Durante oito anos, o meu marido proibiu-me de visitar a casa dos pais dele numa pequena aldeia.

Durante oito anos, o meu marido proibiu-me de visitar a casa dos pais dele numa pequena aldeia.

Num dia, decidi ir às escondidas.

Quando abri a porta…

Compreendi por que razão ele me tinha mentido durante tanto tempo.

E naquele momento, desejei nunca ter descoberto o que estava lá dentro.

Desde que nos casámos, o meu marido Lucas nunca me permitiu visitar a mãe dele, Dona Eduarda, na aldeia.

Repetia sempre a mesma história: que a casa estava em grandes obras de remodelação.

No início, acreditei nele.

Até sentia algum orgulho, pensando que era um filho tão dedicado que queria deixar a mãe com uma casa bonita.

Mas os anos foram passando…

e as supostas obras nunca acabavam.

Comprava lembranças para a minha sogra, e era o próprio Lucas quem as levava quando dizia que ia lá passar.

Por vezes, ligava a Dona Eduarda por telefone.

Mas um dia…

o número deixou de atender.

De um momento para o outro.

Todas as minhas tentativas para saber mais caíam no vazio. Bastava dizer o nome da aldeia Castelo de Vide para ver o olhar de Lucas encher-se de uma estranha tensão.

E mudava rapidamente de conversa.

Sempre.

Tudo mudou no dia em que um advogado veio à nossa casa. Informou-nos de que Dona Eduarda tinha falecido há mais de um mês.

Lucas estava sentado no sofá a chorar, rosto escondido pelas mãos.

Eu, entretanto…

só sentia um aperto gelado no peito.

Ali entendi uma única coisa.

Tinha voltado a mentir-me.

E desta vez…

a mentira era demasiado grande.

Dias depois, o meu marido disse que precisava de ir urgentemente numa viagem de trabalho durante uma semana.

Nesse instante, tive um mau pressentimento.

Assim que o carro dele desapareceu ao virar da rua, peguei nas chaves da casa da aldeia guardadas há tanto tempo numa gaveta e conduzi rumo a Castelo de Vide.

O caminho pareceu-me interminável.

O meu coração batia tão alto que era como se abafasse o som do motor.

Não sabia o que ia encontrar.

Mas estava pronta para enfrentar a verdade.

Fosse ela qual fosse.

Ao chegar à casa, tudo estava estranhamente silencioso.

As árvores antigas do pátio sussurravam baixinho ao vento.

Abri o portão do jardim.

Subi os poucos degraus do alpendre.

E parei, durante uns segundos, à porta.

As minhas mãos tremiam ao enfiar a chave na fechadura.

A porta abriu-se…

surpreendentemente fácil.

Dei apenas um passo para dentro.

E arrepiei-me completamente.

Fiquei imóvel.

Não queria acreditar no que via.

O que vi naquela casa mudou por completo tudo o que eu pensava sobre o meu marido.

Fiquei alguns segundos no mesmo sítio, sem conseguir mexer-me.

Dentro de casa havia luz.

Não era o sol.

Era a luz dos candeeiros.

Só isso podia significar uma coisa.

Alguém vivia ali.

O meu coração acelerou ainda mais, quase conseguia ouvi-lo nos meus ouvidos.

Avancei com cuidado pelo corredor.

Não havia pó.

Nem ferramentas.

Nenhum cheiro a tinta, cimento nada de obras.

Tudo estava limpo e arrumado.

Em cima da mesa da cozinha estava uma chávena de chá ainda a fumegar.

Olá…? arrisquei em voz baixa.

Nesse momento ouvi passos na outra divisão.

Fiquei gelada.

Os passos aproximavam-se.

Devagar.

Instantes depois, uma mulher apareceu na porta da cozinha.

O ar fugiu-me dos pulmões.

Era Dona Eduarda.

A minha sogra, a quem o advogado disse estar morta há mais de um mês, estava ali.

Viva.

Parecia quase igual ao costume. Talvez com mais cabelos brancos.

Olhou para mim, tão surpreendida como eu dela.

Tu…? disse finalmente. O que fazes aqui?

Não sabia se chorava, gritava ou fugia.

Mas… mas disseram-me… que a senhora tinha morrido… balbuciei.

Dona Eduarda ficou parada, depois sentou-se lentamente, como se lhe faltassem forças.

O Lucas disse-te isso? perguntou passado um pouco.

Acenei que sim.

O silêncio pesou na cozinha.

Afinal vieste disse baixo. Já estava a imaginar quando aconteceria.

Aproximei-me da mesa, ainda a tremer.

Não percebo nada. Porquê? Porque é que o Lucas me contou que a senhora tinha morrido? Porque é que durante estes anos todos nunca me deixou vir cá?

Dona Eduarda suspirou fundo.

Porque o Lucas não queria que soubesses a verdade.

Senti o estômago encolher.

Que verdade?

Ela ficou a olhar-me por alguns segundos, como a medir tudo o que devia contar-me.

O Lucas não vem aqui só para visitar a mãe.

Um arrepio percorreu-me as costas.

Então… porquê?

Levantou-se e fez-me sinal para a seguir. Caminhámos pelo corredor estreito até uma porta no fundo da casa.

Abriu-a.

Lá dentro havia um pequeno quarto.

Duas camas.

Alguns brinquedos no chão.

Desenhos coloridos colados nas paredes.

Numa das camas, um menino de seis anos brincava com um carrinho.

Perto da janela, uma menina mais velha coloria um caderno.

O ar faltou-me.

Quem… são eles? sussurrei.

A menina olhou para nós.

Tinha, sem tirar nem pôr, os mesmos olhos do Lucas.

Avó, quem é esta senhora? perguntou.

Quase caí para o lado.

Dona Eduarda olhou-me, triste.

São filhos do Lucas.

Ao ouvir aquilo, senti o meu mundo desabar.

Mas o que Dona Eduarda me contou a seguir…

foi ainda mais doloroso.

E naquele momento exacto…

alguém abriu a porta de casa.

O som seco e pesado do fecho ecoou na casa inteira.

Dona Eduarda fechou os olhos por um instante.

Não… murmurou.

As crianças ergueram o olhar ao mesmo tempo.

E então ouvi aquela voz.

Mãe?

Lucas.

As minhas pernas fraquejaram.

Os passos vinham pelo corredor, rápidos, decididos, tão familiares… até ele aparecer à porta do quarto.

E ficou parado, sem conseguir mexer-se.

Perdeu toda a cor.

Olhou primeiro para mim.

Depois para a mãe.

A seguir para as crianças.

E percebeu de imediato que não podia esconder mais nada.

A menina mal sorriu.

Pai.

Aquela palavra enterrou o que restava em mim.

Lucas abriu a boca, mas por fim não disse nada.

Respirava demasiado depressa.

Como quem chega atrasado ao pior momento.

Ouve-me… tentou, por fim.

Mas eu recuei.

Ouvir-te?

A minha voz soou estranha, a tremer.

Vazia.

O menino saiu lentamente de cima da cama, correu para Lucas e abraçou-lhe a perna como quem fazia aquilo todos os dias.

Por hábito.

Não era uma visita ocasional.

Nada tinha de segredo momentâneo.

Era uma vida completa.

Outra vida.

Outra família.

E eu nunca tinha feito parte.

Lucas pegou no menino ao colo.

O gesto magoou-me mais que mil confissões fez aquilo como quem está habituado, cheio de carinho.

Com amor.

Com prática.

Dona Eduarda apenas olhou, cansada, em silêncio.

Conta-lhe disse, finalmente. Não podes continuar a enterrar pessoas para te esconderes.

Lucas fechou os olhos.

Olhou para a menina.

Vão para a cozinha um bocadinho, por favor.

Mas papá…

Agora, Margarida.

A menina pegou na mão do irmão e saíram da divisão.

Quando o barulho dos passos desapareceu, o silêncio foi insuportável.

Continuei a olhar para Lucas como quem olha para um estranho.

Ele encostou a mão à parede.

Parecia abatido.

Vencido.

As crianças são minhas murmurou.

A frase caiu pesada entre nós.

Já percebi.

A mãe deles morreu há oito anos.

Pisquei os olhos.

Qualquer coisa estalou dentro do peito.

Quem?

Lucas engoliu em seco.

Era a Patrícia.

Conhecemo-nos antes de eu te conhecer. Estávamos juntos… e ela ficou grávida da nossa filha. Depois nasceu o Tomás.

Baixou o olhar.

Mas a Patrícia adoeceu.

Dona Eduarda afastou-se para a janela, já com a alma pesada.

Ela morreu pouco depois de o Tomás nascer continuou Lucas. Eu fiquei destroçado. Não sabia como cuidar de dois pequeninos. Não sabia como seguir em frente.

Olhei-o fixamente.

Então decidiste mentir-me durante oito anos?

Quis contar-te.

Não quiseste nada, Lucas! explodi. Porque todos os dias escolheste esconder-me isto. Todos os dias vieste aqui, fingindo que a tua mãe era a única razão.

Ele não respondeu.

Porque era verdade.

As lágrimas começaram a arder.

Porquê?

Dessa vez saiu mais fraco.

Só dor.

O Lucas olhou para mim, devagar.

Pela primeira vez, vi verdadeiro medo nos olhos dele.

Quando te conheci… pensei que me deixavas… se soubesses que eu tinha dois filhos.

A casa calou-se inteira.

Dona Eduarda suspirou, triste.

Eu ri-me.

Mas foi uma gargalhada partida.

Incrédula.

Por isso construíste esta mentira toda, em vez de me dar a escolha.

Tive medo.

Medo? repeti. Disseste-me que a tua mãe morreu.

Lucas passou as duas mãos pelo rosto.

O advogado era amigo meu. Queria que tivesses uma justificação definitiva para nunca mais cá vires.

Senti um enjoo real.

A casa parecia rodar comigo.

Olhei para o corredor por onde as crianças tinham ido.

Duas crianças inocentes.

Sem culpa.

E, no entanto, cada desenho naquelas paredes era o retrato de oito anos de mentira.

Dona Eduarda falou.

A voz veio cansada, rouca.

Ele quis assumi-los há muito.

Virei-me para ela.

Lucas ergueu a cabeça, sobressaltado.

Mãe

Chega, Lucas cortou ela. A verdade também é dela.

O coração acelerou-me de novo.

Havia algo ainda por dizer. E seria pior.

Dona Eduarda apontou lentamente ao salão.

A uma fotografia antiga sobre o aparador, perto da janela.

Não a tinha visto ao entrar.

Aproximei-me, com as pernas trémulas.

Na fotografia aparecia o Lucas.

As crianças.

A sogra.

E uma mulher sorridente.

Faltou-me o ar.

Conhecia aquele rosto.

Perfeitamente.

Era Ana Bela.

A minha melhor amiga.

A madrinha do nosso casamento.

Naquele momento, percebi que o silêncio nunca protege ninguém; só alimenta o sofrimento. Não devemos temer a verdade, por mais dura que seja porque só ela nos permite seguir em frente, libertos de segredos e capazes de construir algo verdadeiro.

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Durante oito anos, o meu marido proibiu-me de visitar a casa dos pais dele numa pequena aldeia.