«7 de julho! Isto não pode ser! Só coincidência. Mas também o nome André.

7 de julho Não dá para acreditar. O dia, a coincidência, o nome Tudo parece um eco de um passado que eu tentei enterrar.

Passei longos minutos encarando o retrato do homem na parede da Câmara Municipal, como se esperasse reconhecer algum traço familiar. O que eu vi foi apenas um rosto desconhecido, porém o nome escrito ao lado fez meu coração acelerar: **André Borges**, nascido em 1983.

Hoje de manhã, na secretaria da Câmara, recebi a chamada da minha chefe:

**Inês Silva**, entre na minha sala! Temos a nova funcionária aqui.

Logo cheguei ao gabinete e a senhora, já avançada em anos, me recebeu com um sorriso firme:

Você é a nova empregada de limpeza?

Sim.

Eu sou a chefe de limpeza, chamamme de **Inês Silva**, apresentouse, ainda curiosa. E você?

**Vera**, respondi, correndo atrás da pergunta que pairava nos olhos dela. **Vera Almeida**.

Venha comigo, vou lhe mostrar o seu posto de trabalho, disse Inês, saindo do gabinete enquanto continuávamos a conversar. Você ficará no terceiro andar.

***

Fiquei aliviada ao descobrir o novo emprego. Enquanto observava o pequeno escritório que agora seria meu, pensei:

Faltam dois anos para a reforma da minha pensão. Ainda dá para trabalhar depois da aposentadoria. O salário é de **800 euros** por mês, com alguns bónus. Com o **Duarte** vamos viver bem. Os filhos já se foram de casa. Nem me lembro como se chama o nosso presidente da Câmara! Que vergonha se eu for perguntada. Já já é hora do almoço. No primeiro andar tem um mural com fotos de todos os presidentes da Câmara. Como pude não notar antes?

Ao sair da cantina, passei por um painel informativo e li novamente a frase que me tirou o sono:

**André Borges**, nascido em **7 de julho de 1983**.

Ah, então ele ainda é jovem, não chega nem a quarenta, pensei, mas então me lembrei de algo que há muito eu mantinha em silêncio. André? 1983?

Voltei ao retrato, li a data e o nome, e a coincidência ficou ainda mais clara:

> 7 de julho! Não pode ser! Só coincidência. Mas o nome André O patronímico e o sobrenome são diferentes. Será que quem adota pode mudar também o nome?

Fiquei parada, observando o quadro como se esperasse que ele de algum modo falasse comigo.

O trabalho começou a ocupar minha mente, afastando os pensamentos estranhos que surgiam de vez em quando. Em casa, passei a noite conversando com o meu marido. Depois ele foi assistir ao futebol na sua sala e eu fui para a minha. Nosso apartamento tem três quartos, e agora que os filhos já se foram, o espaço parece mais vazio. Ele ainda dorme comigo, mas cada vez menos.

Agora, deitada no meu quarto, os pensamentos giram como um carrossel: a juventude que se foi, o segredo que nunca contei ao meu marido. Eu tive um filho quando tinha apenas dezenove anos. Chameio **André**. Naquela época, não tinha dinheiro nem trabalho; vivia num dormitório da escola profissional, impossível de criar um bebé ali. Consegui cuidar dele por apenas seis meses antes de entregálo ao orfanato.

Três anos depois caseime com o **Duarte**. Nunca falamos sobre o que aconteceu antes do casamento. Tivemos duas filhas. A mais velha foi para a universidade no centro da região e casouse lá; os netos já frequentam a escola. A outra também casouse e agora vive em Lisboa.

Eu nunca consegui uma profissão qualificada. Passei os últimos vinte anos como chefe de limpeza num setor de uma fábrica que, recentemente, faliu e deunos a todos a despedida. Foi então que a filha da minha amiga me ofereceu este trabalho na Câmara. Aceitei.

Agora o **presidente da Câmara, André Borges**, nasceu em 1983. Não, não me lamento. Mas todo esse tempo lembrome do filho que tive. Ele aparece nos meus sonhos algumas noites, e eu só quero ter certeza de que ele está bem.

Alguns dias depois, enquanto limpava o meu andar, ouvi vozes e vi o **presidente André Borges** falando animadamente com alguns colegas. Ele me reconheceu, acenou e passou ao lado, sem parar a conversa.

Nesse instante, o rosto de **Vítor**, o rapaz por quem me apaixonei quarenta anos atrás, surgiu na minha mente. Ele era bonito, alegre, e eu sempre quis vêlo sério, como um homem de negócios. Agora percebo que, na juventude, foi exatamente assim que eu imaginava o nosso futuro. Mas Vítor acabou por partir quando soube que eu engravidava, dizendo que iria emigrar em busca de dinheiro. Eu esperei, mas acabou por fugir.

*Será que André Borges é de fato o meu filho?*
Se eu não o tivesse entregue ao orfanato, seria outra pessoa. Minhas filhas são bemsucedidas; a mais velha tem um apartamento grande, um carro; a mais nova também está bem. É só o filho que falta.

Se eu tivesse casado com o Duarte, tudo seria diferente: a vida dele, a minha e a de André. Ou talvez André simplesmente não seja meu. Existem coincidências incríveis? Talvez não importe. Ele tem pais que o criaram desde que tinha seis meses; talvez nunca tenham dito a verdade sobre a sua origem. Ele cresceu feliz, e não é todo dia que um rapaz simples chega a ser presidente da Câmara.

Depois do almoço, a colega mais nova, **Olga**, aproximouse de mim:

Olá, tia Vera!

Olá!

Na sextafeira vamos celebrar o aniversário da Lúcia. Ela limpa o quinto andar e faz 45 anos. Você vem?

Claro! sorri eu.

Então, são **20 euros**. Traga algo original, um salgado ou algo assim.

Tudo bem, puxei a carteira e entreguei os 20 euros.

Olá, Olga, pode me chamar de Vera, tá? Somos colegas, afinal.

Sim, Vera!

Na sextafeira, depois do trabalho, juntámonos no sétimo andar. Um dos escritórios estava vazio, então preparamos a mesa. Como de costume, cada um fez um brinde, tomando um gole de vinho tinto.

De repente, a porta abriuse e entrou **André Borges**. Sorriu e entregou uma caixinha:

Lúcia, parabéns! Um pequeno presente.

Lúcia ficou com lágrimas nos olhos. O presidente, então, sentouse ao nosso lado.

André, pode ficar conosco um pouco? sugeriu a chefe de limpeza.

Só um pouco, aceitou e sentouse ao meu lado.

Coloquei a salada e as fatias de enchido na sua tigela, enchemos os copos de vinho e ele fez um brinde. Enquanto eu olhava para ele, sentia todo o meu ser tremer. Finalmente, a certeza: o homem à minha frente era o meu filho.

André ficou cerca de vinte minutos, despediuse e saiu.

Que pessoa incrível! exclamou **Carla**, a veterana da Câmara. O expresidente ainda não acreditava que poderia sentarse à mesa com a gente.

Ele está aqui há quanto tempo? perguntei.

Um ano. Lembrase de que o elegemos no ano passado?

Confessei que não lembrava; sempre deixava o marido decidir tudo. Carla continuou:

Os pais dele são ricos, influentes e dizem que não são os seus verdadeiros pais.

Sério? ficou surpresa a nossa colega **Lúcia**.

Descobriram isso há dois anos, quando ele começou a preparar a campanha eleitoral. Ele nem sabia. O mais curioso é que ele não reagiu.

De onde tiras tudo isso? perguntei.

A deputada **Olga Pereira** era a vicepresidente do antigo presidente. Ela juntou tudo sobre André para garantir que o seu chefe permanecesse no cargo. Mas acabou por não ser eleito.

Ele realmente não sabe quem são os seus verdadeiros pais? insisti.

Parece que não. Ele ama aqueles que o criaram. Nosso presidente, em tudo, é um homem íntegro.

Fiquei a observar a porta da sala onde André estava sentado. Dentro, sentia-me ao mesmo tempo alegre e triste. Alegre por saber que o filho está bem; triste por nunca poder abraçar o filho que perdi. A culpa é minha, reconheço. Um sorriso surgiu no meu rosto e, em pensamento, murmurei:

> Não te incomodarei, filho. Sempre estarei aqui, de longe.

Assim termina meu dia, cheio de memórias, coincidências e de uma esperança silenciosa que talvez, um dia, nos reúna novamente.

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