofá depois do turno.

O que se passa aqui? perguntou, olhando para a esposa e para a mãe. Por que gritam?

Não gritamos respondeu a Dona Rosa serenamente. Só estamos a conversar. Estou a explicar à tua mulher como deve comportarse nesta casa.

Vítor franziu o sobrolho e fitoume. Eu estava pálido, com os lábios comprimidos.

Mãe, o que é que disseste?

A verdade. Carne não é para todos. A família é grande e os pedaços escassos.

Senti o peito a apertarse. Eram cinco anos que eu acreditava ser parte da família, cinco anos a tentar agradar a sogra, a aturar as suas críticas e a esperar que tudo melhorasse.

Vítor, vou para a casa da minha mãe murmurei ao marido. Para a minha mãe.

Vai para casa? exclamou a Dona Rosa. A tua casa está aqui agora. Pensas que podes ir e vir quando quiseres?

Mãe, basta disse Vítor, aproximandose. O que aconteceu?

Eu caleime. Como explicar ao marido que a mãe lhe tinha acabado de dizer que eu não era ninguém? Que até o prato de carne era demasiado para ela?

Vou levar a Lurdes respondi, sem saber bem o que dizer. E depois a levo à minha mãe no fimdesemana.

Por que? indagou a sogra, irritada. A avó está aqui, para que levar a criança a outro lado?

A avó diz que a sua mãe não é da família respondi baixinho. Talvez os netos encontrem um lugar melhor.

Fiz-me à volta e dirigime para a porta. Vítor me segurou pela mão.

Espera, Lurdes! Explica bem o que se passou.

Vireime. O marido olhavame perplexo, enquanto a sogra ficava ao lado do fogão, fingindo mexer a sopa.

Pergunta à tua mãe disse eu. Ela vai contar melhor.

Na sala da criança, a pequena Lurdes brincava com as bonecas. Ao verme, correu ao meu encontro radiante.

Mãezinha! Olha, estou a dar de mamar à Catarina!

Bom trabalho, menina senteime ao seu lado e abraceia. Queres comer?

Quero! A avó disse que hoje há cozido à portuguesa.

Vai ser, minha linda. Só vamos ao casa da avó da senhora Sílvia.

À avó da minha mãe? exclamou Lurdes. Uau! E o papá vem?

Não, o papá fica aqui.

Comecei a juntar as coisas da criança na mala: camisolas, meias, brinquedos tudo o que precisaria para alguns dias. Enquanto dobrava as roupas, Vítor espreitou a porta.

Lurdes, que é isto? Ir ao berçário por causa de uma bobagem?

Berçário? eu endireitei e olhei para ele. A tua mãe disse que eu não sou da família! Tiroume a comida! Isso é um absurdo?

Ela só falou o que sentiu! Sabes que a mãe tem o temperamento quente. Amanhã já se esquece.

Eu não vou esquecer, Vítor! Não é a primeira vez.

Deixalá! A mãe está cansada. No trabalho tem problemas, e ela acabou por desabar.

Rimos, mas o riso ficou amargo.

Cansada, sim. Cinco anos a cansarse! E tudo recai sobre mim.

Não lhe deem ouvidos!

Ignorar que me chamam de estranha na minha própria casa? Tu ouves o que dizes?

Vítor passeou pela sala, esfregandose a nuca, o gesto de quem não sabe o que dizer.

Lurdes, para onde vais? Somos família. Temos uma filha.

Por isso vou embora. Não quero que a Lurdes ouça me humilharem!

Quem te humilha? A mãe apenas deu a sua opinião.

Opinião? eu parei de arrumar as roupas e olheio. Ela tomoume a comida! Disse que eu era estrangeira! Isso é opinião?

Bem talvez tenha sido dura. Mas sabes que a mãe passou a vida inteira a sustentar a família sozinha. O pai morreu cedo; ela criounos a mim e ao meu irmão. Está habituada a controlar tudo.

E agora devo aceitar esse controlo para o resto da vida?

Vítor sentouse à beira da cama e seguroume as mãos.

Lurdes, não brigues comigo. Vou falar com a minha mãe, explicarlhe.

O que vais explicar? Que também sou humana? Que tenho sentimentos?

Sim. Vou dizerlhe para não ser rude.

Eu balancei a cabeça.

Não é só rudeza, Vítor. A tua mãe não me aceita! E tu sabes disso.

A mãe só precisa de tempo

Cinco anos não são tempo suficiente! Quanto mais esperar?

A voz da Dona Rosa ecoou da cozinha:

Vítor! Vai jantar! Tudo vai ficar bem!

Vítor levantouse.

Vamos jantar direito. Depois conversamos.

Não, obrigado. Já não tenho fome.

Ele saiu, mas ouvi a conversa entre ele e a mãe através da porta. As vozes subiam e baixavam, mas não percebi as palavras.

Peguei o telemóvel e disquei a minha mãe.

Mãe? Sou eu. Podemos vir ficar alguns dias?

Claro, filha. O que aconteceu?

Depois conto. Estamos a sair agora.

Perfeito. Fiz caldo verde, há bastante para todos.

Sorri sem querer. A minha mãe sempre dizia há bastante para todos, nunca contava pedaços, nunca fazia distinções.

Lurdes estava entusiasmada com a viagem para a outra avó. No autocarro cantava sobre as bonecas e os planos de amanhã.

Mãe, por que o papá não vem connosco? perguntou a menina quando chegámos à porta.

O papá trabalha, minha querida. Vai chegar mais tarde.

A minha mãe, Sílvia Margarida, recebeunos com um sorriso largo. Era o oposto da Dona Rosa: suave, bondosa, sempre pronta a ajudar.

Que saudade! abraçou a neta. Minha netinha, como cresceu!

Avó, tens novas histórias?

Claro que tenho! Depois do jantar lemos.

À mesa, Sílvia servia o caldo verde em tigelas generosas, dizendo:

Comam, comam mais. Olívia, estás muito magra. Não te dão de comer?

Dáme, mãe. Só não tive apetite.

Agora vai ter. Em casa tudo ajuda.

Olhei à volta: cozinha acolhedora, cortinas xadrez, um velho armário de porcelana, fotos nas paredes. Nenhum aqui me chamava estrangeira.

Depois do jantar, quando Lurdes adormeceu, as duas mulheres sentaramse para o chá.

Contame o que aconteceu pediu a Sílvia, servindo o chá numa chávena.

Eu relatei a briga na cozinha, a carne, as palavras da sogra. Sílvia ouviu em silêncio, balançando a cabeça de vez em quando.

E o Vítor?

Ele foi como sempre. Disse que a mãe está cansada, que devo ignorar.

Entendo mexia o açúcar no chá. E tu, como te sentes?

Cansada. Cinco anos a lutar e ela nunca me aceitou. Sempre há algo a que me agarrar.

Dá exemplos.

Suspirei.

Cozinho diferente, limpo ao contrário, não cuido bem da Lurdes. Quando a Lurdes adoeceu no mês passado, a Dona Rosa disseme que sou uma péssima mãe.

E o Vítor?

Calase. Diz que a mãe preocupase com a neta.

Sílvia colocou a chávena na mesa.

Filha, és feliz neste casamento?

A pergunta pegoume desprevenida. Fiquei a olhar pela janela à noite.

Não sei, mãe. Antes era Agora sintome estranha na própria família.

Por que nunca me disseste antes?

Pensei que iria passar. Que a Dona Rosa se habituaria a mim.

Parece que não se habituou.

Ficámos em silêncio, bebendo chá. Lá fora começava a chover.

Mãe, quando o teu pai faleceu, como foi a receção da avó?

Sílvia sorriu.

A tua avó, a Dona Catarina, recebeume como filha desde o primeiro dia. Dizia: Agora tenho duas filhas. Tratavame melhor que à própria irmã Zélia.

Por quê?

Porque viu que eu amava o filho dela e ele amavame. Quando há amor, há lugar para todos.

Pensei: e o Vítor me ama? De verdade ou apenas por hábito?

O telemóvel vibrou. O nome Vítor aparecia na tela.

Olívia, onde estás? a voz do marido soava preocupada.

Na casa da minha mãe. Já disse.

Quando voltam para casa?

Não sei. Talvez domingo.

Como assim? Amanhã tens trabalho.

Pedi licença, disse que estava doente.

Houve uma pausa.

Olívia, basta isso. Volta a casa. Falemos como se deve.

Sobre o quê? Que a tua mãe não me considera pessoa?

Ela só precisa de tempo.

Cinco anos são pouco! Quanto mais esperar?

A voz da Dona Rosa vinha da cozinha:

Vítor! Vem jantar! Tudo vai ficar bem!

Vítor levantouse.

Vamos, jantar adequadamente. Depois conversamos.

Não, obrigado. Já não sinto fome.

Ele saiu. Eu ouvi a conversa entre ele e a mãe, mas não consegui entender as palavras.

Liguei para a minha mãe.

Mãe? Podemos ficar alguns dias?

Claro, minha filha. O que houve?

Conto depois. Já vamos.

Ótimo. Fiz caldo verde, vai dar para todos.

Sorri novamente. A mãe sempre dizia há bastante para todos, nunca contava os pedaços.

Lurdes estava feliz por ir à outra avó. No autocarro cantava sobre as bonecas e os planos de amanhã.

Mãe, por que o papá não vem connosco? perguntou a menina quando chegámos à porta.

O papá trabalha, minha querida. Vai chegar mais tarde.

A minha mãe, Sílvia Margarida, recebeunos com um sorriso largo. Era o oposto da Dona Rosa: suave, bondosa, sempre pronta a ajudar.

Que saudade! abraçou a neta. Minha netinha, como cresceu!

Avó, tens novas histórias?

Claro que tenho! Depois do jantar lemos.

À mesa, Sílvia servia o caldo verde em tigelas generosas, dizendo:

Comam, comam mais. Olívia, estás muito magra. Não te dão de comer?

Dáme, mãe. Só não tive apetite.

Agora vai ter. Em casa tudo ajuda.

Olhei à volta: cozinha acolhedora, cortinas xadrez, um velho armário de porcelana, fotos nas paredes. Nenhum aqui me chamava estrangeira.

Depois do jantar, quando Lurdes adormeceu, as duas mulheres sentaramse para o chá.

Contame o que aconteceu pediu a Sílvia, servindo o chá numa chávena.

Eu relatei a briga na cozinha, a carne, as palavras da sogra. Sílvia ouviu em silêncio, balançando a cabeça de vez em quando.

E o Vítor?

Ele foi como sempre. Disse que a mãe está cansada, que devo ignorar.

Entendo mexia o açúcar no chá. E tu, como te sentes?

Cansada. Cinco anos a lutar e ela nunca me aceitou. Sempre há algo a que me agarrar.

Dá exemplos.

Suspirei.

Cozinho diferente, limpo ao contrário, não cuido bem da Lurdes. Quando a Lurdes adoeceu no mês passado, a Dona Rosa disseme que sou uma péssima mãe.

E o Vítor?

Calase. Diz que a mãe preocupase com a neta.

Sílvia colocou a chávena na mesa.

Filha, és feliz neste casamento?

A pergunta pegoume desprevenida. Fiquei a olhar pela janela à noite.

Não sei, mãe. Antes era Agora sintome estranha na própria família.

Por que nunca me disseste antes?

Pensei que iria passar. Que a Dona Rosa se habituaria a mim.

Parece que não se habituou.

Ficámos em silêncio, bebendo chá. Lá fora começava a chover.

Mãe, quando o teu pai faleceu, como foi a receção da avó?

Sílvia sorriu.

A tua avó, a Dona Catarina, recebeume como filha desde o primeiro dia. Dizia: Agora tenho duas filhas. Tratavame melhor que à própria irmã Zélia.

Por quê?

Porque viu que eu amava o filho dela e ele amavame. Quando há amor, há lugar para todos.

Pensei: e o Vítor me ama? De verdade ou apenas por hábito?

O telemóvel vibrou. O nome Vítor aparecia na tela.

Olívia, onde estás? a voz do marido soava preocupada.

Na casa da minha mãe. Já disse.

Quando voltam para casa?

Não sei. Talvez domingo.

Como assim? Amanhã tens trabalho.

Pedi licença, disse que estava doente.

Houve uma pausa.

Olívia, basta isso. Volta a casa. Falemos como se deve.

Sobre o quê? Que a tua mãe não me considera pessoa?

Ela só precisa de tempo.

Cinco anos são pouco! Quanto mais esperar?

A voz da Dona Rosa vinha da cozinha:

Vítor! Vem jantar! Tudo vai ficar bem!

Vítor levantouse.

Vamos, jantar adequadamente. Depois conversamos.

Não, obrigado. Já não sinto fome.

Ele saiu. Eu ouvi a conversa entre ele e a mãe, mas não consegui entender as palavras.

Liguei para a minha mãe.

Mãe? Podemos ficar alguns dias?

Claro, minha filha. O que houve?

Conto depois. Já vamos.

Ótimo. Fiz caldo verde, vai dar para todos.

Sorri novamente. A mãe sempre dizia há bastante para todos, nunca contava os pedaços.

Lurdes estava feliz por ir à outra avóE assim, finalmente, encontrei o lugar onde minha voz era ouvida e meu coração, em paz.

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— Você não é da família — exclamou a sogra, recolhendo a carne do prato da nora e jogando‑a de volta na panelaA senhora, ainda furiosa, proclamou que a nora nunca mais teria permissão de tocar nas panelas da casa.