As minhas regras
Ainda bem que vieste, João! disse Dona Catarina, sentando-se à frente do filho, apoiando o queixo nos punhos pequenos e sorrindo-lhe. Tinha tantas saudades tuas. Anda, come, querido. Queres mais um croquete?
João abanou a cabeça, recusando.
Não gostaste? perguntou a mãe, alarmada, endireitando-se. O rosto pequenino ficou tenso, as sobrancelhas erguidas. Fiz tudo como sempre E eu disse ao teu pai que tu não comes carne de porco, avisei! Tem algum sabor estranho?
Dona Catarina ficou inquieta. Esperara tanto pela vinda do filho, cozinhara como se fosse receber um batalhão, pronta a alimentar, confortar e mimar todos. E agora, um contratempo: os croquetes não agradaram ao filho
Não, mãe, não comeces! Está ótimo, mesmo! Só já não consigo comer mais.
João pousou delicadamente o garfo, demasiado pequeno e frágil na sua enorme mão de alarve, ajeitou o guardanapo minúsculo, que parecia retirado de um conjunto infantil. Era até estranho como de uma mãe tão pequena como Dona Catarina nascera um homem daquele tamanho. Mas saíra ao pai, António. Homem forte, largo de ombros. Catarina ao lado dele parecia sempre uma rapariguinha.
Estava tudo delicioso, como sempre! levantou-se, aproximou-se da mãe, afagou-lhe os ombros, como quem lhe põe um casaco quente. Sentiu-se imediatamente em paz, segura. Então, o que querias falar comigo? Diz lá, que tenho de ir já. Eu e a Margarida íamos ao shopping comprar roupa para o Frederico.
Margarida, como ele gostava de chamar, era a sua esposa, mulher organizada, sensata e muito bonita.
Foi logo de início: avistou-a na rua, distraiu-se de tal forma que foi contra um poste. Abriu-se-lhe a sobrancelha, começou a sangrar. Margarida, com os olhos arregalados, olhou para aquele burburinho. João ali ficou, a esfregar o poste, preocupado se o tinha danificado
Depois seguiram juntos para o centro de saúde. Margarida, ingénua, novinha, perguntava-lhe se sentia tonturas, segurava-o pelo braço. Que poderia ele responder? Claro que sentia Com uma mulher assim ao lado, como não?
Casaram-se. Agora têm o Frederico, Margarida trabalha como terapeuta da fala, recebe frequentemente alunos em casa, o que é ótimo, assim sobra tempo para as lides domésticas. João parte cedo para o trabalho, deixa o filho na escola, e não numa escola qualquer; a Margarida arranjou-lhe vaga num colégio para pequenos cientistas. Vivem bem, em harmonia, ocupados mas felizes.
E a Margarida, por que não veio? perguntou Catarina enquanto limpava a mesa. Sabia que a nora dava aulas privadas mesmo ao fim de semana, mas fazia tempo, sem coragem de pedir ajuda ao filho.
Já disse, mãe, hoje tem dois alunos. E o Frederico, João adorava chamá-lo de senhor Frederico, ficava tão importante está a estudar para os testes. Então, conta lá!
Pegou nas chávenas da mãe, com o máximo cuidado, como se fossem de cristal, pô-las no lava-loiça e virou Catarina para si, olhando-a nos olhos: Mãe, estás a assustar-me. O que se passa com o pai? Porque está ele trancado no quarto? Meteram-se num empréstimo, foram enganados? Penhoraram a casa, um rim e todos os órgãos disponíveis? Alguém vos anda a ameaçar? Descobriram o meu irmão gémeo perdido na maternidade?
João sorria, satisfeito com as próprias piadas. O mundo à volta também lhe sorria, o dia brilhava com a energia da primavera.
Seguiu o gesto da mãe e sentou-se, passando as mãos pela barriga, esticou os braços, batendo com a mão no móvel da cozinha. Só aí pensou: este apartamento é tão pequeno Nada a ver com o que tem com a Margarida: três quartos, varanda, cozinha espaçosa. Sobra espaço para todos. O apartamento ficou-lhes dos parentes da Margarida, que tinham recebido a casa em tempos por serviços académicos e depois partiram para o norte, em busca de ar puro e sossego, deixando o imóvel à Margarida, enviando-lhe, no outono, batatas, beterrabas, topinambur misterioso e sempre, sempre astromélias em condições. Flores do outro mundo! As flores e os sacos chegavam no furgão do tio Estêvão, antigo proprietário. João nunca percebeu porque gostava tanto da Margarida. Mas respeitava-o, ajudava-o sempre que o carro avariava. Pela casa desfilava de calções com palmeiras, contente com a vida.
Na verdade, queria pedir-te uma coisa Dona Catarina ganhou fôlego, hesitou, puxou-lhe um pratinho de broas. Lembras-te da Dona Amélia?
João crispou-se, levantando uma sobrancelha.
Claro, mãe! assentiu finalmente. As broas cheiravam a mel, massa doce, açúcar. Não resistiu: levantou-se, serviu-se de mais um chá e pegou na maior, decorada com azulejos e a torre dos Clérigos.
Pois deram à Dona Amélia uma vaga no hospital central, tem de tratar dos olhos, vai ser operada Não sei o diagnóstico certo, mas é complicado
João mastigava e ouvia. Dava-se ao trabalho de lembrar-se da vizinha, que tanto ajudava a mãe, tomando conta dele em pequeno. Dona Amélia sempre usou uns óculos enormes, arredondados, que lhe engrossavam os olhos, e as pestanas batiam nas lentes como asas de borboleta.
Então? apressou, já que a mãe, nervosa, varria migalhas da toalha típico quando se sentia ansiosa.
Será que ela podia ficar a viver convosco durante o tratamento? Alugar casa é caro, hotel impossível e não pode estar sempre a viajar. Não tem forças para isso Eu sinto-me-lhe devedora, ela ajudou-me tanto, foi quase uma segunda mãe para ti.
João parou de mastigar, bebeu mais um gole de chá, limpou a boca ao guardanapo, encolheu os ombros.
Bem Bem murmurou. Ter Dona Amélia como vizinha temporária não estava nos seus planos; teria de guardar os calções com palmeiras E a Margarida já não iria à cozinha de robe à noite beber chá. Mas se fosse preciso, teria de ser. Claro, mãe! Com certeza pode ficar. Ajudou-me tanto, agora é a minha vez! sorriu João, sentindo-se elevado, generoso, digno de orgulho. A mãe e a Margarida iam sentir orgulho. Dona Amélia merece cuidado nesta idade!
E lá fora, como um halo sobre a sua cabeça, o sol brilhou. Os olhos da mãe iluminaram-se de felicidade, e os sinos da igreja à esquina tocaram acordes alegres.
É mesmo verdade, João? Que gesto bonito! Que orgulho ter um filho assim, tão sensível
Ela afagou-lhe o cabelo, como em criança.
Se a Margarida ali estivesse, já faria um esgar, imitando a sogra. Sempre gozava um pouco com a devoção de Catarina ao filho.
Mas não estava, e João permitiu-se sentir-se o menino de novo, elogiado pela mulher mais importante da sua vida.
João amoleceu, pousou as mãos na mesa.
Mas Mas é melhor perguntar à Margarida murmurou a mãe, temerosa de que a nora não gostasse da ideia. João murmurou algo sobre a Margarida não se opor, e encostou-se à mão da mãe, quase adormecendo com o conforto, orgulhoso da sua generosidade Vou então chamar a Dona Amélia e logo se combinam as coisas.
Dona Catarina saiu aflita da cozinha, o pai folheava o jornal no quarto. João, remexendo os lábios, retirou o telemóvel e ligou à mulher.
Margarida escutava, retocando a maquilhagem.
E por quanto tempo? perguntou ela, por fim.
Duas semanas, penso eu. Margarida, temos de ajudar Uma operação e não tem onde ficar.
João, mas ela não fica internada? começou Margarida, mas o marido interrompeu-a.
Sim, claro, mas depois tem de continuar as consultas, avaliações Morar longe ia ser complicado! Mar, tu és uma anfitriã maravilhosa, a Dona Amélia é uma senhora organizada, querida. Vão dar-se bem e
Sinceramente, João Isso não me agrada. Lembro-me dela no nosso casamento, olhou-me de cima para baixo, nem sequer tentou disfarçar. Não gosta mesmo de mim, a tua tia Amélia!
Não é Amélia, é Dona Amélia! Gosta tanto de ti! E até pode ajudar o Frederico
O Frederico tem dezasseis anos. Que precisa ele da ajuda da tua ex-ama? ironizou a Margarida, a fazer beicinho.
Ora, de tudo, Mar. Ela tem experiência de vida João esforçava-se por explicar. Não és contra, pois não?
Margarida era realmente contra, mas não teve coragem de dizê-lo, não queria magoar o marido.
Está bem. Quando chega?
Do outro lado ouviu mexericos e depois João disse: no domingo.
Neste? Ou seja, amanhã? olhou em redor, para o caos do lar. Era a desarrumação própria de uma família real, mas insuportável se fosse para ser vista por estranhos!
E ninguém, a não ser ela e os da casa, algum dia a vira. Os alunos de Margarida ficavam-se pela sala de jantar. Para visitas sérias, era limpeza geral, do chão ao teto. Ao contrário das amigas, Margarida envergonhava-se sempre das desordens, nunca gostava de ver o casaco atirado pela manhã ou as toalhas tortas na casa de banho. Ocultava sempre as imperfeições.
E agora a Dona Amélia teria acesso a toda a casa! Ia pensar que Margarida não era boa dona de casa!..
«Chão limpo, casa arrumada cabeça arrumada!» repetia-lhe a mãe. «A primeira coisa que reparam é a ordem. E tu, Margarida, sempre tão despistada! Não consegues pendurar uma camisa ou uma saia? És uma senhora!»
Margarida fechou os olhos, abanou a cabeça, como se a mãe ainda ali estivesse, e ela, Margarida, olhava o chão, culpada, por ser desmazelada e não saber a quem saíra.
No próximo, esclareceu João.
Ah, nesse caso ainda tenho tempo suspirou ela. Vou avisar o Frederico
Havia tempo para atravessar a desorganização do lar, varrer, lavar, pendurar, esfregar, engomar, pôr a brilhar
Frederico ouviu a notícia da chegada da senhora que fora ama do pai em pequeno sem emoção. Vinha, vinha qual era o drama?
Vais ver, mãe, vive tudo normal, acabou-se o caso! João Filipe, futuro biólogo, respondeu filosoficamente à mãe atarefada a aspirar. Isto é o nosso ecossistema. Ela é um elemento invasor, vem experimentar sobreviver. Se se adaptar, ótimo. Se não, paciência.
Não é vivemos, Frederico, é deixamo-nos arrastar! Esta semana nem tenho tempo Oh, então mexe-te! Anda, pega noutro aspirador, ajuda! Não me quero envergonhar perante alguém que me vai comparar à vossa avó! Ela pensa mal de mim! Depois conta tudo à Catarina.
Avó Catarina já te conhece e não se preocupa, encolheu os ombros Frederico, indo-se embora.
Margarida, agora ainda mais nervosa, foi interrompida pelo toque da campainha: era o aluno André, redondinho como um pãozinho quente, cheio de energia. André esforçava-se com os exercícios de fala, ficava todo vermelho no esforço, sorria quando elogiam. Mas Margarida só pensava: Que raio, as janelas! Esqueci-me de lavar as janelas!
«As janelas têm de estar tão transparentes que parecem não ter vidro!», ouvia a mãe na cabeça. «Casa de dona de casa são as janelas, Margarida! Só esfregas para nada, fica tudo manchado!»
João chegou de novo a casa, desviando a atenção da esposa da limpeza, e durante o caminho até ao centro comercial só falava da Dona Amélia, como ela o criara em pequeno, enquanto Margarida acenava em silêncio.
Pai, já chegou, é a segunda mãe. Fecha a conversa! não aguentou Frederico.
E Margarida agradeceu-lhe
O domingo seguinte chegou veloz. Sábado cedo, João partiu buscar a Dona Amélia enquanto Margarida, anulando todas as sessões, preparava-se para receber a hóspede.
Frederico foi rapado, o cão Tóbi tomou banho, e as janelas brilhavam como manda a tradição.
Mar, só por volta das três é que chegamos, avisou João. Não te preocupes, faz o que quiseres. A Dona Amélia está preocupada por alterar a nossa rotina.
Tudo bem, espero-vos então para almoçar.
Para o almoço, Margarida pensara em assar frango, cozer batatas, fazer salada receber a convidada como manda a tradição.
Madrugou, mandou Frederico passear o Tóbi, entrou para o duche quente e relaxante, e cantarolou: «E sonhamos, não, não com o fumo das chaminés…». Demorou-se, acabou a música, vestiu o robe e estava a escovar os dentes quando ouviu a chave na porta. Voz do marido, voz feminina tímida, Tóbi aos saltos de alegria, Frederico num suspiro resignado.
No espelho baço, deu-se conta de como estava para receber a visita
Pronto, cá estamos anunciou João, acenando à esposa, de escova na boca, robe e cabelo todo desalinhado, enquanto ele carregava uma mala vermelha enorme, e atrás dele vinha Dona Amélia, toda risonha. Entusiasmada, elogiava a casa, o gosto de Margarida, estava maravilhada. Mas Margarida sabia que ela estava de robe, arrepiada, o frango ainda cru, as patas do Tóbi sujas. Casa suja, má dona de casa. E logo Dona Amélia com as sobrancelhas franzidas, a contornar as pegadas molhadas de Tóbi, olhando Margarida fugir, calcanhares ao vento, para se arranjar depressa.
Aqui será o teu quarto, João abriu a porta. Fica à vontade. Eu improviso algo para lanchar. Só preciso mudar de roupa.
Dona Amélia agradeceu, fechou a porta.
Porque vieram tão cedo?! sibilou Margarida, de trás do biombo. Não estava à espera! Não estava pronta! Assim, João, é ingrato. Puseste-me numa posição impossível!
João, sentado na cama, olhou para o reflexo de Margarida na porta lacada, apreciando toda a sua beleza
O quê? distraído.
Estou a perguntar porque tanto pressa! já vestida, Margarida arranjava o cabelo. Fecha-me o fecho, faz favor.
Ah a Dona Amélia tinha consulta cedo respondeu João com um aceno, quis beijar a mulher, ela fugiu.
Para quê tanto bagagem? interrogou ela.
Bem, não sei. Vocês, mulheres, são assim. Sempre a carregar tralha!
João sorriu de novo, achando-se um autêntico humorista!…
Foram comer. Margarida fez ovos mexidos, Frederico, vendo a mãe esgotada, preparou sandes para todos.
Dona Amélia apareceu por fim, analisando tudo. Ficou ao lado de Frederico.
Bom apetite. Está muito acolhedor aqui. Margarida, lembro-me de vos ter oferecido um serviço de chá, porcelana com papoilas, para o casamento não? Ou foi a outra pessoa?..
Margarida encolheu os ombros. Aquele serviço partira-se um dia depois do casamento. João tinha deixado cair a caixa inteira.
João nem se lembrava das papoilas e da porcelana.
Deve ter sido para outra pessoa, Margarida serviu café a todos.
Margarida, aqui passa corrente de ar queixou-se subitamente a Dona Amélia. Posso ir para o teu lugar?
Frederico olhou surpreendido para a mãe, que apenas encolheu os ombros.
João endireitou-se. Era o protetor, ia resolver tudo.
Mar, troca de lugar. Não queremos a Dona Amélia doente antes da operação! levantou a mulher como um banco, sentou-a ao seu lado e pôs a hóspede no lugar liberto.
Criei o João desde pequeno comentou subitamente Dona Amélia. Trocava-lhe sempre as fraldas, era tão reguila. Comia mal, mas depois passou. Um menino complicado.
Margarida engasgou-se, Frederico sorriu com sarcasmo.
Jovem, vá estudar. O João fazia sempre os trabalhos de manhã, fixava melhor. Dona Amélia levantou-se, retirou a loiça dele, e observou a anfitriã, que envergonhada nada disse.
Frederico, de chá acabado, retirou-se, magoado.
Agradecendo, Dona Amélia foi para o quarto, mudando coisas de sítio, chamou João, pediu para ajustar a televisão.
Têm poucos livros, comentou no corredor, despedindo-se de Frederico para o futebol. Era bom que ele lesse clássicos, Dostoievski por exemplo. Trouxe alguns comigo. À noite vemos o que o rapaz já conhece, João.
Sim, Dona Amélia. Tem de deixar de só pensar em futebol. João piscou ao filho, entregando-lhe o saco do equipamento.
Ele sabia que Dona Amélia levava sempre Dostoievski para todo o lado: cafés, teatro, na mesa de cabeceira. Nunca leu uma linha, provavelmente, mas assim sentia-se importante. Até no hospital levava, para mostrar a toda a gente o quanto era culta.
Despediu-se do filho, João também saiu.
A que horas sai? perguntou Margarida a Dona Amélia.
Eu? Ah, sim. Por volta da uma. Margarida, o Frederico já tem namorada? O João era tão cobiçado no liceu Já tinha meninas atrás dele desde os doze anos. E a primeira, a Rita, tão dócil, fazia tudo o que se lhe pedia. Era boa rapariga, não era? Aproveite para tirar o cão de cá. E convinha mudarem o móvel dos sapatos, atrapalha aqui. Olhe! tropeçou e caíram botas, chinelos, os sapatos de Margarida. Essas saltos não se devem usar Ora, pronto, vou andando. Obrigada por me acolherem!
Dona Amélia deu um tapinha no ombro de Margarida e saiu no elevador.
Margarida ficou ainda um pouco à porta e depois bateu-a com força
Mãe, ela já está a mandar em tudo! Até mandou o Tóbi sair do sofá e ele pode, sempre pôde! resmungou Frederico ao voltar, afagando o cão, que suspirava tristemente.
Bem Ela é assim. Gosta de mandar. Mas não fica aqui muito, Frederico. Tem paciência
Margarida envergonhada, sentia já que perdera a posição de dona da casa, mas não conseguia impor-se à senhora que em tempos mudara as fraldas do marido
À noite, Dona Amélia pôs todos a enrolar folhas de couve, João só faltava carregar a madrinha ao colo.
A seguir, ainda mais. Segunda-feira, Dona Amélia pôs despertador, acordou todos cedo para ginástica.
Então, quando vai ser operada? perguntou Margarida, ofegante após correr parado. Dona Amélia era avançada, ligou o cronómetro no telemóvel, ginástica pelo método quarenta-dez. Quarenta segundos de exercícios, dez para descansar. Nem todos aguentaram.
Frederico ao fim de dois minutos foi à vida e foi para a escola. João esforçava-se.
Força, Mar! Está quase! incentivava ele.
Então, quando? insistiu Margarida.
Amanhã. Amanhã fico internada. Depois, João, vais visitar-me? perguntou Dona Amélia, entristecida.
Ainda são só dois dias, é coisa simples! João ficou admirado, mas concordou.
Segunda-feira foi um dia duro. Margarida teve aulas canceladas, alunos doentes, outros fora de Lisboa, ninguém a queria receber fora da sua própria casa.
O telefone não parava, corvos grasnavam na rua, e Dona Amélia ouvia Amália Rodrigues no quarto. Estranha forma de vida, vive esta mulher E Dona Amélia cantava, Vida! Vida!, batia o pé em entusiasmo. Via-se através do vidro fosco que dançava.
Margarida parou no corredor a observar, suspirou
Está só nervosa, explicou João. Quando está assim, ouve Amália. Acaba por acalmar.
Ao serão, Dona Amélia chamou Frederico para ler O Idiota, mas ele recusou. Dona Amélia arregalou os olhos, ouviu tudo o que ele pensava do romance e da estadia dela lá em casa, estremeceu quando Frederico lhe bateu com a porta, chamou depois Margarida. Esta acenou, enquanto dizia ao telefone que ia a Setúbal, porque o André não podia vir.
Não! Dona Amélia arrancou-lhe o telefone, bradou. Não, não e não! Se quer que o seu filho seja um rapaz decente, estudante de topo, há-de trazê-lo cá imediatamente! Ou não se queixe depois se na velhice nem ele a visitar, cansado de tudo. Tem meia hora. Se não vier, sai da lista! Quem sou? Secretária da Doutora Margarida! Boa tarde.
Devolveu-lhe o telefone, foi à janela. Margarida, furiosa, bufava, e então explodiu, até o Frederico veio ouvir.
Sabe que mais, Dona Amélia? Não se meta na nossa vida! Nem no meu trabalho! E também não venha aqui impor as suas couves recheadas. Não quero saber quantas fraldas mudou ao meu marido! Chega de mandar! Leia Dostoievski, faça ginástica, o que quiser, mas não cá em casa! E o Tóbi vai para onde eu mando, não a senhora! E compro as conservas que quiser, mesmo que não ache saudável. É a minha vida, a minha casa, os meus alunos, e eu é que decido! Espero que corra tudo bem na operação, que volte rápido para sua casa! Espero mesmo!
Frederico aplaudiu, Tóbi gemeu colado às pernas da mãe, e Dona Amélia, virando-se finalmente da janela, sorriu.
Margarida ficou abismada. Tinha esperado sermão Mas
Ainda bem, Margarida. Nunca, ouve bem, nunca te anules, nunca te verges. Diz sempre não se achares que deves. Gosto de ti, achei só que eras demasiado mole, preocupada demais com a opinião dos outros Não faças isso. Pensa o que quiserem, vive à tua maneira. Não queres que eu viva cá, diz-me! Fica mais fácil, e tu ficas tranquila. Coragem, Margarita, vive como queres. Desculpa, exagerei. Sempre fui provocadora. O João sabe Não olhem assim, fico nervosa antes das operações Por isso descarrego por aí Tóbi, és um cão bem comportado! inclinou-se, afagou o bicho. Queres marmelada? Trouxe marmelada de maçã. Frederico, queres?
Frederico revirou os olhos. Já achava as mulheres estranhas; assim, só se confirmava.
Tocaram à porta. Levaram o André para a sessão. Também ele levou um pedaço de marmelada para casa. A mãe veio a medo pedir para não os tirar da lista.
Ou precisa de tratar com a secretária? perguntou ela, tímida.
Não, não se preocupe. O André está a progredir bem.
Margarida piscou o olho à secretária
À noite, enquanto João e Frederico jogavam consola, Dona Amélia, confortável no cadeirão, contava episódios da infância do João, das diabruras, de como encontrou o João a raspar o papel de parede e quase se afogou no lago. Ela salvou-o, depois encheu-o de chá e mel.
Aquela Rita, a namoradinha, nunca me convenceu, rematou Dona Amélia. Demasiado maleável Não me agradam assim. E o serviço das papoilas, não senti a falta. Partiu-se para felicidade, e vivem felizes até hoje. O João gosta muito de mim, perdoa-me tudo E tu também, Margarida. Obrigada pelo abrigo. És mesmo boa pessoa
A marmelada derretia-se no pratinho, as sombras já caíam lá fora, e o céu tingia-se de laranja.
Está na hora sussurrou Dona Amélia. Às oito tenho de lá estar
João acompanhou-a até ao carro, ruas vazias. Margarida também foi, sentou-se junto dela, sentiu-lhe o tremor das mãos.
Ligo-lhe à noite, ajeitando-lhe o casaco, disse Margarida. Não discuta! Depois volta cá.
Dona Amélia acenou, feliz. Era bom viver com os jovens, sobretudo Frederico, que nada tinha do pai, era atrevido e desinquieto. Mas, como ele próprio dizia, é o meu ambiente interior, não mudava, mas estudava, quanto mais melhorNo hospital, Dona Amélia sorriu à enfermeira e pousou na mesinha de cabeceira um Dostoievski aberto entre páginas marcadas a lápis. Inspirou fundo, fechou os olhos e pensou: Agora, deixo-me cuidar.
Lá em casa, Margarida demorou-se no silêncio da sala, sentindo o vazio que a visita deixava atrás de si, feito finalmente de harmonia. O Tóbi lambeu-lhe a mão. Frederico veio com duas chávenas de chá e sentaram-se juntos, observando as luzes acesas nos prédios vizinhos.
João entrou baixinho, largou as chaves, espreitou a família e sorriu: nunca tinham parecido tão serenos.
De repente, Margarida riu-se baixinho: Imaginei a Dona Amélia a pôr ordem no hospital. Apanha já as enfermeiras pela ginástica!
João contagiou-se, Frederico soltou uma gargalhada, e o riso espalhou-se pela casa, leve, verdadeiro, sem medo de julgamentos.
É a nossa casa, as nossas regras disse Margarida, tranquila, e pela primeira vez sabia ao certo o que queria dizer.
Lá fora, um reflexo dourado do entardecer tingia o bairro. A vida seguia em frente, com espaço, amor e a alegria do lugar conquistado. E, no fundo, todos sabiam: há visitas que vêm ensinar-nos, nem que seja a sermos donos de nós próprios.
