Olívia odiava todos. E sobretudo sua mãe.

Oi, Lurdes, lembra daquela história que eu te contei? Deixa eu refazer tudo, mas agora bem à portuguesa, como se eu estivesse a falar contigo num recadinho de voz, bem à vontade.

Lurdes odiava tudo e, sobretudo, a própria mãe. Ela tinha a certeza de que, quando crescesse e saísse daquele orfanato, ia encontrar a mãe e dar-lhe o troco. Mas não ia atirarse ao peito dela a gritar Oi, mamã! nada disso. Lurdes queria observar, esperar e depois vingarse. Anos no Lar de Crianças de Lisboa, chorar lá dentro enquanto a mãe vivia à toa, eram provas suficientes de que a mãe não se importava. Ela nunca duvidou disso.

Lurdes sempre esteve no orfanato. Desde que se tem memória, lá estava. Várias vezes a mudaram de ala porque brigava o tempo todo; não lhe importava se era com um garoto ou uma menina. Puniama, trancavama no isolamento, tiravam-lhe os doces, mas ela continuava a odiar os cuidadores, as outras crianças e, em geral, o mundo inteiro.

Aos catorze anos deixou de se bater. Não porque de repente se tornara doce, mas porque todo o mundo já a temia demais. Bateuse de tédio. Foi até um canto recôndito do pátio e sentouse ali, a sonhar com o dia em que encontraria a mãe e a vingaria.

Um dia ouviu uma melodia estranha. Lurdes parou, escutou; não se parecia em nada com o que já tinha ouvido. Ela adorava música e ficava toda arrepiada quando ouvia algo bonito, mas aquela melodia era ao mesmo tempo doce, triste e um pouco melancólica, e ela não sabia de onde vinha.

Levantouse, aproximouse dos arbustos de azinheiro e abriuos devagar. Olha lá, o novo zelador, pensou, já a gozar com ele. O que será que toca?. Enquanto se esticava, tropeçou e caiu direto nos arbustos.

O homem parou de tocar e virouse para a folhagem. Lurdes levantouse, sacudiuse zangada e ia embora, quando ele lhe lançou:

Quer aprender?

A menina ficou chocada. Eu? Conseguirei tocar assim? Pensou, mas deu um passo em direção ao homem. O zelador parecia ter uns cinquenta e poucos anos, o que achava estranho para alguém que ainda fazia esse trabalho.

Lurdes começou a visitálo todos os dias. Primeiro ele mostrou-lhe como soprar a flauta que ele mesmo esculpia. Eram flautas engraçadas, mas ao mesmo tempo elegantes. Quando os primeiros acordes verdadeiros saíram da sua boca, não aguentou e abraçou o zelador. Foi a primeira vez que realmente conversaram.

Chamavase Manuel Alves, vivia numa casinha pequena dentro do terreno do orfanato.

E então? Não tem família, não tem casa?

Eu tive tudo, Lurdes. Uma casa, família Há dez anos a minha Catarina já não está aqui. Pensei que não iria sobreviver se não fosse o meu filho

Depois casouse, mas a esposa era bonita e avarenta. Mas tem que agradar ao meu Sónio, dizia ele. Cinco anos depois o Sónio morreu num acidente de carro, e o apartamento, um T3 no centro de Lisboa, já estava em seu nome. A nora trouxea malas e despediuo para o outro lado do mundo.

Mas porque não lutou?

Para quê, Lurdes? Não tenho ninguém aqui. Todos os meus amores foram embora. Só preciso viver o tempo que me resta. Não preciso de mais nada.

Lurdes achou que odiava a nora de Manuel ainda mais que à própria mãe. Pensava, primeiro, em se vingar da nora, depois da mãe.

Quando Manuel descobriu que aquela menina era como um lobo faminto, ficou assustado. Como alguém tão pequeno poderia lidar com tanto ódio? Conversavam muito; Manuel sentia Lurdes a aquecer. Ela deixou de cutucar os rapazes, ficou mais suave, já não queria provar que tinha razão com os punhos. O desejo de brigar desaparecera.

Um dia ele perguntou:

Lurdes, daqui a um ano vais sair daqui. Já sabes o que queres ser?

Ela ficou perdida, olhouse:

Não nem penso nisso. Só penso em como me vingar da mãe.

Então imagina Vingarteás, mas primeiro tens de a procurar. Não sei quanto vai custar, mas deixemos isso de lado. Depois?

Ela ficou em silêncio, saiu. Ficou um semana sem aparecer, mas depois voltou:

Quero construir.

Passaramse doze meses a preparar a entrada no curso de construção civil. Lurdes sabia que a universidade era muito longa, talvez fosse só no futuro. No dia em que partia, sentaramse na velha bancada, falaram até ao cair da noite. Ela iria para o Porto estudar e viver lá. Chorou, a primeira vez em muito tempo.

Manuel, prometo que vou voltar a visitarte. Só preciso de terminar os estudos e firmarme.

Vamos combinar. Eu não desapareço, mas tu tens de acabar a escola, pôr os pés no chão e depois… visitar o velho aqui.

Mas ainda és velho, não?

Ele entregoulhe uma flauta como presente.

Quase quinze anos depois, Lurdes casouse tarde, nunca encontrou alguém que a compreendesse. Aos trinta teve uma filha, a pequena Catarina, e quase de imediato o casamento acabou. Toda a alegria passou a ser a menina.

Já podia comprar o que queria. Quando finalmente ganhou o suficiente, entrou em contato com a mãe. As coisas foram resolvidas mais rápido do que ela esperava. A mãe, uma mulher pobre e solteira, descobriu, dois meses antes do parto, que estava doente. Luta contra o cancro desde então; os médicos deramlhe um ano de vida. Em desespero, a mãe decidiu abandonar a filha no hospital ao nascer. Nenhum médico a condenou; Lurdes chegou a visitar o túmulo da mãe e encontrou lá um grande monumento com um anjo.

Ela lembravase sempre de Manuel, mas ao voltar à Lisboa depois de tantos anos não o encontrou. O diretor do orfanato tinha mudado, quase todo o pessoal antigo já tinha sido substituído.

Quando tinha um tempo livre, Lurdes e Catarina iam ao parque. A pequena Catarina, sempre a rir, gostava de salvar o mundo. Até aos seis anos era muito inteligente e, de modo inexplicável, convencia a mãe a gastar tudo antes de irem ao parque.

Se fosse dar doces às crianças, pão aos patos, ou comprar dez porções de gelado nos dias de calor, ela já decidia. Um dia pediu:

Mãe, comprame chouriço, pão e uma água.

Lurdes ficou a olhara, sem saber o que dizer.

Tenho medo de perguntar quem é o tal.

Talvez seja melhor não saberes, mãe? Por que ficar nervosa à toa?

Catarina, não vamos a lado nenhum agora.

Mãe, há um senhor sem casa ali.

Quem?!

Lurdes quase desmaiou. Catarina sorriu, como se dissesse já te avisei.

Mãe, não te preocupes. É só um velho sem família.

Ele não pedia como os outros, porque se envergonhava. Conhecia tantas histórias e poemas que ninguém mais sabia. Não te importas com as salsichas?, brincou ele. Lurdes, que já era diretora numa grande obra, não sabia o que responder. Comprou tudo o que Catarina pediu e foram ao parque.

Catarina sentouse num banco.

Mãe, fica aqui, eu vou até ao lago. Vês, ali está o avô, é ele.

Lurdes viu então um velho mal vestido, rodeado de crianças, e acalmouse um pouco. O importante era que a filha estivesse segura.

À noite, Lurdes deitouse no sofá com um livro. Catarina estava no quarto. De repente, Lurdes pareceu ouvir a mesma melodia de novo. Silêncio. De novo a melodia, a mesma de sempre. Correu ao quarto, assustada.

Mãe, acordei-te?

Catarina! O que foi isso?

Foi o avô que me ensina a tocar flauta. Não consigo a parte do começo.

Catarina suspirou. Na mão, a flauta. Lurdes olhoua com os olhos cheios de lágrimas.

Vou mostrarte. Também demorei a aprender

Lurdes tocou a melodia inteira e chorou. As lembranças invadirama, tão fortes que não pôde conter o choro. Catarina ficou assustada.

Mãe, por que estás assim? A música te fez chorar? Queres que eu pare de tocar?

Lurdes balançou a cabeça, saiu e voltou num minuto com a mesma flauta, só que um bocadinho escurecida pelo tempo.

Catarina, sabes onde mora o senhor?

Mãe, ali junto ao lago, tem caixas detrás dos arbustos.

Vamos, filha.

Encontraramo na mesma hora. Catarina gritou:

Avô!

Ele saiu dos arbustos.

O que se passa, pequena? Por que não estás em casa?

Manuel Alves, bom dia.

Ele quase deu um salto de susto, depois olhou devagar para o rosto dela.

Lurdes não pode ser.

Ela abraçouo forte.

Tudo pode mudar. Chega de mosquitos, vamos para casa.

Para onde?

Para casa, Manuel. Se não fosse por ti, não teria nada. O meu lar é sempre o teu lar.

No caminho de volta, Manuel enxugou as lágrimas, que pareciam incomodaro. Se não fosse Lurdes a segurarlhe a mão, teria caído há muito.

Agora, com a certeza de que não vai acabar sozinho, ele sente que pode seguir em frente, mesmo que o mundo pareça frio.

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