Tenho 51 anos, tive 9 encontros com mulheres divorciadas de 45+ num mês: porque continuo sozinho
Quando me divorciei há três anos, tinha a certeza: no máximo meio ano e já estaria envolvido numa nova relação.
Tenho o meu próprio apartamento em Lisboa, emprego estável, não bebo nem ando envolvido em aventuras. Na altura tinha quarenta e oito anos e acreditava, honestamente, que com estas condições ficaria pouco tempo sozinho.
Agora conto cinquenta e um. E continuo a regressar todas as noites a uma casa vazia.
Não é por falta de tentar. Só neste último mês fui a nove encontros com mulheres mais ou menos da minha idade, entre os quarenta e cinco e os cinquenta e poucos. Todas divorciadas, independentes, sabem o que querem da vida foi o que li nos seus perfis.
Depois desses nove jantares, percebi uma coisa desagradável: o problema não é o aspecto físico, nem sequer a idade. E não, não é por as boas já estarem todas escolhidas.
O problema está noutro lado.
Encontro nº1. A Mulher-Questionário
Catarina, quarenta e sete anos, economista. Na fotografia: mulher simpática, cuidada, sem filtros nem poses artificiais. Foi a primeira a escreverme, conversa leve pelo chat.
Marcámos num café em Benfica. Chegou pontualíssima, sentou-se à minha frente, pediu um chá verde sem açúcar. Sorrio:
Fala-me um pouco de ti, do teu dia-a-dia.
Catarina saca do telemóvel, desliza o ecrã e diz:
Para não perder tempo, preparei uma lista de perguntas. Convém sabermos à partida se somos compatíveis.
Primeira questão: finanças em conjunto. Segunda: se estou disposto a aceitar o crédito habitação dela. Terceira: pretendo ter filhos de novo? Quarta: estaria pronto para mudar de cidade. Quinta: quanto dou aos meus filhos e com que frequência vejo a ex-mulher.
Durante quase uma hora respondi, sincero. Parecia estar numa entrevista de emprego para marido. Cada resposta: um visto mental na tabela dela.
Quando tentei saber dos interesses dela, afastou com a mão:
Ainda não acabámos. Isto é mais importante.
Passada hora e meia, fechou o telemóvel, agradeceu a conversa e desapareceu. Nem uma mensagem após.
Senti que falhei na entrevista.
Encontro nº2. Vida à sombra do ex
Ana, quarenta e oito anos, professora. Gentil, sorriso doce, alguém que sofreu mas não perdeu a ternura. Ficámos de passear pelo Parque das Nações.
A conversa fluía, até eu dizer que gostava de cinema.
O meu ex detestava cinema interrompeu logo. Achava uma perda de tempo e dinheiro.
Mais tarde refiro que, às vezes, adoro cozinhar em casa.
O meu ex nem chá sabia fazer. Achava que tudo o que era doméstico era com as mulheres.
Toda a conversa girava no ex. Bastava eu abrir um tema e lá surgia um episódio, comparação, crítica.
Carro? O meu ex detestava conduzir. Casa? O meu ex morou com a mãe até aos quarenta. Férias? O ex nunca quis viajar, era forreta.
Ficava claro: para ela, eu não era um indivíduo, era só uma reacção ao outro, uma fuga à dor antiga. Ela não procurava um parceiro; precisava de um anti-ex. Quem sou eu realmente, era secundário.
Encontro nº3. O ex está sempre presente
Beatriz, quarenta e nove anos, designer. Bonita, com bom gosto, acessórios discretos, perfume suave. Pensei que finalmente era o tal diálogo maduro.
Meia hora falámos de trabalho, cidades, livros. Começo a sentir que há ali ligação.
Então diz, de repente:
O meu ex também dizia isso. Descobri que era mentira.
O resto da noite virou série de episódios: como não era valorizada, promessas por cumprir, como ela aguentava tudo sozinha, arrastando a família.
Cada resposta minha comparada a um gesto do ex:
Gosta de cozinhar? O meu dizia que sim, mas nunca mexeu numa panela.
Viajar? O meu falava muito. Só viajava pelo comando da televisão.
Tentei mudar de tema. Perguntei pelos projetos dela, cidades estrangeiras. Mas o ex estava sempre ali na mesa.
Com três à mesa, assim, é impossível ter futuro.
Encontro nº4. Amor? Isso é luxo
Helena, cinquenta anos, contabilista. Tranquila, segura, voz serena. Encontrámo-nos num café ao pé do metro do Campo Pequeno.
Tentei brincar respondia com um Percebo. Conte histórias engraçadas acenava e parecia somar pontos em relatório.
Tens algum passatempo? perguntei.
É mais trabalho.
E quando tens tempo livre?
Tenho pouco.
E algo que te apaixone?
Organizar a casa.
Zero emoção. Nenhum brilho. Parecia alguém em poupança de energia.
Arrisquei-lhe uma questão:
Porque queres uma relação agora?
Helena nem pensou:
Procuro estabilidade. Preciso de alguém seguro.
E amor?
Ela encolheu os ombros:
Aos nossos anos, amor é luxo. O importante é ser prático, não complicado.
Eu via nela alguém que só quer um móvel funcional: robusto, estável, sem surpresas. Não quero ser um armário na sala de ninguém.
Encontro nº5. Mulher-checklist
Carla, cinquenta e um anos, chefe de departamento. Decidida, mala cara, olhar determinado. Escolheu o restaurante e não era dos baratos.
Assume logo o controlo:
Não quero perder tempo. Quero relação séria. Estás preparado ou vens só passar o tempo?
Senti-me em exame e, sem pensar, disse:
Sim, preparado.
E Carla prossegue a lista:
o homem deve ganhar pelo menos tanto como eu;
duas viagens por ano, no mínimo, comigo;
respeitar totalmente a minha carreira e nunca pedir mais atenção à casa;
conhecer os meus filhos adultos três meses depois da relação começar;
aceitar o meu grupo de amigos e hábitos de vida.
A palavra deves aparecia mais do que o meu nome.
Ouvindo-a, via que não havia espaço para mim. Só havia perfil aprovado.
Não era uma parceria, nem diálogo. Era um contrato com cláusulas e letras pequenas.
Encontro nº6. Preciso de um pai, não de um homem
Graça, quarenta e seis, gestora. Roupa jovem, unhas coloridas, riso alto, energética contraste com as anteriores.
Vinte minutos depois, percebo: querem-me a desempenhar o papel de salvador.
Sabes consertar coisas em casa? Tudo avaria cá em casa e eu não percebo nada.
Tens carro? Às vezes dava jeito dar-me boleia.
Percebes de finanças? Os impostos matam-me, podias ajudar-me?
Por trás de cada pergunta, o apelo: Faz por mim. Resolve por mim. Assume por mim.
Sinto tanta falta de um ombro masculino forte, alguém que cuide de tudo Só queria poder ser frágil.
Respondi com cuidado:
Mas tu és autónoma, tens trabalho e vida formada. Já provaste a tua capacidade.
Ofendeu-se:
Pois, típico homem! Não querem cuidar de nós.
Para ela, cuidar é assumir toda a logística. A mim, não me interessa ser tutor de uma adulta.
Encontro nº7. Vítima eterna
Rosa, quarenta e seis anos, contabilista. Discreta, tímida. Fiquei contente: pelo menos sem listas nem juízos.
Nos primeiros vinte minutos, respondeu quase sem se dar por isso. Mas logo a conversa ganhou ritmo dela.
Tudo desabafos: o marido fugiu com uma jovem, ela criou os filhos sozinha, sacrificou-se, ninguém ajudava, noites em lágrimas.
História atrás de história dor, desilusão, injustiça.
Dei tudo pela família! Fiquei sozinha.
Matei a minha carreira para ele estar bem. Nem agradeceu.
Dei tudo aos filhos, agora nem me ligam.
Tentei ser compreensivo. Precisa mais de alguém para acolher que para dialogar. No fim do jantar senti-me esgotado. Como se me tivesse largado a mala cheia de pedras para carregar.
Encontro nº8. Mulher-controladora
Teresa, cinquenta e dois, médica. Pontual, cuidada, chegou cedo e escolheu mesa no canto.
Pedi um cappuccino. Teresa comentou logo:
Mais valia um café simples. O leite pesa no estômago a esta idade.
Conto um episódio de um problema informático no trabalho.
Espera interrompe ela , disseste que foi quarta-feira, mas antes tinhas falado de uma reunião à terça. Não bate certo.
Comentei que às vezes me deito depois da meia-noite.
Isso é um erro. Deverias deitar-te antes das onze. Prejudica o sistema nervoso.
Cada frase que dizia, corrigia, interferia. Parecia que tudo na vida dela obedecia a um manual estrito: do café ao repouso.
Vi bem o futuro: alguém a vigiar tudo dieta, horários, amizades, gastos.
Dispenso esse estilo saudável sufocante.
Encontro nº9. Já sei o teu problema
Sílvia, cinquenta e três, psicóloga. Pensei: Finalmente alguém que entende sentimentos e limites.
A ilusão durou quinze minutos.
Disse:
Gosto de silêncio, não sou fã de grupos grandes.
Ela:
És introvertido com apego evitante.
Mencionei o divórcio há três anos.
Muito tempo sozinho? Claro: é medo de proximidade.
Pedi um bife.
Típico disse, sorrindo carne vermelha: insegurança interior.
Cada frase minha virava diagnóstico. Já não era homem num encontro, era caso clínico em consulta.
No fim, ainda escreveu:
És interessante, mas sinto que não estás pronto para um compromisso sério.
Respondi:
Talvez tenhas razão.
E senti-me sem vontade de argumentar. Cansado de ser caso para análise.
Quando cheguei a casa depois do nono encontro, sentei-me na cozinha com uma chávena de chá e repassei tudo como se fosse um filme.
E percebi: nenhuma delas estava, de facto, à procura de alguém.
Umas precisavam de alguém que passasse no teste e encaixasse no sistema. Outras, de um anti-ex. Algumas queriam psicoterapeuta gratuito; outras, pai; outras, um móvel prático. Algumas queriam um objeto de controlo; outras, só um caso interessante para analisar.
Todas com o seu próprio guião, dramas por resolver ou bagagem para apoiar nos ombros alheios.
Mas nenhuma queria simplesmente um homem, com qualidades e defeitos, medos e sonhos.
Porque continuam sós e se a idade faz diferença
Os amigos dizem:
Esquece mulheres da tua idade, procura mais novas. É mais simples.
Sinceramente? Não acho que a questão seja os anos marcados no cartão.
Sim, depois dos quarenta e cinco trazemos divórcios, doenças, dívidas, filhos, mágoas. Faz parte é a vida.
O problema não é ter bagagem.
O problema é não querer tratar dela. Apetece encontrar um parceiro que venha arrumar tudo, curar, provar, substituir, calar.
E em vez de quero conhecer-te surge um quero que resolvas as minhas feridas.
E nós, homens, somos melhores?
Não seria honesto dizer que só as mulheres levam traumas para os encontros.
Eu também não sou folha em branco. Trago o medo de repetir um casamento falhado, as minhas teimosias, os meus hábitos; também tenho as minhas esquisitices.
Só que nós, homens, escondemos mais a nossa bagagem. Não passamos horas a analisá-la, nem fazemos listas ou interrogatórios. Não quer dizer que não existe.
Às vezes pergunto-me: será que o problema não é que todos trinta-e-cinco-mais levam cicatrizes, mas não sabemos admiti-lo e tomar responsabilidade?
Sim, não é fácil estar comigo. Sim, também trago dores. Sim, tenho coisas para arrumar e cabe-me a mim fazer esse trabalho.
Pergunto a quem também já tenta a segunda ou terceira volta
Nestes nove encontros não encontrei a tal. Mas vi tantas histórias femininas e até comecei a perceber melhor os meus próprios padrões masculinos.
E vocês, também lidam com bagagem nas relações passados os quarenta?
Se és homem reconheces nessas descrições as tuas ex ou atuais parceiras? Como lidas com isso?
Se és mulher vês-te nestas histórias, ou são mais das tuas amigas? Procuras mesmo parceiro, ou queres salvador, pai, juiz, plateia?
E, sobretudo: será possível, depois dos quarenta e cinco, criar uma nova relação se admitirmos com honestidade as nossas feridas sem querer que o outro trate delas?
Escreve a tua experiência talvez seja ler as vossas histórias que ajude a entender o que se está a passar connosco.
