Mãe, pai, boa tarde, pediramnos que passássemos, o que se passou? Inês, com o marido Tiago, atravessou a porta do apartamento dos pais.
Na realidade, aquilo já acontecia há tempos. A mãe estava doente, com um cancro em fase avançada
A mãe fizera um ciclo de quimioterapia, depois radioterapia. Acharase em remissão e os cabelos já voltavam a crescer um pouco. Mas, como bem sabia, ainda era cedo para respirar aliviada; a doença voltava a piorar.
Inês, Tiago, entrem, por favor dizia a mãe, pálida e esquelética como uma menina.
Filhos, entrem, sentemse. Temos um pedido inesperado; escutemnos o pai, José, parecia confuso.
Inês e Tiago sentaramse no sofá, ansiosos por ouvir a mãe. Irma suspirou, virouse para o marido, Berto, como se procurasse apoio.
Inês, Tiago, não se surpreendam, mas tenho um pedido bastante estranho. Em suma suplicovos.
Adoptem um rapaz para nós, por favor! Não nos deixam ter filhos mais tarde, além de outras razões.
O silêncio pairou por um instante.
A primeira a romper o silêncio foi a filha:
Mãe, acho que vai ficar surpresa, mas há muito que queríamos dizer. Tiago e eu desejamos muito um filho, e já temos duas netas as vossas filhas, a Mária e a Lurdes.
Não há garantia de que o terceiro seja um menino, mas a questão não é só essa; a saúde já não é a mesma.
A minha esposa está a fazer cesariana. Os médicos aconselhamnos a não ter mais filhos. Pensámos então em adotar um bebéum rapazinhoda Casa da Criança.
E, de repente, aparecete, mãe, a dizer exatamente isso. De onde tiras essas ideias?
Inês, nem sei por onde começar respondeu Irma, acariciando o pequeno bolo de cabelo que lhe ficava na nuca . A situação piorou outra vez.
Foi então que a minha amiga, tia Nádia, da antiga fábrica, apareceu. Lembraste dela? Ela tinha uma pinta enorme sobre o olho, quase a tapar-lhe a visão. Diziam-lhe que precisava de removerse, pois poderia transformarse. Mas Nádia voltou a mim sem a pinta, linda como nunca.
Ela contoume que a avó Zinha, da aldeia de Óbidos, tinha vindo visitara. Vamos à avó Zinha, insistiu Nádia, ela ajuda muita gente e tem uma reputação de curar o que parece impossível. Decidi não perder tempo e fui com eles.
Inês e Tiago escutavam a história da mãe, prendendo a respiração, mas não compreendiam bem a ligação.
Então, meus filhos continuou Irma a avó Zinha fezme uma pergunta curiosa: Já tens um filho?
Ao saber que eu só tinha a Inês e as duas netas, Mária e Lurdes, a avó insistiu: E a filha, o que se passou?
Fiquei surpresa; ninguém, a não ser eu e o José, sabia que eu tinha tido um aborto tardio. Era para ser um menino, o primogénito, para ti, Inês.
Mas ele não sobreviveu murmurou Irma, esfarrapando a gola da camisa.
E agora? perguntou Inês, com os grandes olhos fixos na mãe.
Então, o que a avó Zinha me disse foi: adota um rapaz. Voltei ao quarto e as lágrimas escorriam como se fosse culpa minha não ter conseguido salvar o filho.
Preciso agora dar calor e amor a outro menino, restabelecer o equilíbrio que se quebrou.
E, ao refletir, percebi que realmente desejo isso. O José e eu temos condições de oferecer ao bebé tudo o que ele precisa: calor, carinho e tudo o que lhe falta.
Não é por mim me curar, mas porque surgiu um desejo claro salvar da orfandade e solidão uma vida pequenina. Entendesme?
Mamã, compreendote e apoiote totalmente exclamou Inês, com lágrimas nos olhos, abraçandoa mãe. Vamos fazer assim!
Inês e Tiago já tinham falado com a direção da Casa da Criança e tinham manifestado o desejo de adotar um menino. Convidaramnos a ver as crianças.
Irma e Berto, claro, também foram. Na sala de jogos, sobre um tapete, brincavam crianças de três anos ou mais.
Mãe, olha aquele menino ruivo, parece contigo quando tenta montar a torre de blocos. Está tão concentrado que até a língua sai um bocadinho apontou Inês discretamente para um dos miúdos no chão.
Irma gostoulhe também. Mas, de um canto, ouviramse palavras incompreensíveis.
Irma virouse e viu, no canto da sala, um menino mais velho, olhos tristes, a murmurar baixinho.
Está a falarnos? Diga mais alto, não entendi pediu Irma.
O menino aproximouse e repetiu:
Tia, por favor, adoteme, prometo que nunca se arrependerão.
Inês e Tiago concluíram rapidamente a papelada e adotaram o Miguel. Mária e Lurdes ficaram orgulhosas por ganhar um irmão.
Miguel adaptouse rápido e passou a chamar Inês de mamã e Tiago de papá. Frequentava a casa da avó Irma e do avô Berto, que moravam perto, e ia à escola a pé.
Chamavaa mamã Irma, curiosamente. Ao vêlo, Irma sentiase como se fosse realmente o filho que não chegou a ter.
Sob pressão dos médicos, Irma começou um novo ciclo de tratamento, mas a enfermidade avançava.
Miguel lhe fitava nos olhos, acariciava o cabelo curto.
Mamã Irma, por que estás doente? Quero que melhores!
Não sei, Miguel, às vezes as coisas são assim, mas prometo lutar para melhorar dizia Irma, sorrindo ao ouvir mamã Irma.
Berto conversou com o médico, que insistia numa cirurgia.
Quais as hipóteses? indagou Berto.
O médico não disfarçou:
Cinquenta por cinquenta. Faremos tudo para salvara.
Então decidiram seguir em frente.
No dia da operação, todos estavam nervosos. Inês ligavase sem parar ao José. O José combinou com o médico que o manteria informado, e Berto estava à beira de um colapso.
Ele não sabia onde estava o Miguel. Encontrouo no quarto, ao lado da cadeira onde Irma repousava com o avental.
Miguel, sem perceber a entrada de Berto, estava sentado no chão, com o rosto encostado ao avental da mãe, chorando e repetindo calmamente:
Mamã Irma, não partas, não quero perderte outra vez, por favor! Quero que estejas sempre comigo, ó mamã Irma!
O telefone tocou, fazendo Berto e Miguel estremecerem. Era o médico, a voz cansada, sem entusiasmo, e o coração de Berto apertouse como se fosse a quinta vez
Será que era o fim? Será que Irma não sobreviveria à operação?
Berto? É o Dr. Miguel Silva, a cirurgia foi complicada, mas acabou bem; a tua esposa aguentou.
Ela ficou à beira da falência, nunca tinha visto nada assim; parecia que alguém do céu lhe dava força nos momentos em que a vida se equilibrava na corda bamba.
Parabéns, parece que ainda lhe resta muito por viver, ainda há razões para continuar
Obrigado, obrigado, doutor! Berto abraçou Miguel.
Vês, está tudo bem, a nossa mamã Irma está viva! Que alegria terte aqui, miúdo.
Perdoa, mas ouvite dizer que pedias por Irma, obrigado, meu querido filho!
