Olha, ouve só isto que me aconteceu estes dias…
O António foi atender o último pedido do dia era para trocar a torneira da casa de banho de uma senhora já de idade.
Já estava a pensar que finalmente ia para casa quando, do trabalho, lhe ligaram a pedir, por favor, que passasse antes noutro sítio havia uma torneira da cozinha toda desregulada.
O António trabalhava há cerca de seis meses numa empresa pequenina que fazia um pouco de tudo: canalizações, limpezas, pequenas reparações…
Chegou lá, carregado com as ferramentas, e tocou à campainha. Abriu-lhe a porta um miúdo sério, de uns dez anos. Ao lado estava uma rapariga loirinha, devia ser um pouco mais nova.
Não estão adultos em casa? perguntou o António, surpreendido.
Sempre lhes diziam para não entrar em casas sem adultos presentes.
A minha mãe já vem, entre à vontade! Olhe, a torneira lá da cozinha não para de pingar. Tentei resolver com fita cola, mas continua a pingar explicou o miúdo, apressando-se a garantir: Não se preocupe, temos dinheiro para pagar!
O António entrou, simpatizou logo com eles. Desmontou a torneira, trocou uma peça, ficou impecável.
Ah, e a minha mesa também está a abanar, e o interruptor da sala não funciona… disse de repente a menina.
O nosso pai é que fazia sempre estes arranjos, mas ele é piloto, voa muitas vezes e está sempre longe, insistia ela, claramente a repetir o que ouvia da mãe.
Pouco depois, chegou a mãe. Uma mulher atraente, trinta e poucos anos, mas com um ar cansado de quem só pensa em descansar.
Ficou toda admirada pela iniciativa dos miúdos.
Nunca mais te decidias chamar o técnico, justificou o filho. Olha, já tratei eu disso!
A senhora pagou ao António, e a menina ainda insistiu na questão da mesa e do interruptor. Ficaram para tratar disso no dia seguinte, e o António deixou lá o cartão de visita.
O miúdo já sabia que se chamava Martim foi com ele ajudar a levar o lixo.
Nós não temos pai nenhum piloto! É treta da mãe. Ela acha que somos pequenos e não percebemos nada. Se ele existisse já cá tinha vindo pelo menos uma vez. E os presentes é ela que nos compra, depois diz que foi o pai a mandar. Vi eu próprio quando comprou a boneca da Matilde, no aniversário da mana, e depois disse que foi o pai que enviou… desabafou o Martim, meio triste.
Quem sabe… às vezes há pais mesmo longe por causa do trabalho, nunca se sabe… respondeu o António, tentando animá-lo, mas o Martim ficou só pensativo, calado.
Nesse dia, em casa, o António não conseguia parar de pensar nisto do piloto. Tocou-lhe fundo.
Sabes que o António também tinha sido piloto era coisa do passado já…
Viveu anos numa cidade grande, Lisboa, a voar para todo o lado, em vários países e sempre a viajar. A mulher dele, linda e exuberante, fartou-se dessa vida. Ela queria que ele ficasse em terra, parasse com as viagens, e, como nunca tiveram filhos… houve discussões.
Ah, pois, tu andas nas nuvens e eu fico cá a aturar a rotina sozinha? Não quero isso para mim!
Até que um dia, com os sogros a mudarem-se para França para viver com família lá, ela também quis ir. O António recusou e ela acabou por se divorciar e foi com os pais.
O António ficou, continuou a voar, até ficar doente, de tal maneira que teve de se reformar mais cedo do que queria. Horas de voo tinha às toneladas, carreira feita, mas pronto… acabou.
Foi viver com a mãe, para uma cidadezinha tipo Tomar. Passou meio ano com ela, depois perdeu-a sem aviso, tudo muito rápido.
Abaixo de forma nunca tinha sido de andar metido em grandes festas ou má vida, mas com tudo a acumular Passou umas semanas a sair, com amigos que só serviam para beber copos e nada mais. Até que sonhou com a mãe a olhar para ele com tristeza.
No dia seguinte, correu com todos de casa, pegou-se a sério, arranjou a casa… e depois caiu numa imensa solidão.
A ver um jornal local, deparou-se com um anúncio: empresa de serviços a precisar de técnicos com carro próprio.
Atirou-se de cabeça. Sempre era ocupação, o dinheiro dava jeito e o horário era flexível.
No dia seguinte, voltou à casa do Martim e da Matilde. Pensava que a mãe deles ainda estaria no trabalho, mas ela já tinha chegado.
O António tratou da mesa, arranjou o interruptor, pôs a prateleira direita no corredor, até alinhou as portinhas do móvel da cozinha.
Depois espreitou a casa de banho.
Isto precisava mesmo era de obras a sério disse ele.
Se aceitar, o trabalho é seu. Já temos algum dinheiro posto de lado respondeu-lhe a mãe, a Paula, com um sorriso. Sou educadora numa creche, vá percebendo o ritmo…
Durante os trabalhos, foram-se conhecendo. A Paula convidou-o a ficar para jantar, depois de tanto trabalho. Ele aceitou, os miúdos entusiasmadíssimos.
Foi um daqueles jantares em que nem se dá pelo tempo a passar. Os miúdos adormeceram, e os dois ficaram na conversa, a desabafar como nunca.
O António não falava com ninguém assim há anos e a Paula sabia ouvir como poucas pessoas. Havia nos olhos dela sabedoria pura, compaixão de mãe, dessas antigas.
Ela, na verdade, nunca teve um marido. Duas vezes tentou, mas correu mal e ficou com dois filhos, três anos de diferença entre eles. O pai piloto era só uma história para eles, que ela pensava explicar quando fossem crescidos.
O António foi-se embora já à meia-noite. Ainda havia muito por fazer, por isso prometeu voltar no dia seguinte.
No outro dia, quando a Paula abriu a porta, ficou boquiaberta: o António apareceu à porta vestido com o velho uniforme de piloto, com um ramo de flores e um bolo de pastelaria.
O pai, o nosso pai-piloto voltou! gritou logo a Matilde, correndo-lhe para os braços.
Voltei! Só não vos reconheci de imediato, já há tanto tempo não é, Paula? pediu com esperança nos olhos, e ela só podia sorrir e acenar.
Foi assim que a família incompleta da Paula ficou, de repente, completa e feliz.
O Martim demorou, mas acabou por acreditar que o pai tinha finalmente voltado.
O António adoptou o Martim e a Matilde, e, ano e meio depois, nasceu-lhes mais um menino…
Olha, ainda agora me arrepio de contar. Sabes, estas coisas dão-me sempre esperança. E se quiseres ouvir mais histórias assim, diz-me, porque isto faz-me mesmo bem ao coração contar-te!
