— Aguenta, filha! Agora estás em outra família e deves respeitar as regras deles.

Aguenta, filha! Agora fazes parte de outra família e tens de respeitar as regras deles. Casaste, não foste só de visita.
Que regras, mãe? Elas são um caos! Especialmente a sogra! Ela odeia-me, isso está à vista!
Já ouviste alguma sogra ser bondosa? perguntei, lembrando das histórias que ouvi quando era menino.

Está a passear! Está a passear! Que abusos! exclamou Maria da Conceição, de pé no meio da cozinha, o rosto encarnado de ira e os olhos a arder. Se o marido se anda a passear, a culpa é da mulher. Que mais tenho de te explicar?

A sogra estava furiosa. Gritava contra a nora Madalena como quem fosse lâmpada queimada. Tudo porque Madalena suspeitou que o filho, o marido dela, Bruno, a estivesse a trair.

Madalena, jovem, frágil, com olhos grandes e inocentes, afundava-se contra a parede, tentando acalmar a senhora enfurecida.

Maria da Conceição, isto é exagerado. Ele tem família, filhos tentou argumentar Madalena, mas a sogra cortou-a com um gesto, como quem afasta uma mosca irritante.
Família? Ou será a tua criancinha que nos impede de estar juntos? retrucou a sogra, desprezandoa. E a tua educação, então?

Que educação, Maria da Conceição? O Tiago tem apenas um ano. Ainda é muito pequeno, protestou Madalena, a voz a tremer.
Pequeno? fez a mulher, franzindo a testa. O neto dos Rodrigues ainda é menor. E ainda anda às mãos, sem aprender nada, como esse teu abanou o braço na direção da casa das crianças.

Na verdade, ele é teu neto respondeu Madalena, ainda trêmula. As crianças sentem as más pessoas. Talvez por isso ele não se aproxima de ti.

Somos nós os maus? Só um bicho de carga! a sogra elevou a voz. E onde vives, minha querida, a viver à custa dos outros? De quem comes? De quem gastas o dinheiro? Ingrata!

Madalena já não queria mais discutir com a sogra. Já tinha dito mil vezes a Bruno que queria viver separado dos pais, mas o filho mimado, filho de mãe, não via necessidade nenhuma.

Ele gostava de viver na casa dos pais. Sentiase lá como quem está dentro da capa de Cristo. Ia ao trabalho tranquilo, enquanto os problemas domésticos eram resolvidos pelos avós a lavar, a limpar, a cozinhar. Não era vida, era conto de fadas!

Por outro lado, a sogra de Madalena, a tal Maria da Conceição, fazia perguntas como quem faz um interrogatório completo. Primeiro, Madalena tentou de tudo estabelecer contato com a sogra. Ajudavaa nas tarefas, apoiavaa em tudo, até escutava as suas reclamações intermináveis sobre a vizinhança. Mas, com o tempo, percebeu que tudo era em vão.

Por mais que quisesse ser boa e útil, a nora odiavaa e não se esforçava para esconder isso.

Trouxe esta pateta à casa, como se não houvesse meninas normais contava Maria da Conceição à vizinha, enquanto Madalena recolhia, ao canto da casa, os brinquedos espalhados por Bruno, ouvindo tudo.
Até o povo da aldeia ia atrás dela! As nossas avós são muito melhores, mais trabalhadoras e mais inteligentes.
Nem me digas! respondeu a vizinha, a fofoqueira Manuela, que já tinha lavado a cabeça de todo o vilarejo.
Eu sei que não sabes fazer nada. E tu, Conceição, sempre disseste que as tuas mãos não são boas para nada. Não consegues pôr ordem numa coisa.
Nem imaginas o tamanho do problema! Não lhe dás confiança alguma. Ou perde, ou quebra. E a criança não é nada.
O neto dos Rodrigues é outra história. Um rapaz calmo e inteligente. Este aqui só faz birra, parece que os genes não ajudaram.

Quando a situação se tornava insuportável, Madalena ligava à mãe, que vivia na aldeia vizinha, e desabafava, chorava. A mãe respondia:

Aguenta, filha! Agora fazes parte de outra família e tens de respeitar os costumes deles. Casaste, não vieste só de visita.
Que costumes, mãe? São um caos! A sogra, sobretudo! Ela odeiame, está claro!
Já ouviste alguma sogra ser bondosa? Todos passámos por isso, e tu também terás de passar. O importante é não deixar transparecer o quanto está a ser difícil. Aguenta.

Percebendo que a mãe hesitava em ajudar, Madalena ameaçoua que chamaria o pai.

Pede ao teu pai que nos ajude! disse a mãe, assustada. Ele tem um prazo condicional. Um passo em falso e vão prender o teu pai!

Madalena sabia disso. O pai, Nicolau, adorava a única filha que tinha. Cumprira a sua pena condicional por um pequeno roubo que fez quando alguém ofendeu Madalena na mercearia da aldeia.

Sabia também que o pai não ficaria calado se descobrisse que a filha estava a ser maltratada na casa de Bruno. Era um homem de temperamento quente.

Não vou contar ao pai respondeu Madalena. Mas se continuarem assim, se a sogra agir assim não sei o que farei.

Tudo vai se acertar, filha repetia a mãe, tentando acalmar a situação. Dentro de algumas semanas nem te lembrarás desta conversa.

Madalena não queria lembrarse da sogra, mas a relação só piorava. Maria da Conceição parecia ficar ainda mais rancorosa, como se Madalena fosse a responsável por todos os seus infortúnios. Até o marido, Tiago, um velho cansado, não suportava mais.

Por que gritas tanto com a moça? disse Tiago numa manhã, quando o conflito já atingira o auge. Ela vai sair de nós! E tem razão!
Eu a tiro daqui! bradou Maria da Conceição, lançando toda a sua fúria contra o marido. Vou à justiça, devolver cada euro que gastámos nesses anos! E levo a criança dela para que não cresça numa família assim!

Madalena sabia que a sogra falava disparates, mas ainda tinha medo. Ainda amava Bruno.

Os rumores de que Bruno, às escondidas, se encontrava com a exnamorada de infância, Olga, eram nada mais que fofocas rurais que sogras como Maria da Conceição espalhavam pelo vilarejo.

Ninguém sabia quanto tempo continuariam as humilhações da sogra se não fosse a língua afiada da própria. Num dia, depois de outra vitória contra a nora, a sogra regozijouse ao contar os feitos à melhor amiga, a avó Manuela. Acrescentou sempre algo novo, embelezou a história, contou a outro vizinho, ao marido e assim a lenda da nora estúpida chegou ao pai de Madalena.

Nicolau, um homem robusto, quase dois metros, ombros largos, não era de papo furado. Pegou a sua machado, ainda quente de cortar lenha, calçou a velha moto Ural, e, sem dizer palavra à esposa, partiu para a aldeia vizinha rescatar a filha do aprisionamento humilhante.

Nesse instante, na casa de Maria da Conceição, eclodiu um escândalo de verdade. A jovem mãe, por um instante, deixou o bebé Vítor num sofá amarelolaranja novinho, para buscar fraldas frescas. Quando regressou, encontrou uma mancha castanha sob o bebé. Mas, aos olhos da sogra, aquela mancha cresceu como um buraco negro, pronta a engolir toda a casa. Apareceu como uma tormenta, a gritar contra a nora.

Estragaste o sofá! O meu favorito! Sabes quanto custou? Eu rasgaria os teus braços e depois costurava onde fosse preciso!
Vou consertar tudo. Vou limpar tudo implorou Madalena, com as mãos trêmulas, segurando um pano.
O que vais limpar? É novo! Como sabes? Nunca gastaste o teu próprio dinheiro!
E vocês, compram tudo às custas dos outros? explodiu Madalena, e naquele momento ousou reprovar a sogra por viver à sombra do marido.

Olha para ela! Bastasse ousadia para insultar a sogra! o rosto de Maria da Conceição corou.
Agora limpa a mancha e depois vai ao apartamento com o teu filho! Vão viver aqui e incomodar até aprenderem a se comportar!

Madalena, chorando, tentava remover a mancha. O ponto castanho na espuma amarela recusavase a sair, zombando da sua impotência. O pequeno Vítor, ao sentir a ansiedade da mãe, chorava a plenos pulmões, aumentando ainda mais a tensão.

Maria da Conceição permanecia sobre a cabeça de Madalena, despejando insultos como se fossem chuva de granizo. Nem percebeu que, na porta, surgira uma figura estranha. Era Nicolau, o pai de Madalena, de pé como uma estátua, o cabo da machado firme na mão.

Num instante, Maria da Conceição sentiuse observada, virouse e viu o machado.

Sabia que Nicolau era um homem de temperamento ímpeto, conhecia o seu passado e a sua pena condicional. Um calafrio percorreu a mãe da sogra.

Oh, Nicolau! Eu estava a criar a tua filha disse ela, tentando manter a compostura.
Ouvi o que fazes com a tua filha respondeu Nicolau, a voz grave, entrando na sala só de chinelos.
Ergueu o machado acima da cabeça, forçando Maria da Conceição a fechar os olhos e recuar. Mas, em vez de desferir o golpe, pousou a ferramenta no ombro e estendeu a mão à filha.

Vamos, Madalena, não tens nada aqui a fazer disse ele, conduzindoa para fora.

Espera, sogro! gritou Maria da Conceição, recuperando o fôlego, tentando retomar o controlo. O que direi ao meu filho?

Deixa o teu filho vir a mim, buscar a esposa, que eu falarei com ele como homem de verdade respondeu Nicolau, com um olhar frio que dizia tudo.

Levaram Madalena e o pequeno Vítor. Bruno hesitou muito em vir buscar a esposa e o filho, temendo o confronto com o sogro. Mas acabou por ir.

Nicolau conversou longamente com o genro. Não ameaçou, não gritou; a sua voz serena, o machado apoiado sobre a mesa, davam peso às palavras.

Prometeu a Bruno que viveriam separados, que a mãe dele não interferiria mais e que protegeria a nora e o neto, sem deixar nenhum insulto passar.

Quando Nicolau apertou a mão de Bruno, este percebeu que brincadeiras com aquele homem eram perigosas e que todas as promessas teriam de ser cumpridas.

Desde então, Maria da Conceição evitou a nora e o neto. Não os cumprimentava nas ruas, nem os reconhecia.

Bruno e Madalena mudaramse para a sua própria casa. A vida ficou em harmonia, em entendimento. Quem diria que os conselhos do sogro, ou talvez o simples amor, teriam sido o que realmente importava?

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