-Bravo, Irinha. Encontraste o teu destinoAo abrir a caixa antiga, descobriu um mapa que a levaria ao tesouro escondido nas falésias do Algarve.

Lurdes era a convidada mais invisível no aniversário de Mariana. As duas estudavam juntas na escola secundária.
Mariana, com um gesto amplo, convidou todos que pudessem aparecer, mas muitas raparigas partiam para o interior nos finsdesemana. Lurdes, tímida e recatada, decidiu aceitar o convite.

Ela não tinha muitos compromissos, e também acabara de completar dezoito, tal como Mariana. Só que celebrar o seu dia ao lado de estranhos não lhe apetecia

Não tinha amigas, e os pais insistiram que ficasse em casa, à roda dos avós, numa tipicamente portuguesa casa de família.

«Então é isso», pensou ela, «cumprir um aniversário que parece ter cinco ou dezoito anos, mas nada muda».

Claro que Lurdes queria os pais, mas não percebia quando seria, de verdade, adulta e independente. Quando alguém, ao menos um rapaz, notaria a sua delicadeza, a beleza quase impercetível?

Lurdes sonhava com o amor, mas envergonhavase de si mesma. Não era tão luminosa quanto a própria Mariana, nem como a amiga Sofia, que se pintava ousada, vestia-se na última moda e, por vezes, de forma provocadora nas aulas, arrancando comentários dos professores.

A roupa de Lurdes, porém, era sempre escolhida pela mãe e tricotada pela avó. E ela reclamava de que a neta pouco usava as peças.
Lurdes simplesmente não conseguia sair de casa vestida com os suéteres antiquados da avó; só os mantinha para o interior, sobretudo no inverno.

Na noite do aniversário, a turma da escola reuniuse na casa de Mariana, com doze rapazes presentes. Quando a mesa ficou vazia e a música começou, Lurdes saiu do apartamento e sentouse numa bancada junto à escadaria.

Ninguém sequer notou a sua partida. A garota sentiase invisível perante os rapazes desconhecidos; talvez fosse isso que a entristecia mais.

Olhou para o relógio.
«Talvez devesse já ir, a mãe deve estar a preocuparse», pensou. «Prometi que não chegaria tarde»

De repente, do corredor, apareceu um rapaz que não fazia parte dos convidados. Sentouse na mesma bancada e fitou tristemente as janelas do segundo andar, de onde surgia música alegre e risos.

«És daqui?», perguntou ele a Lurdes. Ela assentiu, apontando para a janela de Mariana.

«E a Mariana? Está a dançar? A divertirse?», insistiu ele, os olhos carregados de melancolia.

Lurdes, reunindo coragem, respondeu:
«Não se ouve? Sim, eles divertemse»

«É por isso que é aniversário», respondeu o rapaz. «Eu, por outro lado, passei o dia a sentirme só. Nem um chá com bolo em família, como quando se é criança numa creche»

Lurdes arqueou as sobrancelhas, surpresa.
«Também é assim para mim. És amigo dela?», indagou, ainda a apontar para as janelas.

«Um pouco», respondeu ele. «Eu gostaria de ser amigo, mas ela não me presta atenção. Nem me convidou para o aniversário. Somos vizinhos há tanto tempo que ela já vê como a trato»

O rapaz calouse. Lurdes suspirou compreensivamente e, de repente, disse:
«Não te preocupes. Eu também passo por tudo isto. Mas de que serve? Ninguém percebe. Saí de lá e ninguém reparou. Sou como um invisível: o que sou e o que não sou não importa a ninguém»

«Para já, mas», tentou tranquilizála o rapaz. «Talvez existam pessoas como nós. Desafortunadas»

«Não, não é azar. É invisibilidade, ausência de imposição. Pode ser até vantagem, uma certa independência, até liberdade», respondeu Lurdes.

«Achas mesmo?», surpreendeuse o rapaz. «Chamamme Tiago. E tu?»

«Lurdes», respondeu ela.

Continuaram a ouvir a música, lançando o olhar de vez em quando para as janelas, na esperança de que Mariana surgisse e os chamasse para a festa, mas ninguém foi chamado.

«Foi bom conhecerte», disse Lurdes educadamente. «Mas tenho de ir para casa. Prometi não ficar muito tempo»

«Vou contigo até à paragem», propôs Tiago.

Caminharam pelo parque, falando e sorrindo sem perceber. Tiago sentiu que a sua atenção trazia conforto a Lurdes; viua corar, as pequenas covinhas nas bochechas, os cílios longos que ela desviava quando ele a observava intrigado.

Ele começou a contar histórias engraçadas da sua juventude, na esperança de ouvir o seu riso cristalino e prolongar o momento.

Chegaram à paragem. Lurdes agradeceu, mas Tiago não se queria afastar antes que ela subisse ao autocarro. Ela, como que por acidente, perdeu o primeiro autocarro e entrou só no segundo

Ao subir, acenou como se fossem velhos amigos. Tiago ficou ali, imóvel, incapaz de partir, encantado pelos olhos expressivos da rapariga.

Ele virouse e foi para casa, mas, de repente, percebeu que queria reencontrar Lurdes. Não tinha número de telefone, nem endereço. Como é que se faz isso?, pensou, desconfortável.

Na manhã seguinte, Tiago acordou e correu até ao apartamento de Mariana. Subiu as escadas e bateu à porta.

Mariana abriu e, com um sorriso amarelo, disse:
«Então, lá vem tu outra vez Não vou sair contigo, Tiago. Já te avisei»

«Não, não», corou Tiago. «Queria apenas pedir o número da tua colega de turma. Ela esteve aqui ontem. Preciso de lhe entregar algo Deixouse algo na bancada Dáme o contacto, por favor.»

«De quem?», indagou Mariana.

«Chamase Lurdes.»

«Lurdes? Que Lurdes? Ah, Irka», disse Mariana, rindo, enquanto buscava um papel. «Aqui está. Dáme»

Entregoulhe um pequeno pedaço de papel com a palavra «Romeu». Lurdes, a silenciosa E o que teria feito? sorrindo, fechou a porta.

Tiago, com a nota como um talismã, correu para casa. Passou o dia a escolher as palavras certas e a ficar nervoso. Ao cair da noite, telefonou a Lurdes, convidandoa novamente para um passeio e prometendo-lhe um gelado.

Para surpresa e alegria de Tiago, Lurdes aceitou com prazer. A sua voz ao telefone parecia ainda mais suave, mais doce, como se fosse um eco de um sonho.

Passearam pelo parque, comeram gelado e descobriram muito um sobre o outro. Os seus temperamentos e interesses revelaramse surpreendentemente semelhantes.

«Agora eu convidote», disse Lurdes ao despedirse, sorrindo. «Da próxima vez não vamos ao parque, mas ao cinema. Queres?»

Desde então, Lurdes e Tiago não se separaram. Frequentaram cinemas, museus e, depois de um ano, começaram a viajar juntos, já vistos como noivos pelos amigos.

Dois anos depois do primeiro encontro, casaramse.

A mãe de Lurdes exclamou que era cedo demais para a filha se casar. A avó, porém, respondeu:
«Bravo, Lurdescinha. Encontraste o teu destino e casastete. Não há necessidade de trocar cavaleiros. Com um rapaz como o Tiago, vai ser feliz. Cuidate dele como se fosse um filho. O que mais precisa?»

«E a tímida», comentaram as colegas de turma. «Foi a primeira a casar, e o rapaz está radiante, a brilhar.»

Ambos iluminavam o futuro. Lurdes e Tiago encontraram, um no outro, compreensão, carinho e o amor que tanto sonhavam.

Anos depois, ainda sorriam ao lembrar da bancada junto à escadaria, o ponto de encontro que os ligou para a vida inteira

—E naquela manhã, ao ouvir o sussurro do vento nas vielas de Lisboa, Lurdes soube que a memória daquele banco seria a ponte eternamente invisível entre eles.

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-Bravo, Irinha. Encontraste o teu destinoAo abrir a caixa antiga, descobriu um mapa que a levaria ao tesouro escondido nas falésias do Algarve.