Lembrome, como se fosse ontem, dos tempos em que a casa de veraneio de Cascais se transformou num campo de batalha silencioso. Que desordem se instalou aqui? eu, Lurdes, exclamava, irritada Liga para a tua família, que venham pôr ordem nesta bagunça! Não vou ficar a limpar depois dos teus amigos. Já basta eu estar a lavar a roupa de cama todas as noites, depois que eles pernoitam na nossa casa de veraneio.
O meu marido, Sérgio, respondeu durante o jantar: Ouvi a tua mãe chamar; ela e os parentes pretendem ir passar o fim de semana a fazer churrasco.
Ótimo, replicou a esposa, que eles venham. Eu não tenho nada a ver com a sogra, Lurdes.
Eles querem a casa de veraneio, explicou Sérgio não têm outra. Eu tenho de ir ao mecânico no sábado, como se fosse óbvio. Eu disse que não podíamos ir ao fimdesemana; a tua mãe pediu as chaves, então …
Eu não tive alternativa senão aceitar, algo que mais tarde me fez arrependerme. Quando chegámos à casa de veraneio naquele fimdesemana, o cenário era de caos total. As bagas colhidas ainda estavam espalhadas, o chão da casa sujo, uma panela com sopa antiga sozinha no fogão. Uma cortina pendia caída na janela da cozinha. Não conseguia compreender o que se passara; os pais de Sérgio já tinham sessenta e poucos anos.
Despejei tudo ao marido:
Que desordem! gritei novamente. Liga a tua família, que venham pôr ordem! Não vou limpar depois dos teus amigos; já basta eu estar a lavar a roupa de cama. Eles ficaram a dormir aqui e deixaram tudo assim.
Cala a boca, não trabalhes demais. Junta tudo na máquina, tiralhe o pó e penduraas, sugeriu ele.
Da próxima vez faz tudo tu! rebati. Não te parece que a nossa casa de veraneio e o terreno já não se parecem com nada?
Mas ele não fez nenhum telefonema. Eu deixei o assunto de lado e, mais tarde, reconcilieinos. Havíamos casado há apenas dois anos, por amor, embora eu às vezes pensasse que o fizemos apressadamente. Ainda não tínhamos filhos.
A vida seguia o seu ritmo: trabalho, casa, trabalho, casa. Nos fins de semana, passeávamos ou íamos ao campo com amigos. Tudo mudou quando a mãe de Lurdes, de repente, casouse e mudouse para outra cidade; a casa de veraneio acabou por ficar a meu nome.
De repente, toda a família de Sérgio começou a adorarme. Cada um pedia permissão para visitar a casa de veraneio; todos sabiam que o churrasco ao ar livre era mais saboroso. Tios, primos, avós e até a avó do marido surgiam do nada, trazendo famílias inteiras, sacos de carvão e panelas. Também chegavam os amigos do Sérgio.
Todos ficavam a pernoitar. Sérgio, como sempre, cuidava da grelha. Comecei a estar farta, mas não queria estragar a relação com a família e os amigos dele. Precisava fazer algo.
Quando se aproximavam os fins de semana, eu já os esperava com ansiedade. Quando Lurdes e Sérgio casaram, a mãe dele já era idosa; tinha tido um filho tarde na vida, e ainda havia uma irmã, Maria, dez anos mais velha que ele, que vivia no interior e acreditava que tudo era de uso comum.
Maria e a sogra de Sérgio levavam tudo para a casa de veraneio cremes, champôs, esponjas e até os chinelos que eu usava. De novo, a sogra telefonou pedindo as chaves. Desta vez, Maria queria levar a sua chefe para um fim de semana de lazer e churrasco. E, claro, eu não fui consultada.
Vamos dar as chaves à tua mãe, disse Sérgio, lembrandose da minha reação à visita anterior, mas sem querer falar sobre isso.
Percebi que precisava agir; o marido ficou do outro lado. Pensando em todas as opções, liguei para a minha mãe e reclamei.
Ligo de volta, respondeu ela brevemente.
Cerca de vinte minutos depois, telefonei novamente e contei que a minha irmã, Ana, viria com o marido para passar algum tempo na casa. Não te preocupes, a tia Olívia ajudate.
Fiquei pasma ao ouvir o nome da tia Olívia. Na infância, fui enviada várias vezes a ficar na casa da tia durante o verão; aquelas memórias ficaram gravadas. Olívia era conhecida por ser rígida, mas também por saber educar.
À noite, a tia Olívia ligou:
Pois, minha sobrinha, como está? Faz tempo que não falamos. Como devo comportarme? Um pouco de autoridade ou algo mais drástico? riuse, já a imaginar a situação.
Eu tremi.
Disseramte que a casa era tua? questionou a tia.
Não me lembro, mas eles acham que é minha.
Não te preocupes, querida, vamos resolver isto da melhor forma.
No domingo, a sogra, Gisela, apareceu irritada.
Vendeste a casa de veraneio? bradou. Onde está o dinheiro? Por que não nos avisaram?
Descobri então que, no sábado, Maria e a chefe dela, juntamente com a sogra e o marido de Sérgio, chegaram à casa. No terreno, um grupo de cinco pessoas já estava a assar churrasco.
Quem são vocês? exclamou Gisela, perplexa.
E vocês, quem são? perguntou a mulher que se apresentava como proprietária da casa, com voz autoritária. Sou a dona da casa, não vos conheço. Como entraram? Onde estão as chaves?
A confusão tomou conta da família da sogra. Maria tentou explicar que tinham recebido as chaves por laços familiares, mas a dona da casa ficou furiosa e Maria ficou sem saber o que dizer. Gisela, por precaução, ficou calada.
No fim, tiraramlhe as chaves, pediram educadamente que fossem embora e não voltassem, ameaçando averiguar de onde vieram aquelas chaves estranhas.
Eu, à distância, ouvi a sogra a bradar ao telefone. O marido não percebia nada, nem sabia o que dizer.
Dá o telefone à esposa, disse Sérgio, passando o aparelho a mim. Esta casa não é tua! proclamou a sogra solenemente.
Mas vocês nunca perguntaram! tentei dizer calmamente. Acham que tudo à volta é vosso e também nosso.
Sabes que a Maria trouxe a chefia dela? Se ela for despedida, será culpa tua, acusou Gisela.
E eu quê? respondi, tentando ser firme. A tia Olívia é a anfitriã, veio descansar aqui, e ninguém nos perguntou. Comprem outra casa e sejam felizes.
Depois disso, não irei mais lá, nem a minha família, tremia o marido.
Foi a primeira grande briga entre nós. Sérgio ficou magoado; a Maria foi despedida.
Nunca te perdoarei, disse ele. A minha família tem amor por ti, mas tu enganastenos.
Eu sabia que a demissão da Maria tinha outro motivo. De repente percebi que não sentia pena de ninguém. E não era a primeira vez que algo assim acontecia; o nosso casamento estava num beco sem saída.
Mãe, acho que vou divorciarme, confessei.
Decida o que quiseres, já és maior. Onde vais viver? O meu apartamento está livre, vai para a Olívia.
Obrigada, respondi, inesperada. Vou ter de arrendar um apartamento.
Acabei por pedir o divórcio, arrendei um apartamento e deixei o marido. Não volto mais à casa de veraneio.
Assim se encerra a memória de um capítulo que, embora marcado por desentendimentos e por chaves perdidas, ainda me ensina que, às vezes, o melhor caminho é abrir novas portas, mesmo que ao custo de fechar outras.
