Querido Diário,
Hoje acordei ao som de um latido triste vindo da praça da aldeia. Enquanto passeava, avistei um cão que jazia debaixo do banco da igreja, a cauda ainda a balançar tímida. Corri até ele, e ali também encontrei o cabo da coleira que a minha irmãsogra, a Sílvia, deixara jogado ao acaso. O animal, que chamei de Mauro, fitoume com aqueles olhos carregados de melancolia, como se pedisse socorro.
Há quase dois anos que o meu irmão Tiago e eu mal falamos. Ainda não consigo entender como um pequeno desentendimento se transformou num furacão de ressentimentos. Tiago e eu nascemos com um ano de diferença, sempre fomos inseparáveis desde a infância, defendendonos mutuamente. Qualquer travessura cometíamos, a responsabilidade era compartilhada, nunca nos escondíamos atrás do outro.
A nossa aldeia, São Martinho do Vale, tem crescido a cada primavera, florescendo como as rosas do campo. Tivemos a sorte de ter como presidente da junta o nosso vizinho Manuel Almeida, nascido aqui e reconhecido como um brilhante economista.
Depois de terminar o curso de Agronomia, voltei para casa e mergulhei nas tarefas comunitárias. O meu empenho foi logo reconhecido; dez anos depois, Manuel tornouse presidente da autarquia de São Martinho. Na vida pessoal, as coisas também foram bem. Depois de concluir o ensino técnico de enfermagem, comecei a trabalhar na clínica da aldeia como enfermeira. O presidente Manuel não pôde ficar indiferente a alguém tão dedicada e bonita; ele demonstrou interesse, eu correspondi e finalmente casámos. O casamento foi celebrado por toda a aldeia, e Tiago ficou feliz por ver a irmã encontrar a felicidade, embora o próprio casamento de Tiago com Sílvia fosse, ainda assim, um mar de tempestades.
Enquanto eu estava ainda a viver a lua de mel, Sílvia costumava rosnarme, chamandome de inútil ou pretensiosa. Depois da cerimónia, o ciúme transformouse em inveja. Ela passou a exigir tudo de Tiago casa maior, carro mais caro, o melhor de tudo. A cada dia, repetianos: Os outros têm tudo, a gente não tem nada!. Tiago esforçavase ao máximo, mas nenhum esforço conseguia saciar os desejos de Sílvia, nem em dinheiro nem em trabalho.
Sílvia também sofria; o Senhor não lhe concedeu a alegria da maternidade. Enquanto isso, eu construía a minha família, tive um filho e depois uma filha, ergui uma casa espaçosa e o marido alcançou um posto respeitável.
Os encontros familiares terminavam cada vez mais em discussões. Sempre que Tiago visitava a nossa casa, Sílvia, sem demora, começava a repreendero. O último escândalo ocorreu no aniversário de Tiago. Eu trouxelhe, como presente, um filhote de labrador que tanto desejava, vindo da cidade; Manuel ofereceulhe ainda uma nova motocicleta.
Tudo corria bem, até que Sílvia, embriagada, perdeu a paciência e descarregou sobre mim todo o veneno acumulado:
Então, Lurdes, o cão é uma brincadeira? Se já não há criança, que tal comprar um cão?!
Eu tentei acalmar a situação:
Sílvia, respira. Depois vais dar as costas a isto
Mas as palavras não foram suficientes. O debate explodiu, os convidados dividiramse em duas bancadas. Manuel, em voz baixa, pediu à esposa que se retirasse, e nós, ao nos despedirmos, deixámos a festa.
Passaramse dois anos. Desde então Tiago evitou-me, reduzindo os nossos encontros a raras e curtas visitas. Entre ele e Sílvia a tensão só aumentou. À noite, Tiago começou a passear à beira do rio com o Mauro. Os dois pareciam felizes: Tiago lançava o pau, Mauro corria atrás, e depois deitavase ao seu lado, ouvindo as histórias calmas do dono.
Os vizinhos comentavam, mas eu nada fazia Tiago permanecia inflexível.
Depois de mais um desentendido, Sílvia passou a odiar não só a mim, mas também ao Mauro, que ela havia presenteado. Quando Tiago não estava em casa, expulsava o cão, atiravao fora da porta e, por vezes, até o batia. As vizinhas comentavam:
Ouvi dizer, Sílvia, que o teu marido anda novamente à beira do rio com o cão
Ontem foi visto a brincar com a Lurdes e os miúdos Riamse à beça!
O ciúme de Sílvia era total. Num dia, Tiago lhe perguntou:
Sílvia, não vais machucar o Mauro?
Eu não preciso do teu cão! respondeu, furiosa, e saiu da sala.
Mauro começou a fugir cada vez mais da presença dela e tremia ao vêla.
Tudo acabou quando, numa manhã, Tiago, furioso, gritou:
Já chega desta inveja constante!
Sozinho, consumido pela raiva, Sílvia arrastou o Mauro para o quintal, amarrouo ao banco da praça e o açoitou com uma correia. O pobre animal chorou de dor. Depois, exausta, largou a correia, arrumouse e saiu de casa para nunca mais voltar.
Quando Tiago chegou ao final do dia, não encontrou o cão na porta. O quintal estava em caos. No banco, encontrou Mauro, preso pela correia, a respiração ofegante. Libereio rapidamente, pegueio nos braços e corri para a clínica.
Eu, que estava a terminar o meu turno, vio chegar, sangrando e com o olhar suplicante:
Lurdes, ajudame implorou Tiago, com a voz rouca.
Leveio ao consultório. Examinei o animal com cuidado:
Quem lhe fez isto?
Sílvia baixou o olhar Tiago.
Assenti em silêncio, suturando as feridas, lavei os olhos do cão e deilhe água.
Mais tarde, no corredor, Tiago, arrependido, sussurrou:
Perdoame, Lurdes
Já chega respondi, sorrindo cansada. E a Sílvia?
Não, Lurdes. Não mais.
Liguei para o Manuel:
Manuel, vem aqui, por favor.
Assim que ouvi a voz cansada da minha irmã, Manuel já se dirigia ao local. Em meia hora, chegou ao corredor. Ao ver o casal abraçado, com Mauro à sua frente, o cão fez um leve gemido, como se agradecesse:
Venham, meus heróis.
Levaramme ao lar, e eu recebi conselhos sobre como cuidar do Mauro.
Quando contei à nossa mãe o que se tinha passado, ela apenas suspirou:
Devia ter sido feita há muito tempo.
Erguime e fui ao quarto do filho para ajudar a pôr ordem na casa.
No final da tarde, Tiago sentouse no sofá a acariciar Mauro. A mãe entrou, tocounos a ambos:
Estão vivos?
Estamos respondeu Tiago.
Um perfume suave de carne assada e legumes frescos espalhouse pela casa. Mauro abanou o rabo, cheirou o ar e deu um pequeno salto. Tiago sorriu, levantouse e, pela primeira vez em muito tempo, pareceu que a vida voltava ao normal.
Assim, a roda da vida continua a girar. Ainda há feridas, mas há também esperança.
Até a próxima,
Lurdes.
