Eu não vou conseguir viver sem vocês
“Leonor, perdoa-me, apaixonei-me por outra. Estou de partida, o apartamento fica para vocês. Desculpa ter ido tão silenciosamente, sem avisar. Não conseguia suportar ver as tuas lágrimas, por isso decidi deixar-te esta carta. Acredita, para mim também é difícil E dá um beijo ao nosso filho por mim”
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Sol da minha vida, está na hora! acordei o Joãozinho com carinho, para depois ir ao quarto chamar o meu marido, Hugo.
Amor, já são horas de trabalhar! Levanta-te! entre risos, fiz-lhe cócegas no pé que espreitava por baixo do edredom.
O Hugo soltou um gemido, pouco à vontade com as manhãs, como sempre. Ao contrário de mim: mal nascia o sol, já eu estava a pé, pronta a preparar o pequeno-almoço, arranjar-me e ainda orientar algumas tarefas domésticas antes que os homens cá de casa como lhes chamava acordassem. Mas é verdade, também me deitava cedo, pois o dia esgotava-me.
Estava sentada na cozinha quando vi o João entrar, a esfregar os olhos ainda com sono.
Primeiro lavar a cara e escovar os dentes, só depois é que há pequeno-almoço apontei para a casa de banho.
O miúdo, obediente, lá foi. Minutos depois, já estávamos sentados à mesa quando o Hugo apareceu, com ar muito pálido.
Leonor, acho que hoje fico em casa. Vou ligar ao escritório a avisar
Preocupei-me de imediato.
O que se passa? Estás doente?
Dói-me a cabeça e sinto-me maldisposto encostou-se ao vão da porta, com ar abatido.
Saltei da cadeira, pus-lhe a mão na testa e olhei-o nos olhos, angustiada.
Não pareces ter febre. Fico contigo? Ou queres que fique em casa contigo?
Não, amor, vai trabalhar, leva o João à escola. Eu tento descansar, pode ser que passe Ligo-te caso fique pior.
Liga mesmo, sim?
Sim. Até logo, amor sorriu com esforço.
O resto do dia andei inquieta, não conseguia pensar noutra coisa senão no Hugo. Fiquei com aquela sensação estranha de que algo ia acontecer, uma angústia sem explicação. Achei que ele se andava a esforçar demais no emprego.
Pedi para sair mais cedo do trabalho, fui buscar o João que estava em casa de um amigo e seguimos rumo a casa. No carro, o miúdo notou a ansiedade no meu rosto.
Mãe, o que se passa? Era suposto chegares mais tarde Também estás doente, como o pai? Estão os dois tão pálidos!
Encarei o meu filho de doze anos, já tão crescido e perspicaz.
Estou só preocupada com o pai. Não se estava a sentir bem, quero ter a certeza que está tudo bem.
O João encolheu os ombros e não perguntou mais nada. Chegámos a casa e corri para o elevador, ele a arrastar a mochila atrás. Quando abri a porta, a casa estava demasiado silenciosa. O Hugo não estava em lado nenhum. Procurei em todos os quartos, em vão, voltei à sala onde o João, pálido e de quase lágrimas nos olhos, segurava uma folha.
O que tens aí? Dá-me isso.
A voz tremia-me. O João estendeu-me a carta que ele já tinha lido.
“Leonor, perdoa-me, apaixonei-me por outra. Estou de partida, o apartamento fica para vocês. Desculpa ter ido tão silenciosamente, sem avisar. Não conseguia suportar ver as tuas lágrimas, por isso decidi deixar-te esta carta. Acredita, para mim também é difícil E dá um beijo ao nosso filho por mim”
Que cobarde murmurou o João.
Não digas isso, é teu pai murmurei, sem saber o que lhe dizer.
Ele abandonou-nos! Odeio-o!
O João saiu disparado para o quarto e bateu com a porta. Doeu-me ouvi-lo assim, perceber que não compreendia como tudo mudara tão de repente. Sempre estivemos tão bem, sempre fomos uma família feliz Sentei-me, voltei a pegar na carta.
“Conheci a Beatriz há dois anos e nunca encontrei coragem para sair. Agora tive de o fazer. Espero que um dia me perdoes. Por favor não mostres isto ao João, não queria que ele pensasse mal de mim.”
Sorri com amargura. Nosso filho já sabia tudo sozinho, e sim, saberia que pensar de um pai que tinha optado por nos deixar assim.
Vagueei pela casa, acabei no quarto. Só aí reparei que as roupas dele também já tinham desaparecido. Fui ao chão, incapaz de me segurar, chorei ali mesmo por tudo o que aquilo significava. A minha vida desmoronara-se num instante, de forma tão súbita. Queria, com todas as forças, recuar a manhã e ter ficado em casa talvez isso tivesse impedido o Hugo de nos deixar. Mas, no fundo, sabia que nada o teria detido. Se foi capaz de nos abandonar assim, teria sido inevitável. Ainda assim, doía que não tivesse coragem de me dizer tudo na cara.
Ao recuperar, fui lavar o rosto e depois sentei-me ao lado do João, que estava deitado na cama a olhar para o teto. Tinha estado a chorar, notava-se.
Mãe, porquê? Porque é que ele fez isto?
Filho, não sei. Ele deixou de gostar de mim, mas tu continuas a ser filho dele.
Não, mãe, ele disse sou obrigado a sair. Isso quer dizer que a nova mulher está grávida, não é? Eu já percebi tudo, já não sou nenhum bebé. Ele deixou de gostar de mim também. Será que fiz alguma coisa de mal? Ele prometeu que íamos ao futebol no sábado e depois almoçávamos fora. Será que eu estava a pedir demasiado?
Escutei com dor as interrogações do João. Sentia o mesmo que ele um vazio, uma rejeição. Mas também sabia que ele precisava do pai. Não queria ser eu a impedir qualquer ponte entre eles, não queria que crescesse a odiar o Hugo.
Acariciei-lhe o braço.
Não, filho, não o cansaste, garanto-te isso. O pai não queria que lesses a carta. Encontrou outra pessoa, sim, mas tu és e vais ser sempre o filho dele. Vais ver que ele vai querer estar contigo, mesmo que agora pareça difícil.
Mas ele traiu-te murmurou o João, sombrio.
Sim, traíra-me, e eu também sentia tudo dor, raiva, humilhação. Dois anos a mentir, a olhar-me nos olhos, enquanto já vivia outra vida.
Os dias seguintes foram angustiantes. Pedi o divórcio, o João dizia que nunca perdoaria o pai. Apesar de crescido, às vezes ouvia-o chorar no quarto à noite. Mas aos poucos a dor foi passando. Aprendemos a viver sem o Hugo, que nem sequer quis manter o contacto com o filho. Dizia que não tinha tempo, que tinha agora outra família. Isso magoou o João, claro, e passava-se semanas em silêncio, revoltado.
Seis meses depois, quebrei o ritmo ao chegar a casa ao ouvir vozes exaltadas no átrio. Subi a correr as escadas e deparei-me com Hugo, de olhar suplicante para o João, que gritava:
Vai-te embora! Já não tens direito de aparecer aqui! Odeio-te! A mãe também já não gosta de ti!
João, deixa-me falar contigo Filho
Vai-te embora!
Cheguei e o João acalmou ao ver-me. O Hugo deu um passo na minha direção, ansioso.
Leonor, voltei. O João não me deixa entrar, mas tu de certeza que me perdoas?
Mãe, não! o João, em pânico, pediu-me com os olhos.
Olhei para o Hugo. Já o amei tanto, achei que não ia saber viver sem ele. Mas depois da traição, percebi que, mesmo perdoando, nunca mais teríamos uma família.
Então? sorriu, avançando Deixam-me entrar? O vosso pai, o vosso marido?
Tu eras isso há seis meses a minha voz soou distante, agora já não tens lugar nesta casa. Se quiseres metade do apartamento, pede no tribunal, mas em nossa família já não entras.
Como? Vais mandar-me embora? Leonor, peço-te, perdoa-me! Eu não sei viver sem vocês!
Eu já te perdoei, mas não vamos voltar atrás.
Depois disso, entrei em casa e fechei a porta. O João esboçou um sorriso, apesar da tristeza.
Mãe, não chores por ele. Nós estamos bem, só nós os dois.
Retribui o sorriso, limpando uma lágrima. Espreitei pela porta, durante uns segundos vi o Hugo a olhar para o nosso lar, antes de finalmente se afastar.
No fundo, senti um alívio. Tinha conseguido afastar o traidor e o mentiroso. Era altura de deixar de chorar pelo passado. O futuro era nosso.
Joãozinho, portaste-te bem disse-lhe, piscando-lhe o olho.
E se pedíssemos uma pizza? Para festejar? Pode ser, mãe?
Ele sabia que tínhamos superado o pior. Ri-me, feliz por o ver sorrir outra vez.
Porque não? E uns pastéis de nata!
O João sorriu como já não o via há meses. Percebi finalmente que íamos mesmo conseguir ser felizes, só nós. Ainda não agora, mas havemos de lá chegar.
