Como é que está dormente? Em que estado se encontra? exclamou a sogra, os olhos arregalados. Está a dormir. Não há nada de grave, a febre é baixa, tudo bem, o inverno acabou de chegar. Mas não é só inverno! É o teu trabalho que te traz tudo de casa! Quantas vezes te digo muda de emprego!
Olívia dormia quando, de repente, ouviu um barulho estrondoso: alguém tinha aberto a porta da entrada. Passou a mão nos olhos e viu o relógio eram oito da manhã.
Óscar, querido, és tu? perguntou, surpresa, ouvindo os ecos do apartamento.
Não houve resposta. Só o som de alguém a abrir a porta do quarto de banho e o silêncio que se seguiu.
Olívia agarrou o roupão e correu descalça para a casa de banho. Ao abrir a porta, ficou boquiaberta.
Óscar estava diante do espelho, esticando os lábios e admirando a língua que lhe pendia para fora.
Olívia, é verdade que quando alguém dorme debaixo da febre a língua fica branca? perguntou ele.
E tu, estás dormente? indagou, ainda sonolenta.
Parece que sim, respondeu Óscar, tocandose a testa preocupado. Preciso do termómetro. Onde está? Deixa-me deitar. Até o trabalho me dispensaram. Acho que preciso de chamar o médico.
Olívia puxou o termómetro. Era 37,2°C. A inverno começou, Óscar deitouse. A médica chegou uma hora depois e entregou o atestado.
Olívia telefonou à mãe:
Poderias buscar o Sérgio na creche? Não pode ficar em casa Óscar está dormente.
A mãe, que vivia sozinha e adorava o neto, respondeu com alegria:
Claro, querido. Como está o Óscar? Algo sério?
Nada de especial. A médica deu o atestado, prescreveu alguns cuidados e vamos descansar.
E tu, como te sentes? perguntou a mãe.
Tudo bem! Ainda tenho o turno da tarde no trabalho, vou pedir à sogra que passe à noite para ver o Óscar. Assim, a segunda troca de turno fica resolvida.
Obrigada, mãe, combinamos.
O que fazer? Preparar uma sopa leve de caldo de galinha, mas para isso precisava passar pela mercearia, além da farmácia. Tirar do congelador as coxas de frango, comprar cenouras e batatas.
Na farmácia, Olívia encheu a sacola com tudo o que precisava. Ao meiodia, acordou o marido.
Óscar, levanta, come a sopa, sacudiuo no ombro.
Óscar, ainda atordoado, sentouse na cama.
Ah, dá-me náuseas! Posso comer a sopa aqui na cama? Não consigo chegar à cozinha.
Está tão mal? Está bem, tragote. Depois mede a temperatura
Comeu a sopa, mediu novamente 37,2°C. Olívia deu-lhe comprimidos. Óscar virouse para a parede e adormeceu outra vez. Graças a Deus.
Para não ficar dormente, o marido recebe o subsídio de doença completo, mas Olívia tem dificuldades nas compras. Na família há créditos, não pode adoecer. Lembrouse então da sogra:
Dona Conceição, Óscar está dormente. Se precisar, vigieo à noite. À tarde temos muitos clientes, não consigo ligar.
Como é que está dormente? Em que estado? exclamou a sogra.
A dormir. A febre é baixa, tudo bem, o inverno chegou.
Mas não é só inverno! É o teu trabalho que trazes tudo da caixa registradora para casa! Quantas vezes te digo muda de emprego!
Dona Conceição, eu não estou fraca! Vocês próprios disseram que Óscar, quando era menino, adormecia num instante. O frio chegou, então não é da minha conta
Para não prolongar a conversa, Olívia silencioua rapidamente. A sogra adorava exagerar, e quem sabe, em meia hora já estaria lá, com caixas cheias de infusões para o neto, dizendo que não faria mal. Deixase observar, dizia, enquanto trocava a camisola do filho por uma seca, gritando:
Olha como ele fica com a camisola molhada, vai piorar ainda mais! Como não viste isso?
Dona Conceição, ele já estava a dormir, que posso fazer?
Olívia foi trabalhar. Algumas horas depois sentiuse fraca. Então também estou fraca!, pensou, mas não podia mostrar fraqueza; precisava cobrir o turno. À noite a temperatura subiu ainda mais, acima da do marido. Quis reclamar a Óscar, mas ele estava absorvido em si mesmo.
Estou a tremer e a sentir frio. A mãe deume chá de zimbro com mel, parecia melhorar, mas à noite voltou a piorar. O que devo tomar?
Sabes, eu também não me sinto bem
Então toma alguma coisa, respondeu Óscar, olhando de novo para a língua no espelho. Ainda está branca.
Não podia dormir debaixo da febre. Não podia queixarse a ninguém; se falasse à mãe, ela ligaria a cada cinco minutos com conselhos; se falasse à sogra, seria acusada; o marido continuava no seu próprio mundo. Decidiram então não reclamar, tomar os comprimidos discretamente e ir ao trabalho. Os créditos não desaparecem.
Durante toda a semana, Óscar se queixava da sua fraqueza, como se não houvesse pessoa mais infeliz; mesmo com o termómetro a mostrar 37°C, ele dizia que se sentia horrível.
A sogra aparecia sempre com os seus preparados e infusões. Olívia desejava menos contato, pois o seu semblante não estava nada agradável. Óscar não percebia nada dormia na televisão, no telemóvel. Quando chegava a casa, Olívia media a temperatura e só no quarto dia tudo estava normal.
A fraqueza existia, mas passou. Óscar ficou deitado mais tempo, exigindo comida na cama, medição da temperatura, e trazerlhe o que fosse necessário. A sogra dizia que ele fora fraco na infância, mas agora era a primeira vez que adoecia nos cinco anos de casamento, e isso era insuportável!
Mesmo com um leve malestar, ele enfrentava o dia a dia, reclamando constantemente.
Na semana seguinte, liberaramo. O neto Sérgio foi recolhido e levado a casa. Amanhã Óscar volta ao trabalho.
Sentado à cozinha, com uma chávena de chá ao fim da tarde, ele contou:
Quando éramos meninos tudo parecia mais fácil, agora é que passei por isto, nem imaginas!
E o que há de especial nisso? Por que não aguentaste?
Ah, se estivesses no meu lugar! Fácil falar quando estás saudável.
Eu também já passei por isso! Também o senti, mas tu nem reparaste.
Óscar lançoulhe um olhar desconfiado e depois sorriu astuto, como se tivesse descoberto o segredo de Olívia:
Brincas, não? Então vamos dormir!
Olívia suspirou tristemente ele realmente não percebeu nada
E assim, como num velho ditado, quem dá à luz só pode compreender plenamente a febre de 37°C que o marido sente.
