– Mãe, vais dar o nosso apartamento ao filho do teu irmão? E depois vir morar comigo? Não vou deixar!

Querido diário,

Mãe, vais mesmo querer doar o nosso apartamento ao filho do teu irmão? E depois vir morar aqui comigo? Jamais deixarei isso acontecer!
Nem se te vier à cabeça! Mãe, estás a delirar? Ouves-te a ti própria? Ele vaite mandar logo embora, não percebes?

Lurdes, não discutas comigo! Decidi assim!

No início, a minha mãe tentou manter a postura, demonstrar independência e firmeza nas próprias palavras. Mas acabou por desabar em lágrimas, pois no fundo sabia que estava a ser injusta com a filha.

O facto era que Tiago, o meu irmão mais novo, sempre fora o seu preferido. Aconteceu assim: a Olívia nasceu quando já passava dos trinta anos; eu, por outro lado, fui criada cedo, quase à força da vida.

Por isso a sua atitude comigo era tá feita, diziase. Acristalouse que, apesar de ter completado a universidade, a minha mãe ainda se sentia obrigada a cumprir uma promessa de terminar o curso que fez anos atrás.

Tiago, entretanto, foi planeado para chegar à idade adulta depois de se casar pela segunda vez e de desfrutar da maternidade (ou melhor, da paternidade). Eu observava tudo isso, mas não entendia por que a mãe partilhava tão abertamente a sua preferência pelo irmão.

Normalmente os pais tentam esconder essas inclinações, mas a Olívia não disfarçava nada: Tiago está mais perto de mim. E ainda me perguntava, surpreendida, por que entre irmão e irmã nunca houveram laços calorosos. Estranho, não? Haveria, talvez, razões por trás disso.

Tiago, desde pequeno, recebia tudo o melhor. Enquanto eu tinha de me contentar com o que havia e nem ousar queixarme, ele tinha sempre mais dinheiro. É homem, tem de ser assim, diziase. O fato de ser alguns anos mais novo que eu nunca foi motivo para mudar esse tratamento.

Lembra, Tiago, quando crescer vai sustentar a própria família. Enquanto isso, devo ajudálo!
Mãe, e eu?
Tu? O teu papel é casar bem e agarrarte a um marido afirmava a mãe, enquanto passava o prato à mesa.

Eu repus: não pretendo depender de um homem; quero crescer como pessoa, inclusive profissionalmente.
Que absurdo! Falas de honra! Não te parece ridículo?
O que há de tão ridículo?
Pelo menos ninguém na nossa família pensa assim.

Então serei a primeira.

Não compreendia a lógica da mãe e recusavame a seguir o seu caminho. Por esse motivo, logo arrumeime numa habitação alugada. Foi como respirar ar puro; viver sob o mesmo teto com Tiago e a mãe tinhase tornado insuportável, sobretudo à medida que envelhecia.

O tempo passou. Cinco anos depois, consegui comprar um apartamento com financiamento a juros baixos e já o estava a pagar. Tiago ainda vivia com a mãe, mas já tinha trazido a esposa para o mesmo lar. Alguns meses depois chegaram ao mundo o primeiro bebé do casal.

Olívia sempre se acomodou àquilo que tinha, mantendo essa postura até recentemente.
Imagina, filha, a nossa vizinha acabou de comprar uma máquina de lavar loiça. Não sozinha, claro os netos deram-lhe o presente.
Que bom.
Eu também gostaria, mas tenho medo de me comprometer!

Porquê?
Porque o Tiago está a passar por dificuldades no trabalho; cortarão-lhe o contrato e terá de procurar outro, enquanto a esposa, a Carla, está de baixa parental e recebe quase nada.

Tiago tem outra característica: não gosta de dividir o dinheiro que tem. Ele vive à custa da ajuda da mãe, como se os mantimentos surgissem por magia no frigorífico.

Um dia, ao atravessarmos o supermercado, vio a escolher pipocas e batatas fritas antes de um jogo de futebol.
Onde é que vem essa atitude? não aguentei, perguntei.
De que te queixas? respondeu ele, desviando o olhar.
Ajuda a mãe! A pensão dela não é de brincadeira, ela compra tudo com o próprio bolso!
Ele olhou para o lado, reconhecendo que eu tinha razão.
E tu? Não vives connosco.
Lamento a mãe!
Lamenta-te a ti mesma. Não tens família, nem marido. Ela anda por aí a fazer misericórdias à própria maneira!

Ele virouse e saiu; eu permaneci ali, atónita. Tiago sabia exatamente onde acertar o ponto sensível e usouo a seu favor.

Aos trinta e cinco anos, ainda não casara. O meu antigo namorado, com quem saí durante alguns anos, traiume, e desde então não me sentia preparada para novos relacionamentos.

Posso ajudar, moça? perguntou a empregada da loja.
Não, obrigada.
Eu sabia que fazia o certo. Tiago já não era mais um adolescente; era marido e pai de um recémnascido, e portanto responsável pelos próprios encargos, não para viver às custas da mãe.

Lurdes, como te atreves a dizer tal ao teu irmão? começou a Olívia, irritada.
Mãe, só falei a verdade e defendite.
Pedite isso? Por causa tua, o Tiago gritou por todo o apartamento, e temos um bebé! Não percebes?
Por minha causa? Que papel tenho eu?
Fiquei sem reação àquela explosão.
Nem devias ter falado assim. Sabes como ele é vulnerável.

A mãe nunca considerou os sentimentos da filha, que tanto a amava. Mesmo quando tentei protegêlo, acabei por ser culpada.

Passaramse seis meses sem que eu falasse com eles. De repente, recebi um telefonema da mãe pedindo que voltasse ao apartamento. Nada mudara lá; a máquina de lavar loiça ainda não tinha sido comprada.

Onde está o Tiago e a Carla?
Convidados para o aniversário da irmã. Eu estou aqui com o neto, Sashi. Queres um chá?
Não, mãe, não quero. Parece que queres falar comigo.
Sim, tomei uma decisão muito importante. Quero doar este apartamento ao filho do meu irmão.

No primeiro instante, pensei que fosse uma piada da mãe ou um teste da minha reação.
Quero dizer, vais doar o apartamento que partilhamos ao sobrinho do teu irmão? Mãe, estás a delirar?
Lurdes, não discutas! Decidi assim!

Claro que tentei explicar que aquela decisão traria sérias consequências, mas Olívia mantevese firme.

Além de servir toda a família aqui, ainda pretendes transferir a propriedade?
Não, só estou a ajudar.
E a Carla, o que faz?
Está a cuidar do bebé. Vai ser mais difícil do que qualquer outro trabalho.
Foi a Carla que te contou? Vejoa sempre a publicar nas redes sociais.
Não percebes nada, Lurdes! É porque não tens filhos que julgases tudo assim.

Percebi que não deveria ter vindo. Seis meses sem contato e nada mudou.

Vejo que chegaste de carro novo. Foi a crédito? perguntou a mãe.
Não, comprei à vista.
Mesmo assim, não ajudaste o Tiago. Sabes que o despediram e ainda procura emprego, está apertado financeiramente.

Continuava a surpreenderme a lógica da mãe. Afinal, Tiago é adulto e um dia terá de assumir a sua própria família.

O que insinuas?
Não insinúo, digo diretamente. Poderias comprar uma cama nova para a criança, pois tivemos de usar a velha. E eu preciso mesmo de uma máquina de lavar; as mãos já doem a lavar a louça.

Tenho tempo, mãe.

Saí para a porta, mas a mãe ainda protestava.

Antes de fechar, fizlhe uma única pergunta.
Mãe, se transferires o apartamento para o filho dele, vão expulsarte. Onde ficarás então?

Olívia, como sempre, recusouse a ouvir a filha.

Ah, Lurdes, que teima! O neto Sashi é o único neto que tenho! Nunca terás netos e, ao que parece, jamais casarás. Não me surpreende; o teu carácter é mau, só pensas em ti!

Essas palavras apagaram todo o desejo de provar algo à mãe. Se eles são tão perfeitos, que comprem eles a máquina de lavar loiça. Eu me virarei para a minha vida. Não foi fácil, mas não tenho outra saída. Olívia já fez a sua escolha há muito tempo.

E assim é Quem semeia ventos, colhe tempestades. A velhice já se aproxima, e tudo o que nos resta é aceitar o que plantámos.

Até a próxima, querido diário.

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