Durante oito anos, o meu marido proibiu-me de visitar a casa dos pais dele numa pequena aldeia.

Durante oito anos, a minha esposa proibiu-me de visitar a casa dos pais dela, numa aldeia pequena nos arredores de Coimbra. Sempre houve um segredo entre aquelas paredes, mas só hoje entendo o verdadeiro motivo.

Escondido e dominado pela vontade de saber a verdade, um dia resolvi ir às escondidas.

Quando abri a porta daquela casa antiga, o que vi mudou para sempre a minha visão sobre a minha mulher. E nesse instante quase desejei nunca ter descoberto o que ela tentava esconder.

Desde o nosso casamento, a minha esposa, Margarida, nunca permitiu que eu fosse visitar a mãe dela, Dona Beatriz, na aldeia. Dizia sempre o mesmo: a casa estava a passar por grandes obras que nunca mais acabavam. No início, confesso, acreditei. Até sentia orgulho, achando bonita aquela dedicação de filha em querer garantir o melhor à mãe.

Os anos foram passando mas as tais obras pareciam intermináveis. Eu comprava presentes para Dona Beatriz, e Margarida levava-os ela própria quando dizia ir visitar. Às vezes telefonava-lhe, mas mantinham as conversas sempre curtas.

Mas certo dia o número deixou de chamar. De um momento para o outro, o silêncio tomou conta. Sempre que mencionava o nome da aldeia Vila Velha Margarida mudava de assunto, rígida, com um nervosismo estranho no olhar.

A reviravolta aconteceu quando um advogado apareceu um dia na nossa casa em Lisboa, anunciando que Dona Beatriz tinha falecido há mais de um mês. Margarida chorou em silêncio, tapando o rosto, sentada no sofá. Eu, só consegui sentir um frio profundo no peito aquela sensação de quem já suspeitava de tudo.

Nesse momento, percebi

Ela tinha mentido novamente.

E desta vez, a mentira era maior do que qualquer outra.

Poucos dias depois, Margarida disse que precisava de ir até ao Porto, em trabalho, por uma semana. Estranhamente, assim que a vi desaparecer de carro ao fundo da rua, uma força fez-me agir. Peguei num molho de chaves antigas, abandonadas numa gaveta, e fui directo para Vila Velha.

A viagem pareceu-me eterna. No coração um tambor, inquieto não sabia o que ia encontrar, mas estava decidido a descobrir tudo.

Chegado à casa, só o vento mexia nas árvores centenárias do pátio. Entrei pelo portão e subi as desgastadas escadas do alpendre. As mãos tremiam-me ao enfiar a chave na fechadura. A porta cedeu demasiado fácil.

Mal dei um passo dentro da casa, o arrepio invadiu-me o corpo.

Fiquei parado.

O silêncio era denso, interrompido apenas por um zumbido elétrico. Havia luz não do dia, mas artificial. Sinal de que alguém vivia ali.

Avancei pelo corredor devagar. Nada de pó. Nada de ferramentas. Zero rastos de obras. Tudo impecável, limpo. Na mesa da cozinha, uma caneca de chá, ainda a fumegar.

Olá? arrisquei numa voz baixa.

Ouvi passos próximos, vindos do outro quarto.

Imóvel, vi a figura que ali apareceu Dona Beatriz. A mesma mulher de quem me disseram ter morrido há semanas. Perfeitamente viva. Apenas com mais cabelos brancos, mas igual naquele ar austero.

Gonçalo? a voz dela saiu incrédula. O que faz aqui?

Por momentos não soube chorar ou fugir.

Mas a senhora disseram que tinha partido balbuciei.

Dona Beatriz afundou-se, devagar, numa cadeira. Olhou-me, demoradamente.

Foi Margarida quem lhe disse isso?

Assenti.

O silêncio encheu a cozinha.

Afinal veio suspirou ela. Já estava à espera.

Sentei-me, em choque.

Não entendo nada. Porquê? Porque me mentiu Margarida? Porquê proibir-me de vir cá durante todos estes anos?

Dona Beatriz baixou a cabeça.

Porque ela não queria que soubesse a verdade.

Senti um nó no estômago.

Que verdade?

Houve uma pausa, longa. Ela decidiu então guiar-me por um corredor até ao fundo da casa e abriu uma porta. Era um quarto pequeno.

Dois camas.

No chão, brinquedos; nas paredes, desenhos coloridos.

Numa das camas, um rapaz de uns seis anos brincava com um carrinho; junto à janela, uma menina mais velha pintava num caderno.

O ar faltou-me.

Quem são elas? quase sussurrei.

A menina virou-se na nossa direcção. Tinha o mesmo olhar de Margarida.

Avó, quem é este senhor? perguntou com inocência.

Nesse momento o mundo pareceu-me desabar.

São filhos da Margarida confessou Dona Beatriz, num tom triste.

A revelação caiu como um raio.

Mas não era tudo.

Nesse instante, a porta principal bateu.

Seco. Frio. Final.

Dona Beatriz fechou os olhos. Os miúdos levantaram o rosto ao mesmo tempo.

Mamã? ecoou uma voz conhecida.

Margarida.

Perdi as forças nas pernas. Os passos dela aproximavam-se. E logo apareceu à porta do quarto, pálida como cera, paralisada entre o pânico e o choque.

Olhou-me. Olhou à mãe. Olhou as crianças.

Percebeu, naquele segundo, que todos os segredos tinham acabado.

A menina sorriu.

Mãe.

Aquele som terminou de cortar o que restava dentro de mim.

Margarida tentou falar, mas só respiração ansiosa lhe saía.

Ouve-me murmurou.

Afastei-me um passo, incapaz de conter a dor.

Ouv-te? a minha voz, grave e estranha, soou desconhecida, trémula.

O rapaz saltou da cama e correu até Margarida, aninhando-se numa perna dela, habitual, confortável.

Não era visita ocasional.

Era outra vida.

Outra família.

Nunca tinha existido dentro dela.

Margarida pegou o menino ao colo, sem pensar rotina, amor. O gesto doeu-me mais que mil confissões.

Dona Beatriz nada disse apenas observava, cansada.

Conta-lhe tudo pediu ela, firme. Chega de enterrar os outros para te esconderes.

Margarida respirou fundo, hesitante. Disse aos miúdos:

Vão para a cozinha, filhos.

Mas, mãe

Agora.

Saíram, de mão dada.

O silêncio pesou.

Continuei a olhar Margarida como se ela fosse uma estranha.

A minha mulher simplesmente encostou-se à parede, abatida.

São meus filhos, Gonçalo admitiu, finalmente.

Essa frase caiu como uma pedra entre nós.

Isso já percebi.

O pai deles morreu há oito anos.

Fiquei sem palavras.

O quê?

Chamava-se António. Estive com ele antes de ti. Tivemos a Leonor e depois o Tiago. Mas António adoeceu. Morreu meses depois do nascimento do Tiago. Eu fiquei perdida. A minha mãe teve de ajudar-me Eu nem sabia como continuar.

Fitei-a, magoado.

E então preferiste mentir durante todos estes anos?

Ela hesitou.

Quis contar-te. tentou.

Não, Margarida! Todos os dias escolheste esconder. Todos os dias vinhas cá e fazias de conta que ajudavas só a tua mãe.

Ela ficou em silêncio, sem conseguir defender-se.

As lágrimas começaram a ferver-me nos olhos.

Porquê?

Desta vez saiu seca, por dentro.

Pela primeira vez, Margarida mostrou medo genuíno no olhar.

Porque achei que me deixavas se soubesses que tinha os filhos.

O silêncio pesou ainda mais. Dona Beatriz soltou um suspiro.

Ri-me foi um riso nervoso, partido, incrédulo.

Em vez de me deixares decidir, construíste esta muralha de mentiras.

Ela encolheu-se.

Tive medo.

Medo? Disseste-me até que a tua mãe estava morta.

Margarida passou as duas mãos pelo rosto, derrotada.

O advogado era um amigo. Era para seres impedido de cá voltar, de vez.

A náusea cresceu-me no peito. Olhei para o corredor, para os desenhos infantis. Dois filhos inocentes. Dois filhos sem culpa. Cada risco nas paredes, herança dos meus oito anos de ilusão.

Dona Beatriz, de olhos fundos, disse:

Ela quis assumir os miúdos há muito tempo.

Virei-me para ela. Margarida endireitou-se, angustiada.

Mãe

Não, Margarida. Basta de esconder-se.

Olhou para mim.

Tu mereces toda a verdade.

Meu coração acelerou. Faltava um último segredo.

Dona Beatriz apontou, então, para a sala.

Havia uma fotografia em cima de um aparador junto à janela. Nunca tinha notado quando entrei.

Aproximei-me. As pernas quase me falhavam.

Na fotografia estavam Margarida, os dois filhos, Dona Beatriz e uma mulher, sorridente.

O choque foi brutal.

Era Filipa.

A minha melhor amiga.

Madrinha do nosso casamento.

***

Nunca tinha imaginado que a confiança pudesse desabar assim, de um momento para o outro. Senti-me traído de todas as maneiras possíveis. Ao sair daquela casa, só entendi que, ao escondermos partes de nós com medo da verdade, acabamos por destruir tudo o que podia haver de real. A verdade, por pior que seja, dói menos do que oito anos de mentira porque dela ainda se pode construir algo.

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Durante oito anos, o meu marido proibiu-me de visitar a casa dos pais dele numa pequena aldeia.