A manhã começou como de costume. Lá fora ainda não clareava, mas já se ouvia o murmúrio abafado da cidade que despertava do sono. Abri os olhos, espreguicei-me e olhei para o marido ao meu lado o Tiago. Ele estava deitado de costas, a mão pendendo da cama, o rosto relaxado como o de uma criança. Nesses minutos eu tentava não pensar nas últimas discussões, no jeito distante que ele tinha assumido, nas chegadas tardias do trabalho com aquele clássico tudo bem, só tenho muita coisa para fazer. Queria acreditar nele. Queria que tudo estivesse bem.
Bom dia, sussurrei, tocando o ombro dele.
Ele sobressaltouse, abriu os olhos.
Já? murmurou, bocejando. Levantaste cedo.
Preciso de café, sorri. E, se quiseres, tomamos o pequenoalmoço juntos?
Claro, assentiu, levantandose. Eu próprio faço.
Sorri. Era um gesto raro de cuidado da parte dele. Ultimamente quase não ajudava nas tarefas de casa; eu já estava a achar que ele só estava cansado. Mas naquela manhã ele parecia diferente. Muito atento. Muito dedicado.
Fui ao banho e, quando voltei, o aroma de café fresco já pairava na cozinha. Tiago estava ao balcão, derramando o líquido escuro nas chávenas. Numa a minha favorita de porcelana azul com flores ele serviu, e na outra, com uma fissura na alça (aquela que a minha sogra, a Manuela Ribeiro, nunca deixa de usar), ficou vazia.
Preparei à tua maneira, disse ele, entregando-me a chávena. Como gostas: com uma gota de leite e canela.
Obrigada, sorri, mas naquele instante o meu nariz captou um cheiro estranho. Não era café. Algo pungente, químico com um toque de amêndoa amarga.
Franzi o sobrolho.
O que será esse cheiro? Vem do café?
Tiago deu uma olhadela rápida à chávena.
Não sei. Pode ser um novo moído? Ou talvez o leite esteja estragado?
Cheirei de novo. Amêndoa amarga. Conhecia aquele perfume. Quando era pequena, a avó dizia: cheira a amêndoa amarga? É potássio cianeto. Não acreditei na altura, mas depois li no livro de química. O cianeto tem aquele cheiro característico e é mortal.
O coração disparou.
Tiago, tem a certeza que não trocaste nada? perguntei o mais calmo que consegui. Sou alérgica a algumas substâncias. Melhor mudar de chávena?
Ele ficou imóvel por um segundo. Depois, sorrindo.
Deixa, é só café. Beba antes que esfrie.
Acenei, mas naquele instante ouvi passos no corredor. Saía da passagem a sogra Manuela Ribeiro. Uma mulher rígida, olhar frio e hábito de notar tudo. Nunca nos chegámos a entender. Ela achava que eu não era à altura do filho, que eu era simples demais, que na sua família não se aceita gente como eu.
Bom dia, disse ela, secamente, aproximandose da mesa.
Boa, mãe, Tiago beijoua na bochecha. Fiz o café. Aqui está a tua chávena.
Ele entregoua a chávena vazia com a fissura.
Onde está o meu café? ela perguntou, franzindo a testa.
Já vou trazer, respondeu Tiago, dirigindose à cafeteira.
Foi então que ela fez o que acabou por salvar a minha vida.
Levantouse rapidamente, pegou a minha chávena cheia e disse:
Espera aí.
Olhoume com ódio.
Tiago ficou imóvel. Os olhos alargaramse por um momento. Olhou para mim e, naquele olhar, vi algo terrível. Não era medo, nem irritação. Era desapontamento.
Que é que estás a fazer? gritou a sogra, bebendo da minha chávena. Serve o café, não fiques como um idiota.
Tiago finalmente despejou o café na chávena vazia.
Senteime. O coração ainda a mil. Não conseguia desviar o olhar da chávena que agora repousava perante a sogra. A mesma, com o perfume de amêndoa amarga.
Estranho, resmungou ela. Mas pode beber.
Observei Tiago. Sentado, cabeça baixa, cutucando o prato de omelete com o garfo. Nenhuma palavra. Nenhum olhar. Nenhum sorriso.
Dez minutos depois a sogra fez uma careta.
Acho que o estômago não me aguenta resmungou. A cabeça está a girar.
Está bem? perguntei, tentando não parecer alarmista.
Sim, só um pouco ela colocou a chávena na mesa. Parece que que estou a asfixiarme.
Levantouse, mas cambaleou. Tiago agarroua.
Mãe! O que se passa?
Tu tu ela olhou para ele, os olhos arregalados. Tu querias mim
E caiu ao chão.
Gritei. Tiago correua em direção à porta, chamou a ambulância e sacudiua pelos ombros. Eu ficava ali, atordoada. Tudo acontecia demasiado rápido. Mas uma coisa ficou clara: ele queria matarme. E a sogra acabou por ser a vítima em vez de mim.
Vinte minutos depois a ambulância chegou. Os médicos examinaram Manuela Ribeiro. Um deles cheirou a chávena.
Tem envenenamento por cianeto de potássio, disse. Concentração muito alta. Está em coma. Poucas hipóteses.
Tiago estava pálido, tremendo.
Não sei como isto aconteceu Só fiz o café
Onde guardam o café? perguntou o médico.
No armário mas é novo, comprei ontem
Mostremme.
Fomos à cozinha. O médico abriu a lata. Cheirou.
Não há cianeto aqui. Portanto alguém introduziuo na chávena ou na água.
A polícia chegou meia hora depois. Começou o interrogatório.
És a última pessoa a tocar na chávena, disse o investigador, encarando Tiago. E foste tu a servir o café.
Não fiz nada de errado! exclamou. Amo a minha mãe!
E a esposa? virouse para mim.
Fiquei calada.
Depois, quando levaram Tiago para o interrogatório, eu fiquei sozinha na casa. Na cozinha, a mesma chávena ainda estava ali. Aproximandome, notei uma fina película esbranquiçada no fundo. Não a lavei. Coloqueia num saco e guardei no armário.
Três dias depois a sogra morreu. Os médicos declararama incompatível com a vida. O cianeto destruiu as células cerebrais em minutos.
No funeral, Tiago estava pálido, os olhos inchados. Tentava manter a postura, como se fosse ele o culpado. Mas nos seus olhos eu não via dor. Via alívio.
Depois do funeral, aproximouse de mim.
Olha, disse, sei o que pensas. Mas eu não matei a minha mãe. Eu queria ele fez uma pausa, depois sussurrou: Eu queria matarte.
Não me surpreendi. Apenas assenti.
Por quê?
Porque sabes tudo, respondeu. Sabes do dinheiro. Da apólice. Que estou nas dívidas. Que joguei no casino e perdi tudo. E que, se saíres, levas metade do apartamento. Se morreres, recebo a apólice. meio milhão de euros. Bastava para recomeçar.
E a mãe?
Ela começou a suspeitar. Lêa as minhas mensagens. Amename de contar tudo. Queria livrarme de ti mas não contava que a mãe fosse beber o café.
Olhei para ele. Para o homem com quem vivi cinco anos. Por quem amei. Por quem sonhei, confiei.
Matariasme, disse.
Sim, respondeu. Mataria. Mas não queria que a mãe
Vai, disse. Sai da minha casa. Não voltes nunca mais.
Ele saiu. Fechei a porta. Liguei para o advogado. Pedi o divórcio. Entreguei a chávena à polícia. A perícia confirmou: traços de cianeto de potássio. Impressões digitais só as minhas e as do Tiago.
Um mês depois prenderamo. O julgamento durou três semanas. Ele não negou que queria matarme, mas alegou não ter planeado a morte da mãe. O tribunal considerou isso uma atenuante. Sentença: quinze anos de regime fechado.
Mudeime para outra cidade. Arrumei um pequeno apartamento à beira do lago. Comprei uma máquina de café. Agora faço eu a minha própria bebida. Só natural. Sem canela. Sem leite. E antes de beber, checo bem o perfume.
Porque amêndoa amarga não é só um cheiro. É um aviso. É a voz do instinto que diz: Cuidado. Há morte aqui.
Não tenho medo. Torneime cautelosa.
Às vezes, à noite, sonho com a sogra. Ela está à porta, segurando uma chávena e a olha. Não com ódio, mas com pena. Sussurra:
Deverias ter ido embora antes.
Acordo suada. Levantome. Vou à cozinha. Bebo água. Olho pela janela. Só escuridão. E silêncio.
Mas sei que, do outro lado desse silêncio, há gente que sorri à mesa, diz amote, mas pensa: Como seria se desaparecesses.
Continuo a viver. Respiro. Olho para o futuro.
Mas nunca esquecerei a manhã em que o cheiro de amêndoa amarga salvoume a vida.
Epilógo
Já passaram dois anos.
Abri uma pequena cafetaria à beira do lago. Chamoa Amêndoa. Na porta há um letreiro: Café com alma. Sem amargor.
Os clientes perguntam por que esse nome.
Sorrio.
Porque gosto de amêndoas, respondo.
E sirvolhe uma chávena de café recémfeito.
Sem cheiro estranho.
Sem medo.
Com esperança.
Mas se alguém me oferecer café que eu não tenha preparado, recuso sempre.
Porque uma vez já escolhi a chávena certa.
E isso salvoume a vida.
