– Catarina, mas lá no inverno faz frio!

Violeta, mas lá faz frio no inverno! O aquecimento a lenha, tem de talhar madeira! dizia eu, tentando convencer a minha filha.
Mãe, tu és do interior, na infância era só assim que vivíamos. O avô e a avó passaram a vida toda na aldeia, nada mudou. No verão, porém, a vida é outra: horta, frutos vermelhos, cogumelos na mata. replicava Violeta.

A minha mãe, Maria da Conceição, estava a habituarse ao ritmo da reforma. Depois de sessenta anos de vida, dos quais trinta e cinco no gabinete de contabilidade de uma fábrica, finalmente podia desfrutar de um chá tranquilo de manhã, ler um romance e não ter pressa para lado nenhum.

Nos primeiros meses de aposentadoria ela deliciavase com o silêncio. Levantavase quando lhe apetecia, tomava o pequenoalmoço sem correria e assistia aos programas da TV. Saía ao supermercado apenas quando as filas eram escassas; depois de quarenta anos de labuta, isso era um luxo.

Numa manhã de sábado, Violeta ligoume:

Mãe, precisamos conversar a sério.
O que se passa? perguntei, preocupada. Está tudo bem com a Mariana?
A filha está bem. Venho aí, conto tudo. Não te preocupes!

Essa frase fezme preocupar ainda mais. Quando os filhos dizem não te preocupes, costuma haver motivo para a preocupação.

Uma hora depois, Violeta já estava sentada na cozinha, acariciando a barriga que já se arredondava. Aos trinta e dois anos, a segunda criança estava a caminho, e ainda não tinha oficializado a união com o namorado, Oleg, com quem vivia há quatro anos. O certificado de casamento parecia não ter muita importância para eles.

Mãe, temos um problema com o arrendamento, começou Violeta, rosna­do o copo. A senhorita que tem o apartamento vai subir o aluguer. Mal conseguimos pagar o que já pagamos e agora quer mais dois mil euros.

Eu assenti, sentindo a dor dos jovens. Oleg mudava de emprego a cada instante: um dia carregava caixas num armazém, no seguinte fazia entregas como estafeta e depois ainda trabalhava como segurança. Violeta estava de baixa com a filha e em breve ia entrar em uma segunda licença maternidade.

Pensámos em mudar para um lugar mais barato, continuou, mas ninguém quer ceder o quarto à criança.

E o que pretendem fazer? perguntei, já pressentindo alguma artimanha.

Por isso vim, Violeta puxou a gola da blusa. Mãe, será que podemos ficar contigo temporariamente? Enquanto juntamos economias, talvez até peçamos um crédito à habitação.

Eu bebi o chá com as mãos trêmulas. No meu apartamento de dois quartos já era apertado, e agora ainda mais com um bebé a caminho e outro já quase lá.

Violeta, como é que vamos caber? Só tenho dois quartos pequenos.

Mãe, vamos adaptarnos. O essencial é poupar. Agora pagamos treze mil euros de renda por mês, já pensas? Em doze meses são cento e cinquenta mil! Esse dinheiro poderia ser a entrada da casa própria.

Eu imaginei o cenário: Oleg a percorrer a casa a falar alto ao telefone, a mover os papéis de família; a pequena Mariana a chorar incessantemente, brinquedos por todo o lado, desenhos animados ao máximo; Violeta a reclamar de desejos e exigências de atenção.

Onde a Mariana vai dormir? tentei achar um argumento razoável.

No quarto grande, colocamos um berço infantil. Tu ficarás no quarto pequeno, só precisas de um sofá e da televisão. Tudo bem!

Violeta, eu acabei de entrar na reforma, preciso de paz. Trintaequatro anos de trabalho, estou cansada!

Violeta suspirou, como se eu tivesse dito algo absurdo:

Mãe, a que serve a paz aos sessenta? Ainda estás jovem e saudável. As avós da tua idade ainda cuidam dos netos ativamente.

Foi como um puxão de orelha: Outras avós são úteis, tu és egoísta.

E ainda tens a casa de campo na serra, lembra? continuou Violeta. Um lar perfeito, sempre arrumado, ar puro, silêncio, ideal para uma aposentada.

Na casa de campo? repeti, incrédulo.

Sim. Uma casa resistente, com horta, tomates a cultivar. É benéfico para a saúde, os médicos recomendam que os seniores passem mais tempo ao ar livre.

Senti um frio a percorrer o meu interior. A casa de campo ficava a trinta quilómetros da cidade, com o autocarro a passar só de manhã e à tarde.

Violeta, mas lá faz frio no inverno. Aquecimento a lenha, tem de talhar madeira.

Mãe, tu dizes que só conheces esse modo de vida porque cresceste na aldeia. O avô e a avó viveram sempre ali, nada mudou. No verão, tudo é outro: horta, frutos, cogumelos.

A filha falava como se oferecesse um resort caro, não um pequeno vilarejo sem comodidades.

E se precisar ir ao médico? À farmácia? À mercearia?

Mãe, não vais ao médico todos os dias. Uma consulta por mês basta. E podes comprar mantimentos em abundância, congelar. O teu congelador é grande.

E os meus amigos, vizinhos de toda a vida?

Falem pelo telemóvel ou venham à casa de campo, façam um churrasco. Divirtamse!

Eu, aturdido, não acreditava no que ouvia: a filha queria transformar a mãe numa avóreclusa para libertar o apartamento para a sua família, disfarçandoo como preocupação com a saúde da mãe.

Violeta, quanto tempo pretendem ficar no meu apartamento?

Um ano, no mínimo. Talvez um ano e meio.

Um ano ou um ano e meio! Passar todo esse tempo num apartamento de dois quartos, ou viver sozinha na casa de campo.

E o Oleg, o que acha?

Ele está a favor! exclamou Violeta. Diz que na casa de campo estarás muito melhor, sem stress, sem correria.

Podes ler livros ou ver televisão. Oleg até ofereceuse para instalar uma antena de satélite, para ter mais canais.

Eu visualizava Oleg, generoso, a pensar no meu bemestar, deitado no meu sofá favorito, a propor ainda a antena.

Mãe, pensa bem insistiu Violeta. O que vais fazer sozinha em dois quartos? Muito espaço vazio, sem utilidade. Nós conseguimos nos ajeitar, economizar, ficar de pé.

Quando é que se mudam?

Já amanhã, se quiserem. Temos poucas coisas. A senhora do prédio já procura novos inquilinos, vamos ter de sair até ao fim do mês. O tempo aperta.

Eu sirvi mais chá com a mão trêmula. Violeta observava-me, lendo no meu rosto: O que vais decidir, mãe? Vais recusar a filha em plena necessidade?

Violeta, e se o relacionamento de vocês não funcionar? Não são oficialmente casados.

Mãe, que diferença faz? Estamos juntos há quatro anos, os filhos são nossos. O casamento não muda nada.

Mas se houver separação?

Não vamos separar, afirmou Violeta com firmeza. E mesmo que algo aconteça, o apartamento continua teu.

Não parecia muito convincente. Conhecia Oleg há quatro anos; ele nunca foi constante, mudava de emprego a cada seis meses, mudava de amigos com a mesma frequência. Violeta estava apaixonada nele como numa menina, pronta a tudo por ele.

Violeta, acabei de sair de reforma, queria um pouco de sossego para mim.

Mãe, que significa só para mim? É sagrado apoiar filhos e netos!

A filha jogava com as minhas emoções como uma profissional. Eu sentia a resistência a derreter.

E se eu disser não? Se não puder receber-vos?

Violeta ficou em silêncio, suspirou e pousou as mãos sobre a barriga:

Mãe, não sei o que vai acontecer. Sintome muito triste. Seria um grande desapontamento se a minha própria mãe recusar ajuda num momento difícil.

Aquelas palavras continham uma ameaça velada: corte de relações, perda de contacto com os netos.

Eu imaginei Violeta a espalhar a história a todos: A minha mãe recusoume ajuda!

E depois, onde vamos ficar? soluçou Violeta. Com dois filhos e sem dinheiro. O Oleg fala que talvez possamos ficar na casa da mãe dele, mas ela tem só um quarto e não nos estima.

Conhecia a mãe de Oleg: mulher ríspida, direta. Violeta não aguentaria ficar lá.

Mãe, ajudanos! implorou Violeta. Só um ano! Não vamos incomodar. Tu vais à casa de campo quando quiseres, descansar da cidade.

E terei que ir frequentemente?

Quando for preciso. Talvez nos fins de semana venhas à cidade comprar as compras, encontrar as amigas. Nos dias de semana, a casa de campo oferece silêncio, ideal para alguém da minha idade.

Está bem concordei, sentindo-me resignado. Só um ano, exatamente um ano, não mais. E com a condição de que poupem, acumulem e procurem um lar próprio.

Violeta me abraçou apertado:

Mãe querida, obrigado! És a melhor! Vai correr tudo bem, não vamos incomodar, vamos cuidar da casa.

E eu irei à casa de campo quando quiser, acrescentei. Essa é a minha condição.

Claro, mãe! O teu apartamento, as tuas regras. Somos hóspedes, compreendemos.

Uma semana depois mudámos. Oleg organizou as suas coisas nos armários, Mariana corria pelos quartos a explorar. Violeta dirigia a logística, indicando onde cada coisa ficaria. Eu, no meio desta reviravolta, empacotava a mala para a casa de campo, sentindome exilado do meu próprio lar.

Os primeiros meses foram um inferno. Oleg adaptouse rapidamente, pôs a televisão ao máximo, falava ao telefone a qualquer hora. No frigorífico, enlatados de bebidas energéticas, nas prateleiras, batidos protéicos. Violeta exigia atenção constante: calor, frio, música alta. Mariana chorava à noite, brinquedos espalhados por todos os cantos, desenhosanimados a correr do amanhecer ao anoitecer.

Eu ia à cidade uma vez por semana comprar mantimentos e remédios, e ficava consternado ao ver o caos. A minha casa arrumada transformouse num corredor de passagem. Na cozinha, montes de louça por lavar; na casa de banho, roupas infantis e meias de Oleg a secar. O sofá favorito ficou manchado de sumo e bolachas.

Violeta, podemos pôr ordem aqui? ofereci.

Mãe, quando me vais ajudar? respondeu ela, irritada. O bebé é pequeno, é difícil. O Oleg está cansado depois de trabalhar o dia inteiro, precisa descansar ao fim da jornada.

Eu posso ajudar enquanto estou na cidade.

Não, mãe, vamos lidar sozinhos. Primeiro o bebé, depois limpamos tudo.

O depois nunca chegou. Eu lava­va a louça, aspirava, limpava o pó, mas, ao voltar, o caos retornava.

Na casa de campo, sentiame um verdadeiro exilado: a trinta quilómetros da civilização, a mercearia a três quilómetros, o autocarro duas vezes por dia.

As vizinhas comentavam:

Galinha, por que estás aqui todo o ano? Tinha um apartamento na cidade.

A filha está aqui temporariamente, respondi. Guardamos dinheiro para comprar a nossa casa.

Ah, é verdade. Jovens precisam de ajuda.

Não consegui explicar que a filha tinha ocupado o meu apartamento com o Oleg e que, educadamente, a expulsaram para o campo pelo bem da saúde.

O inverno na casa de campo foi especialmente duro. A lenha esgotavase rapidamente, a água tinha de ser aquecida no fogão. Sentiame como se estivesse presa ao fim do mundo.

Seis meses depois, Violeta deu à luz ao menino Dinis. Esperava que então eles procurassem um lar próprio. Quando voltei à cidade para visitar o bebé, Violeta anunciou:

Mãe, com dois filhos não vamos encontrar nada adequado. Quem vai aceitar uma família com recémnascido? Vamos ficar mais um ano, está bem?

Percebi que me tinham enganado desde o início. O ano tornariase dois, e dois, três.

Ela vai viver os seus dias de reforma numa casa abandonada? pensei, indignado.

A polícia acabou por desalojar a filha e a família, que se recusavam a sair. Contra mim foram lançadas maldições, insultos e ameaças.

Mas eu já não me importava; o acordo era de um ano, e cumprio. Havia vergonha perante a família e os vizinhos? Não! Como se diz, a cama é feita, a pessoa tem de dormir nela.

Acham que eu agi corretamente ou exagerei? Comentem abaixo o que acham. Curtam se concordarem.

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