Não consigo entender de onde vem esses ciúmes tão intensos em você. Não consigo. Desde que começamos a namorar, só ouço críticas. Em seus olhos há suspeita constante. Você me ciúma dos pacientes, das enfermeiras, dos médicos. Até dos postes de luz. E isso já ultrapassa todos os limites… E… Estou realmente exausto, verdade.

Querido diário,

Mário, o que é isto? perguntei, segurando a camisa nas mãos, a voz firme. Que mancha rosa é essa? Batom? Será? Então está atrasado no trabalho

Inês, que estás a dizer? respondeu ele, cansado, a organizar os materiais do serviço. Estou a terminar o turno. Que batom? Na nossa ala só temos a enfermeira avó Nádia. Sinceramente estou exausto.

Inês ajeitou os lábios, amassou a camisa e dirigiuse ao banheiro. Mário soltou um suspiro pesado.

Já há mais de seis meses que nós dois estamos juntos. À primeira vista tudo parecia perfeito, salvo um detalhe: Inês era extremamente ciumenta. Ela encontrava motivos de suspeita mesmo onde não havia nada.

Olha isto, lamentou Inês, mostrando a camisa à irmã. Ele está a trairme. Vê esta mancha.

Catarina, a minha irmã, examinou o tecido, cheirou a mancha e riu.

Que foi isso? perguntei, ofendida.

É apenas um resíduo de compota de fruta.

Inês arrancou a camisa das mãos da irmã e cheirou novamente; o espanto no seu rosto mesclava-se com confusão.

Já chega, Inês. Não consigo perceber de onde vem essa desconfiança tão estranha.

Senteime à mesa de cozinha, frente à Catarina.

Não é só que começámos a namorar. Eu já o terminei com a exnamorada, confessei, desviando o olhar. Ele traiu a outra comigo. No início pensei que ele nunca se afastaria de mim, mas percebi que, na verdade, iase embora. E ainda mais rápido.

Isso não justifica falar de traição. Aprende a confiar.

Confio, contestou Inês. Mas ainda fico a temer perdêlo.

Catarina balançou a cabeça, sem saber o que dizer.

Onde estiveste? perguntei, cruzando os braços. É uma da manhã.

Mário suspirou, exausto.

Inês, deixasteme sair com os colegas para ver o jogo. Descansámos um pouco. Onde está o problema?

O Diogo ainda está em casa, liguei à Lia. Onde estiveste nas duas últimas horas?

O Duarte saiu antes porque prometeu à esposa, e eu e o Sérgio ficámos aqui. Inês, acalmate. Vou para a cama.

Fui ao quarto e deiteime, tentando esquecer as suas suspeitas crônicas, desejando que tudo fosse tão leve como antes. Mas Inês, outra vez, estragou tudo, como de costume.

Mais tarde, Inês saiu do supermercado e caminhava distraída, com o telemóvel nos olhos. De repente, ao virar a cabeça, ficou boquiaberta. Do outro lado da rua, ao lado de Mário, estava uma rapariga loira que falava alegremente, enquanto ele, sem pudor, a apertava contra si.

Os olhos de Inês ficaram nublados; lançou a sacola de compras ao chão e correu na direção de Mário. Agarrandoa pelo braço, puxoua para longe.

Eu sabia! exclamou Inês. Sabia que me estavas a trair! Sem culpa, mentiroso! Agitou a cabeça. Tenho razão! És um traidor!

Mário a encarou com olhar sombrio, as mãos cerradas de raiva, lançando um olhar culpado à loira que não percebia nada.

Inês

Não tentes falar comigo. Já sei o que vais dizer. Não quero ouvir desculpas sem sentido.

É a minha irmã, prima distante interrompeu Mário. Filha da tia Inês. Conhecesa. E a Vânia é a minha irmã de sangue; crescemos juntos. Vai para casa, conversaremos lá.

Inês, sem resposta, saiu, lançandome um simples desculpa.

Voltei a casa muito tarde, ainda magoado. Os meus lábios estavam tão pressionados que pareciam desaparecer, e os meus olhos nem sequer se cruzavam com os dela.

Mário

Canseime, confessou ele. Não entendo por que manténs um ciúme tão forte. Desde que começámos, só ouço críticas. Olhasme com suspeita constante. Ciúmes dos pacientes, das enfermeiras, dos médicos, de tudo ao redor. Já ultrapassou os limites Estou cansado, de verdade.

Mário! gritou Inês, desesperada. Queres terminar comigo? Por favor, perdoame. Eu amote! Prometo que não vai acontecer de novo. Por favor

Inês se prostrou ao meu lado, segurandome pelas mãos e fitandome nos olhos. Eu sentia pena dela; amavaa sinceramente e até terminei um relacionamento de cinco anos por causa dela. Nunca imaginei chegar a esse ponto, mas Inês conquistoume o coração. Agora, porém, as dúvidas me devoravam por dentro.

Amote sussurrei, apertando a sua mão. Mas tudo o que fazes é insano. Não consigo viver assim

Não farei mais isso soluçou Inês. Nunca. Fica comigo. Não entendes que não consigo viver sem ti.

Respirei fundo e puxeia para perto. Não podia abandonála, mesmo depois do que fez.

Os meses seguintes foram tranquilos; Inês já não demonstrava ciúmes, e eu desfrutava da companhia dela, sem precisar chegar ao trabalho mais cedo ou prolongar o turno.

Chegou o outono, época de mais doenças, e a carga de pacientes aumentou. Eu ficava cansado, jantava em casa e ia dormir logo depois.

Inês voltou a duvidar. No início tentava acreditar, mas o cheiro de perfume alheio na minha camisa a incomodava. A maioria das colegas eram mulheres mais velhas, dificilmente haveria motivo para suspeita, mas a desconfiança crescia. Ela observavame, revia as camisas, tentava descobrir algo.

Depois do turno, fui direto ao chuveiro. Gastei pouquíssimo tempo, querendo chegar à cama. Silenciosamente, abri a porta e vi Inês a deslizar rapidamente o telemóvel.

Inês o que fazes?

Ela sobressaltouse e afastou o aparelho.

Só precisava fazer uma chamada.

Apontei para o telemóvel rosa sobre a cama.

E o teu?

Está descarregado.

A tela acendeu e apareceu uma mensagem:

Mesmo descarregado? Então estás a mentir novamente. arqueou as sobrancelhas, surpreso. Será que ainda há algo que eu deva descobrir?

Desculpa, abaixou a cabeça.

Achaste o que procuravas? Miss Marple disse, irritado.

Inês balançou a cabeça.

Mário, em silêncio, recolheu as roupas do armário. Inês agarrouse à cama, segurandose pelos joelhos.

Peçote, não! Não quero mais. Confio em ti Mário!

Não, Inês. Perdoeite uma vez; da segunda em diante não quero mais tropeçar. Cansei. Quero viver tranquilamente, confiar e ser confiado. Isto não é viver

Em trinta minutos, arrumei tudo. Inês sentouse na cama, abraçada às pernas.

Eu amote, de verdade. Mas não posso continuar assim. E tu? Não mudarás.

Deixei o apartamento alugado e fui para a casa dos meus pais. Estava, de facto, exausto.

A desconfiança destrói sempre as relações, por fortes que sejam. Cada um julga a partir de si próprio. Talvez Inês temesse que eu a traísse como a exnamorada, mas foi ela quem me escolheu, um homem que ela mesma decidiu amar. Sem confiança não há amor, nem amizade, nem união. Essa foi a maior falha dela.

Até a próxima, querido diário.

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Não consigo entender de onde vem esses ciúmes tão intensos em você. Não consigo. Desde que começamos a namorar, só ouço críticas. Em seus olhos há suspeita constante. Você me ciúma dos pacientes, das enfermeiras, dos médicos. Até dos postes de luz. E isso já ultrapassa todos os limites… E… Estou realmente exausto, verdade.