– Se soubesses o que a minha irmã faz em Lisboa, nem sequer a lembrarias. E ainda assim não te gabarias.

Querido Diário,

Hoje ouvi a vizinha Olívia a vangloriarse ao passar pela porta da minha rua. A filha que eu tenho é um gênio!, dizia ela, com aquele sorriso de quem tem orgulho de tudo que brilha. Fechou o semestre com cinco notas dez! E ainda arranja bicos, sem nunca pedir um cêntimo a ninguém!

Fiquei a observar, mas quando a outra vizinha, a Marta, comentou, o tom mudou. Invejo-te, Olívia! Os meus filhos só sabem pedir dinheiro e não querem estudar. A Inês já disse que, logo que acabar a universidade, vai casar logo, esperando que o marido lhe dê sustento. E o filho ah, nem sei por onde começar, exclamou, abanando a mão em desânimo.

Lá no canto, quase que sussurrando para mim mesmo, ouvi o meu irmão Miguel murmurar: É, a verdade é que a irmã que vive na capital faz coisas que eu nem imaginava. Ele ainda ajudava a mãe nas compras, pois o pai estava de serviço. Hoje, com a responsabilidade de levar as bolsas, Miguel sentia o peso de ser o cabeça da família, ao menos enquanto o pai estivesse fora.

Olívia me encarou, a voz carregada de irritação. Disse algo?, perguntou, como se eu fosse capaz de esperar cinco minutos por uma resposta. Eu, calmo, respondi: Mãe, preciso preparar a apresentação para amanhã e terminar um ensaio. Podemos conversar outra hora?

Ela, sem paciência, bateu a porta e saiu, deixando as vizinhas ainda a comentar sobre a filha, como se Inês fosse o padrão de perfeição a que todos deviam aspirar. Eu sabia a verdade, mas guardeia para mim, não querendo preocupar a mãe.

Mais tarde, uma senhora de ar altivo abordou Olívia na escadaria. A sua filha Inês vive aqui na capital?, perguntou, com um sorriso que não escondia a curiosidade. Dois homens atrás dela, ainda de terno, observavam a cena com olhos críticos.

Olívia, com o peito inflado de orgulho, respondeu: Sim, está na Universidade de Lisboa. A visitante riu, mas logo mudou o tom. Na universidade? Inês? Você fala sério? Ela fugiu depois da primeira prova, não conseguiu passar nenhum exame. Claro, porque não ia às aulas estava à procura de um romance.

Olívia, visivelmente irritada, replicou: Como ousa difamar a minha filha! Vou levála ao tribunal por difamação!. O barulho das portas dos vizinhos feza calar. O filho de Olívia, Miguel, interveio: Não há necessidade de alimentar chismes, mãe. Deixaos passar.

Mas, Miguel!, implorou a mãe.
Deixaos ir, respondeu ele, já parecendo o adulto que tem dezesseis anos, mas carregado de responsabilidade.

Miguel conduziu os convidados ao salão, indicando o sofá. A senhora sentouse num confortável cadeirão, enquanto os dois homens permaneciam em pé, desconfortáveis. Olívia, ainda irritada, gritou: Miguel! Como ousas convidar estas pessoas? Sabes o que disseram da Inês!

Ouvi, por isso deixeios entrar, retrucou Miguel, num tom resignado. Enquanto o pai estava fora, ele assumia o papel de chefe de família, tentando minimizar os danos.

A conversa seguiu, e Miguel tentou revelar o que sabia: Inês mora num apartamento alugado, pago pelo namorado. Ele tem cerca de vinte anos a mais, três filhos adultos e é muito rico. Quando a senhora perguntou se o namorado se chamava Guilherme, Miguel hesitou: Sou eu que conheço a irmã que está a procurar, mas não sei o endereço exato.

A mulher, revelando ser irmã de Guilherme, respondeu friamente: Ele tem uma esposa maravilhosa e a filha do nosso parceiro de negócios. Ele não tolera outras mulheres por perto. Ela ameaçou divorciarse se isso acontecesse novamente.

Miguel, confuso, tentou acalmar a situação: Não sei onde está a minha irmã, mas a amiga dela talvez saiba. Preciso saber os vossos planos primeiro. Olívia, já pálida, perguntou: O que está a acontecer com a minha filha? Onde está?

Miguel correu até a casa de banho, onde a mãe guardava os comprimidos. Precisamos de chamar uma ambulância?, sugeriu a senhora, sentindose culpada.

Claro que chamei a ambulância. A enfermeira Carla chegou em cinco minutos, provavelmente vinda da farmácia da esquina.

Olívia, ainda atônita, murmurou: Miguel como sabes tudo isso?. Ele explicou: Quando Inês saiu pela última vez, o telemóvel quebrouse. Ela usou o meu portátil para falar com a amiga e não saiu do perfil. Li as mensagens, nada negou, só pediu para não contar a ninguém.

Senti uma dor profunda por minha mãe. Ela é uma pessoa boa, mas tem esse hábito de se vangloriar das conquistas dos filhos, o que a faz ruborizar sempre que menciona os meus diplomas e medalhas.

Alguns minutos depois, enquanto Olívia era encaminhada para o hospital, voltei ao salão. A senhora ainda queria saber os planos para Inês.

Nada de especial. Vou dar algum dinheiro e apresentála a pessoas solteiras, para que encontre um bom marido, respondeu, tentando ser polida.

Certo, já lhe dou, respondi, entregando um papel. Espero que cumpra o que prometeu.

Ao sair, a mulher exclamou alto, como se os vizinhos que passavam pudessem ouvir: Desculpem o alvoroço, foi a única maneira de conversar sem ouvintes indesejados. Não quero mais rumores. Se houver alguma fofoca, peço desculpas à Inês pessoalmente. Aqui ainda há gente boa que não gosta de espalhar mexericos.

Os rumores surgiram, mas eram fracos. Olívia tentou silenciálos, pedindo que não se falasse do nome da filha. Ela acabou falando menos e raramente saía de casa.

Miguel conversou com o pai, e decidiram mudarse. Olívia ficou mortificada por ter enganado os vizinhos durante tanto tempo.

Num dia ensolarado, a família mudouse para um novo apartamento, mais perto de Lisboa, onde, segundo Miguel, há bons médicos e, finalmente, a saúde da mãe melhora.

Inês nunca mais voltou; ela casouse rapidamente e esqueceuse da família.

Agora, ao fechar este registo, sinto um misto de alívio e tristeza. As palavras ficaram no ar, mas a vida segue.

Até a próxima, Diário.

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– Se soubesses o que a minha irmã faz em Lisboa, nem sequer a lembrarias. E ainda assim não te gabarias.