Lurdes, queremos comer! Já chega de ficar deitada! a voz descontente do marido ecoa no meu ouvido.
A cabeça lateja, a garganta arde, o nariz está entupido. Quando tento levantar, o corpo parece feito de algodão. Não é de admirar que eu esteja doente.
A semana inteira tem sido de calor intenso, e ontem, ao entardecer, começou a nevar com chuva. Primavera inesperada Chamar um táxi nessa condição é impossível, então tenho de voltar do trabalho de táxipartilhado. Espero o autocarro durante trinta minutos; quando chega, está lotado. Encaixo-me na cabine por milagre e ainda tenho que caminhar um bom trecho até a paragem.
Pedi ao marido que me pegasse a caminho.
Lurdi, o Tiago e o Artur vão visitar a minha mãe. Vamos chegar tarde informame Vítor.
Como sempre
Chego a casa encharcada e congelada. São oito da manhã de sábado.
Vítor, traz o termómetro, por favor! rogo.
O quê? Adoentaste? surpreendese Vítor. E o pequeno-almoço?
Vai fazer o próprio? insiste a esposa.
O que queres dizer? o homem não entende. E o Artur?
O rapaz já tem dez anos! E tu, homem adulto, prepara uma omelete. Deixa o filho ajudar; eu já lhe ensinei a cozinhar, ele já é grande.
Ensinar o filho a cozinhar? exclama Vítor.
Sim. E daí? Ele passa o dia inteiro no telemóvel. Não quer fazer nada encolho os ombros.
Estás a perder a cabeça? Ele é homem! Um homem não tem de cozinhar, nem de aprender a isso! Isso é coisa da mulher! explode Vítor. Muito bem, vamos para a casa dos meus pais, já que não queres atender a nós. Chegaremos amanhã à noite.
E os homens, logo depois, partem para a casa dos pais de Vítor.
Eu me arrasto até à cozinha, encontro o termómetro, ponho a chaleira a ferver e fico a refletir
«Por que foi que tudo mudou? Quando deixei passar o momento em que o marido poderia preparar a refeição para nós dois, quando, durante a doença, cuidávamos um do outro? Quando foi que as tarefas domésticas se tornaram apenas a minha responsabilidade?»
O termómetro marca 39,2°C. Engulo o comprimido e deito-me novamente.
Pouco depois, o telemóvel vibra. É a mãe:
Lurdes, por que não respondes? Eu esperava a tua chamada de manhã diz Vítoria Alexandre, a minha sogra, preocupada.
Mãe, estou só um pouco doente. Tomei o remédio e voltei a dormir sussurro.
Um pouquinho, é? E o Vítor, onde está? Ainda com o Artur na casa da mãe? resmunga.
Já fomos embora, para não contagiar respondo, sem energia.
Tu realmente acreditas nisso? Para não contagiar Não me digas que vais ter de lavar a louça sozinha! irritase a senhora.
Mamã! tento replicar, mas não consigo. Ela já sabia tudo.
Não te desculpes! Tenho o direito de ficar zangada. Eu entregueite ao casamento, não à escravidão! Mediste a temperatura?
Sim. Estava alta esta manhã. Agora está a melhorar, mas ainda não tenho forças. queixome.
Deitate! O pai vai buscarte. Levantate logo! Não é justo ficar a doer só desliga a chamada.
Levantome devagar, lavome, ponho as coisas necessárias num saco o portátil, o telemóvel e já estou pronta para encontrar o pai.
Oh! o pai segura o peito ao verme.
Pai, que se passa? assustome.
Ah, és tu! ele retirame a bolsa com calma. Pensei que já tinha encontrado a morte. Estou pálido!
Pai, por que me assustas assim? tentame tranquilizar. Vamos?
Vamos. Segurame. Se o vento te levar, eu procurote depois! ajudame a entrar no carro. Estás tão magra, tão abatida Ainda bem que a mãe tem razão, parece que te venderam como escrava. Perdoa, filha, mas não estás bem.
Não discuto; estou exausta. Na casa dos meus pais há calor, comida e felicidade. Vítoria Alexandre cuida de mim e, ao fim da tarde, sintome um pouco melhor.
Ligo para Vítor e, ao atender, escuto a sua voz preguiçosa:
O que é que queres? Não consigo trazer os remédios. Bebi uma cerveja com o pai. Que? É sábado! Vamos ver o futebol. Ah, a mãe quer falar contigo passa o telefone à mãe.
Lurdes! Tu és mulher! Não podes ficar a descansar e deixar o marido a passar fome! O que é importante numa família? O homem tem de estar bem alimentado, quente e não atrapalhar! E tu? Está doente toma a pastilha e pronto! provocaa Kênia Anabela, a sogra.
A mãe, que passava por ali, apanha o telefone e intervém:
Querida, e o marido? Fraco? Doente? Ou como deve ser, quente, saciado e que não te impeça? indignada, Vítoria Alexandre responde.
Por que fraco? Família! Todos os homens são assim. a sogra não esperava essa resposta. Vítor, e tu?
O quê? Erro! Levanto a filha. Um homem de verdade não consegue cuidar da esposa! Nem pode comprar remédios bebeu cerveja E ainda se alegra que a mulher esteja doente. a sogra nunca gostou de Vítoria Alexandre.
Que absurdo. Os rapazes foram embora para não incomodar a Lurdes. resmunga Kênia Anabela. Achouse o Artur! Remédios, cuidados! Uma mulher saudável, só preguiçosa. Esqueceuse dos homens! Eles são família! Não importa! Eu cuido dos meus filhos! E a tua filha é uma cuco!
Vítoria Alexandre fica a olhar o telemóvel em silêncio.
Filha, ainda precisas disso? Ainda és jovem! Isso já é demais. a mãe protesta de fundo.
Então chega a mensagem do marido:
«Lurdes, manda dinheiro? Falta até ao salário. Gastei tudo no Artur. Ainda tive de pagar as aulas e comprar roupas!»
«Eu paguei todo o aluguer e as compras este mês. Está bem?» respondo, atónita com a ousadia.
«Claro, o apartamento é teu! Envia logo, vou à loja!» insiste ele, impaciente.
«Não tenho dinheiro. Gastei nos remédios» minto.
«Como assim não? A tua doença está a custar caro! Pede aos pais.» oferta inesperada.
«Pede à tua mãe», respondo, surpresa.
«Ah! Ela não vai entender onde gastei o salário» retruca Vítor.
«Também não percebo», devolvo.
«Sou um homem adulto. Tenho as minhas despesas e não devo prestar contas a ti nem à mãe! Estou na loja. Envia logo!» irritado.
«Não lhe envio», respondo brevemente.
Ele me devolve uma enxurrada de mensagens, chamandome mesquinha, ingrata, má mãe, má esposa e muito mais. Por fim, respondo à minha mãe:
Não, mãe! Já não preciso.
Toda a noite o marido e a sogra trocam mensagens furiosas. Eu simplesmente desativo o som.
No domingo de manhã, enquanto a família toma o pequenoalmoço, o marido liga novamente:
Lurdes, o Artur e eu vamos ficar na casa da mãe. Ela nos ama e cuida de nós! Diferente de ti, não temos nenhuma mãe! És uma cuco! termina Vítor.
Ótimo! Que ótimo! E tu, filha, o que dizes? pergunta Igor Semenovitch, o tio.
Só vejo o divórcio! Não quero digo, olhando para a omelete cheia de salsa. Decidome.
Maravilha! Mãe, vou embora. Chego à hora do almoço. grita o pai ao sair do apartamento.
Lurdi, toma os teus comprimidos, desliga o telemóvel e vai dormir. Precisas de repousar a mãe diz, carinhosa.
E eu obedeço. É domingo. Amanhã volto ao trabalho. Posso ainda dormir um pouco.
Acordo ao meiodia; o pai acabou de chegar.
Aqui estão as tuas coisas. Podes jogálas fora! entregame um novo chaveiro.
O quê? não consigo compreender.
Troquei as fechaduras do teu apartamento, juntei as coisas do Vítor e do Artur e leveias ao padrasto, o que eu vi, devolveas depois. explica o pai. Fica aqui enquanto quiseres. Não atendas ao telemóvel. É mais seguro.
Na cozinha, a mãe mexe alegremente. Sempre sonharam com isso, mas deixaram que a filha chegasse sozinha à conclusão.
Lurdes entra com o pedido de divórcio.
Tantas críticas já ouviu: estúpida, destruiu a família, cuco, mãe nada mais, ingrata e ainda as mais brandas.
Mesmo assim, sentese feliz pela primeira vez em muito tempo.
Dividemse rapidamente. Não têm filhos nem bens em comum. Um ano após o casamento, Vítor decide que é mais barato levar o filho para casa do que pagar pensão. A exesposa concorda.
Só que ele esquece de perguntar a Lurdes, nem avisa. Não lhe interessa que Lurdes e Artur não se dão bem e que o rapaz arruina a sua vida. Vítor esquece que o filho precisa de roupas, de escola, de um lar e que o apartamento onde ele o leva é o de Lurdes. Tudo isso ele ignora, inclusive a própria esposa.
O tribunal resolve tudo, apesar de Vítor ter armado tudo para o seu lado. Vítor e o filho vivem com a avó, que controla os gastos e ensina a fazer a casa. Afinal, três homens não são um! É difícil.
Lurdes, porém, está contente. Compra um carro para não ficar à mercê do mau tempo.
E aos 27 anos, depois de um divórcio doloroso, decide amarse a si mesma.
Autoestima é o caminho! pensa.
