Vem um clarão Um estrondo alto Escuridão Escuridão
Por fim a escuridão começou a afastar-se. Ouviu-se uma voz:
Inês, isto é o socorrista, explodiu qualquer coisa lá dentro.
Apesar da dor sentiu o toque de uma mão no pescoço. Tentou abrir os olhos, mas custou bastante. Diante dele apareceu um pendente retangular com os signos do zodíaco gravados Os olhos de uma mulher de bata branca
Para a sala de operações! veio uma voz bem ao lado.
Os pais chegaram do emprego. A mãe correu logo para a cozinha depois de espreitar o quarto onde o filho fazia os trabalhos de casa. O Carlos entrou no quarto e logo viu que o rapaz não estava com bom ânimo.
Tiago, o que foi? o pai afagou-lhe a cabeça.
Nada, – resmungou o filho do quarto ano.
Anda, conta lá!
Logo é o Oito de Março. A professora fez-nos ficar hoje e disse que tínhamos de arranjar prendas para as raparigas.
E qual é o problema? sorriu o pai.
Temos rapazes e raparigas em número igual. Ela distribuiu quem dá a quem, – o rapaz suspirou fundo. Calhou-me a Inês Ferreira, a que não é bonita.
Todas as raparigas querem prenda no Oito de Março, até as menos bonitas, – o pai tentava falar com ele como se fosse crescido. E como distribuiu? Por ordem alfabética?
Não, pelos signos do zodíaco.
Como assim? o Carlos não resistiu e sorriu outra vez.
Por compatibilidade. A Inês é Virgem e para as Virgens o Touro é o ideal. E eu sou Touro.
Isso é ótimo se combinam! Quando fores mais velho talvez te enamores dela.
O pai não aguentou e riu-se alto. A mãe entrou a correr no quarto:
O que é que se passa aqui?
Ana, vai para a cozinha, – o rosto do pai ficou sério. Estamos a ter uma conversa importante com o nosso filho.
Quando a mãe saiu, o Tiago perguntou triste:
Pai, e agora o que faço?
Arranjar a prenda!
Qual?
Amanhã no trabalho eu faço a prenda para a tua escolhida.
Pai, que prenda é que podes fazer? Tu trabalhas na fábrica.
Pois! Mas na galvanização. Lá fazem todos os revestimentos de metais.
Pai, não percebi.
Amanhã vês tu!
No dia a seguir o pai trouxe o pendente na corrente, um retângulo que parecia de ouro. Num dos lados estavam gravados os dois signos, o Touro e a Virgem, e no outro escrito pequenino mas bonito:
«À minha colega Inês pelo Oito de Março! Tiago».
Ai, como ficava giro aquele pendente! E quando a mãe o meteu num saquinho de celofane, ficou ainda mais bonito.
Chegou o dia sete de Março. A professora não ia dar aulas. Primeiro os alunos entregaram-lhe a prenda. Ela agradeceu muito. Depois disse aos rapazes para darem as prendas às raparigas.
Que confusão! Todos os rapazes correram para as suas escolhidas. O Tiago também foi ter com a Inês Ferreira e disse como o pai lhe tinha ensinado:
Inês, parabéns pelo Oito de Março! Talvez um dia o destino junte o Touro e a Virgem.
Depois da frase que tinha decorado, o Tiago voltou para o seu lugar e claro que não viu como o coração daquela rapariga, que ele achava feia, começou a bater mais forte.
Pouco tempo depois os pais da Inês mudaram-se para outro bairro e ela a partir do quinto ano foi estudar para outra escola.
O Tiago abriu os olhos. O teto branco da enfermaria. Tentou mexer as mãos e pernas. Só a mão esquerda se mexeu.
Onde é que estou? perguntou a ninguém.
Ouviu-se um som de muletas e um doente nas muletas aproximou-se da cama, olhou para ele e perguntou:
Já acordaste? Estás no serviço de cirurgia urgente.
As mãos e as pernas estão todas bem? perguntou o Tiago baixinho.
Parece que sim, tudo no lugar, – disse o outro com alegria. Só estás todo vendado da cabeça aos pés.
É bom se está tudo inteiro.
Chegou a enfermeira e perguntou com atenção:
– Como te estás a sentir?
– O que me aconteceu? respondeu com outra pergunta.
– A tua vida não corre perigo. As mãos e pernas vão trabalhar. Só vão ficar muitas cicatrizes, – entregou o telemóvel ligado. A tua mãe pediu para ligares quando acordasses.
– Filhinho, – a voz da mãe com lágrimas.
– Mãe, está tudo bem, – ele tentava parecer animado. Disseram que só ficam umas cicatrizes pequenas. Logo te dão alta.
– Não me deixaram ficar contigo durante a noite. Filhinho, vou já para aí.
– Mãe, não te angusties!
Pôs o telemóvel ao lado e tentou sorrir para a enfermeira:
– Obrigado!
– Bem, não te dão alta já, – sorriu ela. Vais ficar aqui umas três semanas pelo menos.
– O que aconteceu contigo? perguntou o vizinho de cama quando a enfermeira saiu.
– Eu sou socorrista. Na fábrica começaram a explodir os cilindros de oxigénio, – recordou o Tiago. Chamaram-nos. Chegámos antes dos bombeiros. A sala é grande, lá dentro havia três feridos. Entrámos, os cilindros estavam espalhados, em alguns sítios havia fogo. Começámos a tirar os feridos Eu saí por último Quando já estava à porta, outro cilindro explodiu Não me lembro do resto.
– Apanhaste forte.
– Mendes Tiago, – disse a enfermeira. Tens um colega do trabalho aqui.
– Olá, Tiago! Como é que estás?
– Mãos e pernas boas! respondeu o ferido com otimismo. Mas só consigo dar a mão com a esquerda!
– Não digas isso!
– O que aconteceu depois?
– Já estávamos a sair quando explodiu. Voltámos logo para trás, tiraram-te estavas coberto de sangue os médicos já lá estavam
– Obrigado!
– Tiago, do que estás a falar?! de repente o amigo sorriu. – Parecem que nos querem dar medalhas.
– Até lá dão-me alta.
– Pronto, vou andando. Agora é a ronda. A enfermeira disse que não demore.
Antes que o amigo saísse, entrou o médico, um homem de cerca de quarenta anos:
– Então, como estás, herói? aproximou-se da cama.
– Normal.
– Como já falas, vais viver. Vamos ver como estás!
– Foi o senhor que me cosseu? perguntou o Tiago.
– Não, foi a Inês. Ela vem depois de amanhã.
Passaram dois dias. O Tiago já tentava levantar-se. A dor nas pernas ainda era forte, a mão direita estava aberta. E tinha pelo menos dez feridas no corpo. Duas na cara, quando explodiu bateu com a cara no portão, ainda bem que esticou a mão direita. Olhou-se ao espelho. A cara continuava inchada.
Hoje o médico que o cosseu há dois dias durante cinco horas na sala de operações ia fazer a ronda. O Tiago até ficou nervoso.
E lá entrou ela. Jovem, magra, com óculos mas que não a estragavam, e a bata branca ficava-lhe bem. O Tiago com vinte e sete anos já tinha sido casado. Mas seis meses depois separaram-se, os caracteres não davam, como diziam no papel, mas na verdade a ex-mulher não gostava do salário de socorrista.
– Olá! disse ela e foi para a cama dele.
– Olá! Foi você que me cosseu?
– Fui eu, – sorriu. Está tudo bem?
– Deixa-me ver como estás!
Inclinou-se sobre ele Diante dos olhos o pendente com signos do zodíaco a balançar no pescoço dela:
– Inês Ferreira!!! exclamou.
Ela olhou para o rosto inchado dele.
– Desculpa! disse sem o reconhecer.
– Eu sou Touro, – apontou para o pendente.
– Tiago Mendes? os lábios tremeram. Ainda te lembras de mim?
– Claro que sim, Inês? vendo as lágrimas, ele pousou a palma da mão na dela.
– Desculpa! tirou o lenço e limpou os olhos. Nunca imaginei que nos iríamos ver assim.
Nesse dia a Inês não voltou ao quarto dele. Mas o Tiago já sabia que o horário dela era como o seu: dia, noite e dois de folga.
Não queria parecer fraco diante dela. No dia seguinte tentou andar pelo quarto apoiado nas camas, umas vezes segurando-se à parede saiu para o corredor.
Chegou a noite. O médico do dia foi-se embora. Veio o turno novo, dava para ver pelas conversas no corredor. Agora a ronda
De repente gritos e passos apressados. Quando trazem um novo ferido.
Já são dez horas. A enfermeira entrou, apagou a luz. Mas não adormecia. Já era depois da meia-noite quando ouviu passos no corredor, pararam, e no silêncio o Tiago sentiu mais do que ouviu alguém a chorar no corredor. Levantou-se e saiu devagar.
À mesa da receção estava a sua antiga colega de escola sentada, com a cabeça nas mãos a chorar. Aproximou-se e pôs a mão boa no ombro dela:
– Que se passa, Inês?
Ela levantou-se e encostou a cabeça no ombro dele:
– Operei uma mulher que foi atropelada, – contou sufocada. Fiz tudo o possível e o impossível Ela está agora na reanimação, mas não vai conseguir. Tem dois filhos o marido está lá com ela
– Acalma-te, Inês!
– Há três anos que sou cirurgiã e ainda não me habituo a ver as pessoas morrer.
– Acalma-te, acalma-te! As nossas profissões são assim. Em cinco anos também vi muitas mortes, mas salvámos muitas vidas também, – o Tiago suspirou. – Por causa disso é que a minha mulher foi embora. Diz que chego a casa diferente e que ganho pouco. Mas eu sempre tiro quarenta, dá para viver.
– Comigo é igual, – olhou para ele. Os rapazes olham para mim como se eu fosse doida. Até agora não casei, vivo com os pais como se fosse criança.
– Deixa-te estar, temos só vinte e sete anos, a vida toda à nossa frente.
– Não, Tiago, já temos vinte e sete.
– Inês, o pulso dela está a ir-se, – gritou a enfermeira.
– Desculpa! e a Inês correu para a reanimação.
Essa noite o Tiago não conseguiu dormir. De manhã a enfermeira deu-lhe a injeção como sempre.
– A mulher que operaram ontem à noite, está viva? perguntou ele sem pensar.
– Está viva, mas em estado muito grave.
Passaram três semanas. As feridas do Tiago cicatrizaram. Viam-se com a Inês quando ela estava de turno, e ele sentia-se cada vez mais atraído por ela. Mas o serviço de cirurgia de urgência não é sítio para conversas pessoais.
Durante uma ronda da manhã o médico disse:
– Hoje dou-te alta, – sorriu. Do hospital. Imediatamente vais à clínica e lá decidem quanto tempo ainda ficas de baixa.
– Posso arrumar as coisas!
– Sim, não te apresses. Já estão a preparar a alta.
Quando o médico saiu, o Tiago barbeou-se. Ao espelho viu que as duas cicatrizes que sobraram não estragavam a cara, davam até um ar de homem. Para as outras não vale a pena olhar.
Arrumou e saiu para o corredor. Ao encontro vinha uma doente agarrada à parede.
«Ela safou-se!» – pensou alegre.
A enfermeira saiu e deu-lhe a alta:
– Adeus, Tiago! Não voltes para aqui!
Tinha o seu apartamento mas foi para casa dos pais. A mãe estava tão ansiosa. Até tirou férias.
– Filhinho! atirou-se aos braços dele.
– Pronto, mãe! Vês, estou vivo e de boa saúde.
– Anda, preparei-te de comer. Ficaste tão magro.
– Ai, como senti falta da comida de casa!
– Até te recuperares e casares vives em casa. O teu quarto está à tua espera, – gritou como se ele fosse pequeno. Vai lavar as mãos!
Até à noite o Tiago foi ao cabeleireiro. Foi ao apartamento. Pegou em roupa. A mãe arrumou-a logo.
À noite chegou o pai do trabalho. Sentaram-se os três e conversaram até tarde.
Deitou-se no quarto dele, onde passou a infância, mas não adormeceu logo:
«Amanhã tenho de ir à clínica. Depois ao trabalho. E à noite»
Com essa ideia adormeceu já bem depois da meia-noite.
No dia seguinte de manhã foi à clínica. Até ao almoço andou de gabinete em gabinete. Depois do almoço foi ao trabalho, era o seu turno.
Para onde vais? perguntou o pai.
– Pai, lembras-te há muitos anos, quando eu andava no quarto ano. Tu fizeste um pendente para eu oferecer à colega?
– À Inês Ferreira que não era bonita? Lembro.
– Lembras-te que disseste: «Quando cresceres talvez te enamores dela».
– Lembro-me disso também.
– Pai, a Inês é cirurgiã agora. Foi ela que me operou. E ainda usa o pendente no pescoço.
– Olha que coisa!
– Pai, as tuas palavras cumpriram-se. Vou ter com ela!
Vinte e sete anos não é muito para começar a vida com a pessoa que se ama.Vem um clarão Um estrondo alto Escuridão Escuridão
Por fim a escuridão começou a afastar-se. Ouviu-se uma voz:
Inês, isto é o socorrista, explodiu qualquer coisa lá dentro.
Apesar da dor sentiu o toque de uma mão no pescoço. Tentou abrir os olhos, mas custou bastante. Diante dele apareceu um pendente retangular com os signos do zodíaco gravados Os olhos de uma mulher de bata branca
Para a sala de operações! veio uma voz bem ao lado.
Os pais chegaram do emprego. A mãe correu logo para a cozinha depois de espreitar o quarto onde o filho fazia os trabalhos de casa. O Carlos entrou no quarto e logo viu que o rapaz não estava com bom ânimo.
Tiago, o que foi? o pai afagou-lhe a cabeça.
Nada, – resmungou o filho do quarto ano.
Anda, conta lá!
Logo é o Oito de Março. A professora fez-nos ficar hoje e disse que tínhamos de arranjar prendas para as raparigas.
E qual é o problema? sorriu o pai.
Temos rapazes e raparigas em número igual. Ela distribuiu quem dá a quem, – o rapaz suspirou fundo. Calhou-me a Inês Ferreira, a que não é bonita.
Todas as raparigas querem prenda no Oito de Março, até as menos bonitas, – o pai tentava falar com ele como se fosse crescido. E como distribuiu? Por ordem alfabética?
Não, pelos signos do zodíaco.
Como assim? o Carlos não resistiu e sorriu outra vez.
Por compatibilidade. A Inês é Virgem e para as Virgens o Touro é o ideal. E eu sou Touro.
Isso é ótimo se combinam! Quando fores mais velho talvez te enamores dela.
O pai não aguentou e riu-se alto. A mãe entrou a correr no quarto:
O que é que se passa aqui?
Ana, vai para a cozinha, – o rosto do pai ficou sério. Estamos a ter uma conversa importante com o nosso filho.
Quando a mãe saiu, o Tiago perguntou triste:
Pai, e agora o que faço?
Arranjar a prenda!
Qual?
Amanhã no trabalho eu faço a prenda para a tua escolhida.
Pai, que prenda é que podes fazer? Tu trabalhas na fábrica.
Pois! Mas na galvanização. Lá fazem todos os revestimentos de metais.
Pai, não percebi.
Amanhã vês tu!
No dia a seguir o pai trouxe o pendente na corrente, um retângulo que parecia de ouro. Num dos lados estavam gravados os dois signos, o Touro e a Virgem, e no outro escrito pequenino mas bonito:
«À minha colega Inês pelo Oito de Março! Tiago».
Ai, como ficava giro aquele pendente! E quando a mãe o meteu num saquinho de celofane, ficou ainda mais bonito.
Chegou o dia sete de Março. A professora não ia dar aulas. Primeiro os alunos entregaram-lhe a prenda. Ela agradeceu muito. Depois disse aos rapazes para darem as prendas às raparigas.
Que confusão! Todos os rapazes correram para as suas escolhidas. O Tiago também foi ter com a Inês Ferreira e disse como o pai lhe tinha ensinado:
Inês, parabéns pelo Oito de Março! Talvez um dia o destino junte o Touro e a Virgem.
Depois da frase que tinha decorado, o Tiago voltou para o seu lugar e claro que não viu como o coração daquela rapariga, que ele achava feia, começou a bater mais forte.
Pouco tempo depois os pais da Inês mudaram-se para outro bairro e ela a partir do quinto ano foi estudar para outra escola.
O Tiago abriu os olhos. O teto branco da enfermaria. Tentou mexer as mãos e pernas. Só a mão esquerda se mexeu.
Onde é que estou? perguntou a ninguém.
Ouviu-se um som de muletas e um doente nas muletas aproximou-se da cama, olhou para ele e perguntou:
Já acordaste? Estás no serviço de cirurgia urgente.
As mãos e as pernas estão todas bem? perguntou o Tiago baixinho.
Parece que sim, tudo no lugar, – disse o outro com alegria. Só estás todo vendado da cabeça aos pés.
É bom se está tudo inteiro.
Chegou a enfermeira e perguntou com atenção:
– Como te estás a sentir?
– O que me aconteceu? respondeu com outra pergunta.
– A tua vida não corre perigo. As mãos e pernas vão trabalhar. Só vão ficar muitas cicatrizes, – entregou o telemóvel ligado. A tua mãe pediu para ligares quando acordasses.
– Filhinho, – a voz da mãe com lágrimas.
– Mãe, está tudo bem, – ele tentava parecer animado. Disseram que só ficam umas cicatrizes pequenas. Logo te dão alta.
– Não me deixaram ficar contigo durante a noite. Filhinho, vou já para aí.
– Mãe, não te angusties!
Pôs o telemóvel ao lado e tentou sorrir para a enfermeira:
– Obrigado!
– Bem, não te dão alta já, – sorriu ela. Vais ficar aqui umas três semanas pelo menos.
– O que aconteceu contigo? perguntou o vizinho de cama quando a enfermeira saiu.
– Eu sou socorrista. Na fábrica começaram a explodir os cilindros de oxigénio, – recordou o Tiago. Chamaram-nos. Chegámos antes dos bombeiros. A sala é grande, lá dentro havia três feridos. Entrámos, os cilindros estavam espalhados, em alguns sítios havia fogo. Começámos a tirar os feridos Eu saí por último Quando já estava à porta, outro cilindro explodiu Não me lembro do resto.
– Apanhaste forte.
– Mendes Tiago, – disse a enfermeira. Tens um colega do trabalho aqui.
– Olá, Tiago! Como é que estás?
– Mãos e pernas boas! respondeu o ferido com otimismo. Mas só consigo dar a mão com a esquerda!
– Não digas isso!
– O que aconteceu depois?
– Já estávamos a sair quando explodiu. Voltámos logo para trás, tiraram-te estavas coberto de sangue os médicos já lá estavam
– Obrigado!
– Tiago, do que estás a falar?! de repente o amigo sorriu. – Parecem que nos querem dar medalhas.
– Até lá dão-me alta.
– Pronto, vou andando. Agora é a ronda. A enfermeira disse que não demore.
Antes que o amigo saísse, entrou o médico, um homem de cerca de quarenta anos:
– Então, como estás, herói? aproximou-se da cama.
– Normal.
– Como já falas, vais viver. Vamos ver como estás!
– Foi o senhor que me cosseu? perguntou o Tiago.
– Não, foi a Inês. Ela vem depois de amanhã.
Passaram dois dias. O Tiago já tentava levantar-se. A dor nas pernas ainda era forte, a mão direita estava aberta. E tinha pelo menos dez feridas no corpo. Duas na cara, quando explodiu bateu com a cara no portão, ainda bem que esticou a mão direita. Olhou-se ao espelho. A cara continuava inchada.
Hoje o médico que o cosseu há dois dias durante cinco horas na sala de operações ia fazer a ronda. O Tiago até ficou nervoso.
E lá entrou ela. Jovem, magra, com óculos mas que não a estragavam, e a bata branca ficava-lhe bem. O Tiago com vinte e sete anos já tinha sido casado. Mas seis meses depois separaram-se, os caracteres não davam, como diziam no papel, mas na verdade a ex-mulher não gostava do salário de socorrista.
– Olá! disse ela e foi para a cama dele.
– Olá! Foi você que me cosseu?
– Fui eu, – sorriu. Está tudo bem?
– Deixa-me ver como estás!
Inclinou-se sobre ele Diante dos olhos o pendente com signos do zodíaco a balançar no pescoço dela:
– Inês Ferreira!!! exclamou.
Ela olhou para o rosto inchado dele.
– Desculpa! disse sem o reconhecer.
– Eu sou Touro, – apontou para o pendente.
– Tiago Mendes? os lábios tremeram. Ainda te lembras de mim?
– Claro que sim, Inês? vendo as lágrimas, ele pousou a palma da mão na dela.
– Desculpa! tirou o lenço e limpou os olhos. Nunca imaginei que nos iríamos ver assim.
Nesse dia a Inês não voltou ao quarto dele. Mas o Tiago já sabia que o horário dela era como o seu: dia, noite e dois de folga.
Não queria parecer fraco diante dela. No dia seguinte tentou andar pelo quarto apoiado nas camas, umas vezes segurando-se à parede saiu para o corredor.
Chegou a noite. O médico do dia foi-se embora. Veio o turno novo, dava para ver pelas conversas no corredor. Agora a ronda
De repente gritos e passos apressados. Quando trazem um novo ferido.
Já são dez horas. A enfermeira entrou, apagou a luz. Mas não adormecia. Já era depois da meia-noite quando ouviu passos no corredor, pararam, e no silêncio o Tiago sentiu mais do que ouviu alguém a chorar no corredor. Levantou-se e saiu devagar.
À mesa da receção estava a sua antiga colega de escola sentada, com a cabeça nas mãos a chorar. Aproximou-se e pôs a mão boa no ombro dela:
– Que se passa, Inês?
Ela levantou-se e encostou a cabeça no ombro dele:
– Operei uma mulher que foi atropelada, – contou sufocada. Fiz tudo o possível e o impossível Ela está agora na reanimação, mas não vai conseguir. Tem dois filhos o marido está lá com ela
– Acalma-te, Inês!
– Há três anos que sou cirurgiã e ainda não me habituo a ver as pessoas morrer.
– Acalma-te, acalma-te! As nossas profissões são assim. Em cinco anos também vi muitas mortes, mas salvámos muitas vidas também, – o Tiago suspirou. – Por causa disso é que a minha mulher foi embora. Diz que chego a casa diferente e que ganho pouco. Mas eu sempre tiro quarenta, dá para viver.
– Comigo é igual, – olhou para ele. Os rapazes olham para mim como se eu fosse doida. Até agora não casei, vivo com os pais como se fosse criança.
– Deixa-te estar, temos só vinte e sete anos, a vida toda à nossa frente.
– Não, Tiago, já temos vinte e sete.
– Inês, o pulso dela está a ir-se, – gritou a enfermeira.
– Desculpa! e a Inês correu para a reanimação.
Essa noite o Tiago não conseguiu dormir. De manhã a enfermeira deu-lhe a injeção como sempre.
– A mulher que operaram ontem à noite, está viva? perguntou ele sem pensar.
– Está viva, mas em estado muito grave.
Passaram três semanas. As feridas do Tiago cicatrizaram. Viam-se com a Inês quando ela estava de turno, e ele sentia-se cada vez mais atraído por ela. Mas o serviço de cirurgia de urgência não é sítio para conversas pessoais.
Durante uma ronda da manhã o médico disse:
– Hoje dou-te alta, – sorriu. Do hospital. Imediatamente vais à clínica e lá decidem quanto tempo ainda ficas de baixa.
– Posso arrumar as coisas!
– Sim, não te apresses. Já estão a preparar a alta.
Quando o médico saiu, o Tiago barbeou-se. Ao espelho viu que as duas cicatrizes que sobraram não estragavam a cara, davam até um ar de homem. Para as outras não vale a pena olhar.
Arrumou e saiu para o corredor. Ao encontro vinha uma doente agarrada à parede.
«Ela safou-se!» – pensou alegre.
A enfermeira saiu e deu-lhe a alta:
– Adeus, Tiago! Não voltes para aqui!
Tinha o seu apartamento mas foi para casa dos pais. A mãe estava tão ansiosa. Até tirou férias.
– Filhinho! atirou-se aos braços dele.
– Pronto, mãe! Vês, estou vivo e de boa saúde.
– Anda, preparei-te de comer. Ficaste tão magro.
– Ai, como senti falta da comida de casa!
– Até te recuperares e casares vives em casa. O teu quarto está à tua espera, – gritou como se ele fosse pequeno. Vai lavar as mãos!
Até à noite o Tiago foi ao cabeleireiro. Foi ao apartamento. Pegou em roupa. A mãe arrumou-a logo.
À noite chegou o pai do trabalho. Sentaram-se os três e conversaram até tarde.
Deitou-se no quarto dele, onde passou a infância, mas não adormeceu logo:
«Amanhã tenho de ir à clínica. Depois ao trabalho. E à noite»
Com essa ideia adormeceu já bem depois da meia-noite.
No dia seguinte de manhã foi à clínica. Até ao almoço andou de gabinete em gabinete. Depois do almoço foi ao trabalho, era o seu turno.
Para onde vais? perguntou o pai.
– Pai, lembras-te há muitos anos, quando eu andava no quarto ano. Tu fizeste um pendente para eu oferecer à colega?
– À Inês Ferreira que não era bonita? Lembro.
– Lembras-te que disseste: «Quando cresceres talvez te enamores dela».
– Lembro-me disso também.
– Pai, a Inês é cirurgiã agora. Foi ela que me operou. E ainda usa o pendente no pescoço.
– Olha que coisa!
– Pai, as tuas palavras cumpriram-se. Vou ter com ela!
Vinte e sete anos não é muito para começar a vida com a pessoa que se ama.
