Perder uma Pessoa Querida

– Leonor, vou-me embora. disse Joaquim, após pigarrear, com uma voz estranha, sem cor, como se não fosse dele.
– Para o café, é? murmurou Leonor, sem dar grande importância, lançando apenas um olhar de soslaio ao marido.
– Não. Leonor, estou a dizer que vou deixar-te. Encontrei outra mulher…

A batata mal descascada escapou-lhe das mãos e rebolou pelo chão, indo parar debaixo da mesa. Leonor ficou a olhar para a batata uns segundos, tentando digerir o que ouvira, e só depois virou-se abruptamente para o marido, fitando-o intensamente. Finalmente, as palavras fizeram sentido. Por fora parecia calma, firme, como uma rocha no meio do Atlântico. Por dentro, no entanto, sentiu-se esmagada por uma avalanche de emoções: tristeza, medo, raiva, frustração e todo o amor e sonhos em ruínas.

– E quem é ela? perguntou Leonor, esforçando-se para não gritar ou cair-lhe em cima a socos.
– Não a conheces, Leonor. Ela é… bem, com ela é tudo verdadeiro, percebes? Entende-me só com um olhar, temos imenso em comum. Mesmo muito! dizia ele, entusiasmado, enquanto Leonor mentalmente espetava a faca das batatas nele, com uma certa satisfação.
– Pois, encontraste finalmente a tua felicidade. Parabéns respondeu, em vez disso, passando a faca e as mãos debaixo da torneira. Não preciso de detalhes. Estás livre. Vai. Nem penses que jantas aqui, devem estar à tua espera…

Joaquim engoliu em seco, não se percebeu se aliviado ou emocionado, e foi ao quarto pôr as coisas na mala. Leonor agarrou-se à bancada, para não cair, olhando as articulações brancas dos dedos. Só queria duas coisas: não cair dali abaixo, e que ele saísse rápido de casa.

– Bem então eu vou, está bem? murmurou Joaquim, já junto à porta, olhando-a com expectativa. Ela virou-se para ele, serena, até com um leve sorriso, o que o surpreendeu. Ele esperava lágrimas, gritos, mas não aquela indiferença. Deu meia volta e saiu da cozinha.
Leonor só se deixou cair no chão da cozinha quando ouviu a porta fechar. Mordendo o braço para abafar o grito, chorou como um animal ferido. Chorou até faltar forças. Três horas depois, de olhos inchados e voz rouca, rastejou até ao quarto e caiu, vestida, sobre a cama. O mundo dela tornara-se cinza.

Acordou a meio da noite, dominada por uma nostalgia dolente. Recordou-se do dia em que conheceram. Ela era jovem e ingénua, vinda para um pequeno concelho do interior em trabalho, e na primeira folga, foi com as amigas ao bailarico do coreto. Nessa noite cruzou-se com ele o Joaquim. Estava com amigos, todos rapazes do grupo da comissão de festas.

Alto, largo de ombros e sorriso aberto, Joaquim destacava-se. Leonor perdeu a fala ao vê-lo. Ele retribuiu o olhar com um ar trocista, mas percebeu-se que também gostou daquela rapariga magra e de olhos vivos. Nessa noite ofereceu-se para a acompanhar a casa. Nunca mais se largaram.

Namoraram todos os dias, três meses depois deram entrada no registo civil. Casaram no verão, festa barulhenta, cheia de juventude e alegria. Moraram primeiro num quarto alugado em Coimbra. Depois nasceu o primeiro filho e conseguiram, com muito esforço, comprar um apartamento T2 em Vila Nova de Gaia. Foram felizes, sinceramente felizes, pareciam feitos à medida, como peça e encaixe de um puzzle.

Na semana passada fizeram trinta e seis anos de casados. O mais triste é saber que provavelmente não haverá trinta e sete… Ao pensar nisso, Leonor chorou de novo, lágrimas caladas e amargas, como quem chora o fim de tudo o que se amou.

A manhã seguinte amanheceu cinzenta, a condizer com o estado de Leonor. Mas a vida chama: a casa grande, os animais, tudo requer atenção. Bebeu chá com açúcar à colherada, sem conseguir comer mais nada. Levantou-se para arrumar, dar comida às galinhas, soltar a cabra para o pasto, lavar chão, tratar da loiça suja que ficara. Fez tudo quase raivosamente, a não dar espaço para pensar. Só havia mais um problema como dizer aos filhos, o Vasco e a Matilde.

– Oh mãe, ele endoideceu? Outra mulher?! Mas que raio de ideia… Queres que a gente vá aí agora? disparou, indignada, a filha.
– Não Matilde, deixa lá, não venhas. Estás quase de nove meses, não precisas destes nervos. Eu cá me arranjo. Ninguém morreu, ainda estou inteira.
O filho reagiu pior. Entre um chorrilho de insultos, Leonor teve de lhe pedir para parar, que não fizesse mais drama. Ficaram combinados, o Vasco viria ao fim de semana.

Depois de falar com os filhos, respirou fundo. Ao passar no espelho do corredor, apanhou-se a olhar para si: uma mulher mais velha, de roupão, sem maquilhagem, de rosto inchado de chorar. Ficou a pensar: “Assim não admira que ele tenha preferido uma mais nova, já nem cuido de mim… As prioridades sempre foram os filhos, o marido, agora os netos E eu?!” Lembrou-se do último ano, demasiado intenso: a gravidez difícil da filha, o neto recém-nascido, problemas da casa. O Joaquim, tantas vezes a jantar sozinho, fins de semana a sós. Foi aí que arranjou tempo para outra mulher Percebeu que, ocupada com as preocupações do dia-a-dia, não viu quando ele se afastou.

Os dias passaram penosamente para Leonor. Inicialmente doía muito. Depois, doía menos. Pediu aos filhos para não se zangarem com o pai. “Ele pode ser um mau marido, mas é um bom pai e adora os netos. Isso é o que importa.” Precisava de todos. Em pouco tempo, arranjou trabalho. Emagreceu, mudou de penteado. Aos poucos, voltou a sorrir. A vida segue, não se pode parar.

Seis meses depois, um número desconhecido ligou. A voz do outro lado, esquecida, mas ainda familiar.

– Leonor minha querida Perdoa-me, volta para mim, fazes-me tanta falta. Passei os primeiros meses como numa sombra. Quando fecho os olhos, só te vejo a ti. Deixas-me voltar? implorava Joaquim.
– Não. Vai ter com a tua nova paixão, têm tanto em comum. Eu cá arranjo-me. respondeu ela, firme, e desligou.

Começou então a fase das chamadas diárias. Joaquim pedia, jurando amor eterno:
– Leonor, já não somos jovens. Para que serve tanta zanga? Fui parvo. Amo-vos a todos, filhos, netos
– Ama à vontade, Joaquim. Os filhos e netos são teus. Eu é que não posso perdoar. A tigela partida, por mais que tentes, nunca fica igual. cortava ela, inflexível.

Os filhos acabaram por apelar por ele:
– Oh mãe, ele está mesmo em baixo. Toda a gente erra! Dás-lhe uma oportunidade? pedia a Matilde.
– Pois é, mãe. Engolias o orgulho. Também sei que ainda gostas dele… insistia o Vasco.
– Não peçam. Não posso. Ficava sempre a lembrar-me da traição.

E assim vivia Leonor. Trabalhava, tratava da casa, conversava com os filhos e cuidava dos netos. Tudo sem Joaquim.

Ele, entretanto, separou-se daquela por quem achava ter tanto em comum e regressou à casa da mãe, em Santa Maria da Feira. Morria de saudades, arrependido.

Num belo dia, Joaquim decidiu tentar tudo. Vestiu-se a rigor, foi até à antiga casa. Bateu à porta, mas ninguém atendeu. Leonor tinha ficado de turno naquela noite. Sentou-se na varanda, exausto, e acabou por adormecer profundamente. Talvez a casa lhe desse algum conforto.

Leonor regressou ao nascer do dia. Mal avistou Joaquim, pareceu-lhe ver um cadáver: rosto pálido, imóvel. Tocou-lhe no ombro, nada. Sacudiu-o, nada. Entrou em pânico:
– Ai meu Deus… Joaquim, amor, o que é que me foste fazer? E agora, como é que eu vou viver sem ti?… exclamava, desabando a chorar em cima dele.

De repente, Joaquim segurou-lhe os ombros e começou a cobri-la de beijinhos.
– Então sempre gostas de mim, Leonor! Amo-te tanto. Desculpa tudo perdoa!
– Seu aldrabão! Quase me mataste de susto! Pensei que tinhas morrido, que vinhas aqui para te despedires para sempre! e dava-lhe palmadas, meio a rir, meio a chorar. Andaste muito perdido, não foi? Pronto, volta lá para casa, homem…

A partir de então, Leonor e Joaquim fizeram as pazes e voltaram a partilhar a vida, aprendendo a valorizar-se ainda mais. Compreenderam, por fim, o que custa perder quem mais se ama. Perceberam também que aprender a perdoar pode ser a chave para uma vida mais leve guardar orgulho de nada serve, e quem sabe perdoar encontra espaço em si para recomeçar. E, acima de tudo, é preciso dar valor ao que se tem no presente, não ao que se perdeu. Porque a vida pode sempre surpreender, mesmo depois das maiores tristezas.

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