Tudo começa quando recebo um telefonema da vizinha da minha mãe.
Leonor, olá.
Olá, Dona Maria Amélia respondo, um pouco surpreendida.
Como tem passado? E os miúdos, estão bem? continua ela.
Está tudo bem, obrigada digo eu, começando a ficar inquieta.
Dificilmente Dona Maria Amélia ligaria só para saber das nossas novidades. E de facto, o meu pressentimento confirma-se.
Leonor, já não vai ver a sua mãe há muito tempo?
Sinto logo um aperto na consciência. Suspiro fundo. Já vivíamos separadas há muitos anos. E, desde que o meu filho começou a escola, a minha vida tornou-se uma roda-viva. De manhã preparo o pequeno-almoço para todos, despacho-o para a escola, depois trabalho o dia inteiro. Quando saio vou a correr às compras e ainda chego a casa para preparar o jantar, dar de comer à família, lavar a loiça e rever os trabalhos de casa. Ao final do dia, fico exausta, sem vontade nenhuma de fazer visitas. E aos fins-de-semana, há sempre outras coisas para tratar: limpar a casa, lavar e passar roupa, tentar descansar um pouco… Raramente íamos visitar a minha mãe, é a verdade.
Já faz um tempo, Dona Maria Amélia confesso com arrependimento. Sempre a pensar em ir, mas nunca consigo tempo. No sábado queria passar lá
Não reparou em nada de estranho na sua mãe? pergunta ela, cautelosa.
O que quer dizer? pergunto, já tensa.
Bom Algo diferente no comportamento dela? Anda a portar-se de maneira esquisita?
Não quase gela o meu coração. Porquê? pergunto.
Ai, Leonor, nem sei como hei de dizer isto… murmura Dona Maria Amélia, hesitante. Talvez nem devesse meter-me, mas…
O que aconteceu afinal?! quase grito ao telefone. O meu pensamento já voa para cenários de arrepiar.
A sua mãe resolveu ter um namorado, já viu isto? dispara a vizinha.
Ora, valha-me Deus! indigno-me. Por que diz isso?!
Porque anda metida com um senhor! Está “apaixonada”, ora essa!
Não me diga! desato a rir, mais aliviada. A minha mãe já passou dos setenta, romances agora?!
Ai, menina, não diga isso responde quase ofendida. Eu sei bem o que vi! Ela contou-me tudo!
Amante?!
Não, eu própria falei com ela! Ela nem me escondeu nada! começa a desfiar Dona Maria Amélia. Ouça bem, ontem cruzei-me com ela na rua. Ia apressada, nem me viu. Chamei por ela. “Desculpe, Maria, estou cheia de pressa, preciso de ir comprar peixe. Acha melhor pescada ou tamboril?” Fiquei parva. “Ó Teresa, pensei que não gostava de peixe.” E ela: “Não é para mim, é para o Vasco. Ele adora peixe, come até lamber os beiços.” Estava toda contente. Compreende agora?
Talvez seja só algum conhecido tento justificar, enquanto rebusco na memória alguém chamado Vasco. Não me lembro de ninguém assim.
Que conhecido, qual quê! Ouça, Leonor. O homem agora mora lá em casa! Imagine se é algum desgraçado, bêbedo ou vigarista? Estamos num país perigoso, nunca se sabe quem anda por aí. Nunca vi um homem decente largado na rua!
Chocada, fico em silêncio. Dona Maria Amélia continua:
Sim, sim! Ela própria contou-me! “Ia eu pela rua e vejo o Vasco, todo encharcado numa poça de água, a olhar para mim com uns olhos… Levantou-se com uma dignidade, pareceu-me logo um verdadeiro cavalheiro. Levei-o para casa, dei-lhe banho e ficou um encanto!” Portanto, Leonor, se fosse a si, ia já averiguar o que se passa.
Muito obrigada mal consigo responder e desligo.
Estou completamente em choque, trémula, só me imagino a minha mãe a arrastar um bêbedo molhado para dentro de casa. Mal posso esperar que o meu marido chegue para discutirmos isto em família.
A minha mãe arranjou um namorado digo-lhe sem rodeios assim que entra.
Chama-se Vasco e conto tudo o que Dona Maria me disse.
O meu marido fica boquiaberto. Depois tenta ainda acalmar:
Lá histórias, a Maria Amélia é mestra! Já ligaste à tua mãe?
Não admito.
Então liga. Pode não ser nada. Vais ver que tudo se esclarece.
Corro para o telefone, com esperança, e ponho em alta-voz.
Olá atendo, quando oiço a voz da minha mãe.
Então, Leonor! Está tudo bem?
Mãe, estás sozinha?
Não, estou com o Vasco responde, a rir, bem-disposta.
O meu coração afunda-se. Afinal é verdade!
Mas de onde apareceu ele? pergunto, já com a voz a tremer.
Ai, é uma longa história começa a contar, sem qualquer embaraço. Encontrei-o na rua. Tão desamparado, molhado… Não tive coragem de o deixar ali. Deu-me tanta pena! Agora já não ando tão sozinha, sempre faz companhia, e é um verdadeiro “homem” na casa. Faz as suas traquinices, havia de ver, ri ela, feliz.
Caio cansada na cadeira. Será que a minha mãe perdeu mesmo o juízo?
Ó mãe, mas não pode ser assim! Levar um estranho para casa? Manda-o embora!
Leonor, que horror, que insensível! Somos responsáveis por aqueles que cativamos, lembra-te. Além disso, vocês quase nunca me visitam Agora tenho companhia, voltou-me a alegria de viver! O Vasco fica e acabou-se! e desliga o telefone.
O meu marido levanta-se, decidido:
Isto não pode ficar assim! Vamos já a casa da tua mãe!
Tropeçamos pela casa a preparar-nos à pressa. O meu marido, nervoso:
A tua mãe tem bom coração, mas qualquer um pode enganá-la. E se for um interesseiro? Um aldrabão qualquer! Vasco, vejam só Vou já ver quem é esse Vasco!
Meia hora depois, já em Lisboa, estacionamos junto ao prédio dela. O meu marido abre o porta-bagagens, tira de lá um ferro e pesa-o na mão.
Para quê isso? pergunto, alarmada.
Nunca se sabe Se o Vasco se recusar a sair…
Sem violência, por favor! imploro, já a imaginar cenas de escândalo.
Assim que entramos em casa da minha mãe, o meu marido pergunta, determinado:
Então, onde está ele?
Está a dormir no cadeirão da sala responde ela, intrigada. O que se passa?
O meu marido irrompe sala dentro, eu logo atrás.
No cadeirão da minha mãe, espreguiça-se um enorme gato amarelo! Assim que nos vê, senta-se muito senhor de si, enrola a cauda e mia bem grave.
Apresento-vos o meu Vasco anuncia a minha mãe, entrando na sala connosco.
Mas mas é um gato! exclamamos em coro.
Pois claro, um gato. O que é que pensavam, afinal? ri-se ela, vendo o nosso ar estarrecido.
