«Será que essa mulher cruel, parecida com uma fera caçada, é a mãe dele?». As palavras dela: «Tu és o meu erro da juventude» – assim soou em seus ouvidos.

**15 de junho de 2026 Diário**

Hoje acordei com a imagem daquelas palavras ainda ecoando nos meus ouvidos: És o erro da minha juventude. A frase da minha mãe, sempre fria como o inverno no Alto Minho, volta a me perseguir.

Tudo o que sei sobre mim mesmo começa naquele dia em que fui encontrado, faminto e tremendo de medo, à porta da casa de uma recémnascida em Vila Nova de Gaia. A mãe da bebé, ainda carregando algum vestígio de consciência, envolveu o miúdo num cobertor quente, depois amarroulhe ao pescoço um pequeno lenço de lã de cabra e colocouo num caixote de papelão, como se temesse que eu congelasse.

Nenhum registro dizia o meu nome, de onde vim ou quem eu fosse. Apenas um grande pingente de prata, em forma da letra A, apertado na minha mãozinha, revelava um vestígio talvez a única herança que a minha mãe jamais quis perder. Era um trabalho singular de um joalheiro artesão, marcado com o selo do próprio criador.

A polícia, agarrandose a esse pequeno indício, tentou rastrear a mãepássaro que abandonara o filho, mas o caso logo ficou num beco sem saída. O joalheiro que o fez havia partido há muitos anos, e nenhum anotado aparecia nos seus livros de obra.

Assim, fui registado no lar de crianças da Segurança Social como Luís, desconhecido. Mais um número, mais uma criança estatal a ser criada entre paredes brancas e alimentação garantida. A falta do amor de um pai ou de uma mãe era um vazio que me consumia; sonhava incessantemente em encontrar os meus verdadeiros progenitores.

Deve ter acontecido algo horrível para a minha mãe fazer isso comigo. Ela vai aparecer e levarme embora pensava, como todos os meus companheiros de infortúnio.

Quando, finalmente, deixei o orfanato para a vida grande, a cuidadora penduroume o mesmo pingente no pescoço e contoume a história por trás dele.

Será que a tua mãe queria que te encontrássemos? perguntei, incrédulo.
Pode ser, ou talvez tenhas arrancado o pingente da garganta dela sem querer. As crianças adoram apanhar coisas. E o teu pingente estava preso na tua mão, sem corrente! conjecturou a cuidadora.

O Estado concedeume um pequeno apartamento modesto, mas meu. Inscrevime no Instituto Politécnico de Lisboa, concluí o curso técnico e consegui emprego num mecânico de automóveis.

***

O destino trouxeme a Lurdes num tropeço que parece saída de filme. Estávamos a caminhar na Avenida da Liberdade quando colidimos; os catálogos de moda que ela carregava voaram das suas mãos e eu, atrapalhado, tentei recolher tudo, pedindo desculpas a gritos. O choque foi tão forte que lágrimas e faíscas surgiram nos nossos olhos, e, entre a multidão que nos contornava, ficámos a rir entre soluços. Naquele instante percebi que havia me apaixonado perdidamente.

Quero reparar o meu erro! Vamos sentarnos num café? propus, meio envergonhado.
Lurdes aceitou com um sorriso que fez o meu coração aquecer. Ela parecia tão doce na sua desajeitada bebezinha que eu não podia resistir.

Luís, sinto que te conheço há toda a vida! exclamou, apenas cinco minutos depois de nos conhecermos.
Nem me acreditas? Eu sinto o mesmo! respondi.

Desde então, o nosso vínculo tornouse inquebrável. Chamávamosnos ao telefone, mandávamos mensagens, sentíamosnos mutuamente até nos pequenos detalhes do diaadia. Quando eu me cortava no trabalho ou simplesmente tinha um tropeço, Lurdes ligava imediatamente, preocupada.

Tu és eu, eu sou tu! Sinto que és o meu destino! declarei numa noite, pensando em apresentara aos meus pais, embora ainda não tivesse nenhum.
Tensme a ti, e eu tenho a certeza de que os meus pais vão gostar de ti respondeu ela, confiante.

***

A mãe de Lurdes, Lídia Vasconcelos, não tardou a expressar a sua surpresa ao descobrir que o meu namorado era um rapaz do orfanato.

Como é que o teu namorado do lar de crianças pode ser o futuro da minha filha? Todos eles são incultos! exclamou, entregandose ao sofá de couro.

Mãe, o Luís é um rapaz gentil e alegre! Não podemos julgar a todos pelo mesmo rótulo! defendeua a filha.

Antes de formar uma opinião, é preciso conhecer a pessoa! Tragamnos ao Luís, para que possamos conversar e perceber de que ar ele vive interveio o pai, Ivano Romão, oficial de recursos humanos.

A discussão acabou em gritos, acusações e um silêncio pesado que fez Lídia fechar a porta do seu quarto com força. Ivano piscou para Lurdes, encorajandoa:

Não te preocupes, filha, vamos superar isto.

Lurdes respondeu com um beijo na bochecha do pai:

Obrigada, papá! Então, posso convidar o Luís para o sábado?

Claro! Quero conhecer o menino que conquistou o coração da minha única filha.

***

No sábado, Luís chegou ao apartamento de Lurdes, elegante, com duas rosas em mãos uma para ela, outra para a futura sogra e um bolo pequeno. Lurdes o conduziu até à cozinha, onde o apresentava aos pais.

Mamã, papá, este é o meu Luís! anunciou.

O pai apertoulhe a mão; Lídia recebeu as flores, mas o seu rosto empalideceu como se o sangue tivesse fugido. Após alguns minutos, reuniuse à mesa.

Desculpem, estou um pouco nervosa explicou, ainda pálida.

Durante o almoço, Lídia, curiosa, comentou:

Luís, esse pingente é muito interessante. Não parece algo feito em série.

É a única lembrança da minha mãe. Quando me encontraram à porta do orfanato, eu seguravao apertado no punho.

Lídia ficou em silêncio até o fim da refeição, empurrando apenas ervilhas verdes no prato, sem comer nada. Ivano, entretanto, encontroulhe o futuro genro cativante, partilhando assuntos de futebol, ski e pesca.

Que rapaz formidável! exclamou.

Lídia, ainda irritada, replicou:

Formidável? Não tem postura, nem educação!

Ivano tentou apaziguála, mas Lídia, inflexível, virouse para a filha e ordenou:

Deves terminar com ele, agora!

Sem mais explicações, recolheuse ao seu quarto.

***

Naquela noite, a minha mente girava como um turbilhão. Olhei para uma foto antiga, guardada entre as portas de cristal da estante. Era uma imagem em preto e branco de mim, ainda criança, ao lado da mesma corrente e pingente que eu via agora no pescoço de Lídia.

Não o perdi então! Esse pequeno ladrão deve têlo arrancado! pensei.

Escondi a foto no bolso e imaginei: Não posso deixar que Ivano e Lurdes descubram isto agora! Preciso de um plano.

Passei a noite em claro, decidindo que a única solução seria convencer Luís a deixar a cidade para sempre.

Filha, perdoame, fiz algo errado ontem. Quero pedir desculpa ao Luís. Podes darme o número dele? perguntei à Lurdes, que, sem suspeitar nada, anotou o contacto do namorado.

Sem demora, Lídia ligou para Luís.

Luís, boa tarde! Poderias vir aqui dentro de uma hora?

Claro, estarei aí.

Ele chegou como um trovão à porta. Lídia, de rosto pálido e olhos cheios de lágrimas, disse:

Temos que conversar.

Luís, deves terminar com Lurdes. Esta é a minha condição; não deixes que eu, ou o teu pai, descubramos isto.

Eu juro! respondeu eu, tremendo.

Lídia então mostroume a foto da corrente.

Esta é a tua irmã! proclamou, com a voz violenta.

Fiquei boquiaberto, as lágrimas a escorrer.

Mãe? perguntei, a voz falhando. E o pai?

Lídia sacudiua a cabeça:

Não, Ivano não é teu pai. Fui eu e o Vítor que nos juntámos, ele entrou na academia militar. Eu era jovem e tola. Quando descobri que estava grávida, ele abandonoume. Levei o bebé para a avó, menti que havia morrido e entregueite ao orfanato. Depois, casámonos.

E eu? comecei a chorar.

Tu és o meu erro de juventude. Não tens direito a destruir o que construí com tanto esforço. Nunca pediste para estar aqui, e agora chegaste quando ninguém te esperava. Vai embora!

Sentime como uma pedra lançada num lago, espalhando ondas de dor.

És só um erro da minha juventude ecoou a voz da mãe.

Respirei fundo, levanteime do sofá e, com a cabeça abaixada, murmurei:

Adeus, Lídia Vasconcelos! Não revelarei o segredo a ninguém.

Mas a mãe, ainda frágil, gritou:

Vou contar tudo ao teu pai!

Nesse instante, Lurdes apareceu à porta, os olhos cheios de fúria.

Sempre te considerei uma boa pessoa, mas tu, mãe, és uma verdadeira vergonha!

Perdoa, irmã! implorei, abaixando a cabeça, tentando conter o pranto.

Dias depois, inscrevime no recrutamento militar e fui admitido numa unidade de intervenção. Ivano e Lurdes foram me despedir; o pai me abraçou forte, como um irmão.

Aguenta, filho! Lembrate que nós somos a tua família agora. Volta para nós!

Lurdes, com um abraço apertado, sussurrou ao ouvido:

Volta logo, irmão, amamoste.

O calor do coração encheume de esperança. Embora não tivesse mãe, descobri que não estava só no mundo. Ganhei um pai, uma irmã e, paradoxalmente, ainda guardo um amor que ultrapassa tudo.

Lídia, porém, acabou sozinha. Ivano terminou o casamento; ela ficou a culparme por aparecer sempre na hora errada.

Esta história, escrita com a tinta da minha vida, é o que deixo aqui, na esperança de que alguém, um dia, a leia e compreenda os nós que o destino tece.

Luís.

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«Será que essa mulher cruel, parecida com uma fera caçada, é a mãe dele?». As palavras dela: «Tu és o meu erro da juventude» – assim soou em seus ouvidos.