-Teresa, para que é que precisas de um apartamento tão grande, hã? Tu vives sozinha. Nem filhos, nem homem, pelo que sei. Amigos também não vejo muitos. Então para quê precisas de dois quartos? E olha para nós, cinco pessoas apertadas numa casa só. Anda lá, filha, decide-te. Olha que depois até podemos trocar de volta. Assim que os meus miúdos crescerem, fazemos o troca-troca outra vez. O que achas? O meu pai olhava para mim de forma insistente, com aquele ar meio suplicante.
O que eu acho? Gostava era de saber o que ele pensa ao certo. Como é suposto eu ver a situação de um pai que desapareceu tantos anos da minha vida, de repente aparecer com este proposta tão generosa? Fiquei paralisada. Nunca me passaria pela cabeça que a ousadia das pessoas pudesse chegar a estes extremos… E quanto a amigos, claro que os tinha. Exatamente o suficiente para aquilo que eu queria…
-Então, Teresa, fechamos negócio? repetiu ele com pressa.
-E a mãe? perguntei.
-A tua mãe? estranhou ele.
-Sim, ela vem cá passar uns dias, umas duas vezes por mês, às vezes até uma semana inteira. Preciso do segundo quarto para ela.
-Duas vezes por mês? Não há problema! No meu anexo ainda tenho lá um sofá-cama velho. Limpamos, compomos e pomos na cozinha. Olha que até é confortável. E tem o frigorífico logo ali ao lado riu-se ele. Não precisa de ir longe. Cama e cantina tudo junto…
Eu já nem conseguia ficar zangada. As palavras do meu pai sozinha, isolada, coitadita já nem me atingiam. Limitava-me a ficar boquiaberta com a sua lata. Como é possível ser-se tão despachado? Será que ele pensa mesmo que é o mais esperto do bairro e que andamos todos a dormir?
-Teresa, é melhor opção para ti. Vês, a tua mãe só precisa, o quê, duas vezes ao mês? E nós aqui precisamos de casa todos os dias! Consegues ver a diferença?
Pois, claro. Ele com a família. Eu, pelos vistos, nem família sou. Há muito tempo. Só porque sou filha do primeiro casamento dele. Os três pestinhas dele e a mulher esses sim, são uma família! Suspirei. Nem me apetecia discutir. Só queria ver quando é que ele perceberia que não é só ele que percebe do assunto…
-Pai, acabei agora de pagar o empréstimo do banco. Trabalhei anos para ter esta casa… Dói perder isto.
-Oh, vá lá… Não faças dramas. Trabalhaste tanto… Não te esqueças que tiveste um empurrãozinho no início. Ou já não te lembras? desconfiou ele.
Empurrãozinho? Interessante Sabe tudo, não é? Mas olha que quem me ajudou não foste tu, foi a mãe. Mas para quê dizer-lho se não quer ouvir? Não faz sentido.
-Pai… Vou pensar, está bem? disse-lhe eu, a evitar uma resposta direta.
-Ah, pensa à vontade! Pensar nunca fez mal a ninguém bateu-me no ombro com daqueles sorrisos.
***
-Teresa, devias era mandá-lo passear e pronto! Trocar de casa só porque sim E que mais? Ainda lhe ofereças a casa como prenda? Só visto, filha! a minha mãe andava pelo corredor de um lado para o outro, furiosa.
-Mãe, não é assim tão simples É o pai, sinto-me mal em ser bruta encolhi-me.
-Filha! Por favor! Mal estar? Mal estar tens era ele! Pedir-te casa como se nada fosse, é preciso não ter vergonha. Tu sabes que ele é assim, vive de facilidades. Sempre foi igual. Tu é que não viste porque não cresceste com ele… Mas não te culpes, ouviste? Não é culpa tua. A minha mãe sorriu e acariciou-me a mão.
-Eu sei… Já nem me chateio. Mas não é a primeira vez que me pede isto. Achei que tinha percebido mal, mas afinal… Ele era assim quando estavam juntos?
-Sempre assim. Tu conheceste-o já em adulta, não viste metade do que foi. Olha, quando nos separamos, o teu pai até queria dividir a casa da minha mãe. Porque também lá viveu. Acreditas? riu-se ela, apesar do olhar sério.
-Se calhar cortava já relação, mãe… Achas que devo?
-Deixa estar, filha. Não sejas como ele. E sim, é teu pai. Família, como se costuma dizer…
-Claro Família. Só que para ele nós não contamos. Suspirei.
A minha mãe encolheu os ombros, sabendo bem que era verdade. Mas fazer o quê? Talvez só o tempo dê resposta…
Também encolhi os ombros e desviei o olhar. É engraçado isto: lá daquele lado, uma família, e eu nem conta. Na verdade, os três filhos de quem o pai se gaba sem parar: quem andou primeiro, quem perdeu o dente, quem caiu, o que adora contos de fadas. E a mulher dele, que o idolatra.
-Pronto mãe, vou tentar não me chatear. Se insistir, digo-lhe claramente que não. Antes poucas conversas do que nenhumas. Já há quem nem pai tenha, e pelo menos, ele não bebe como muitos outros tentei animá-la.
-Se calhar… respondeu ela sem convicção.
A próxima vez que vi o meu pai foi uma semana depois, em casa dele, enquanto a família tinha ido toda junta ao centro de saúde.
-Teresa, chegaste mesmo a tempo! Vê lá o armário embutido que tenho aqui. Maior que muitos quartos! Todas as tuas tralhas cabem lá dentro. E vê estas paredes, tão alegres guiava-me entusiasmado pela casa.
-Pai…
-E vai ver a cozinha, pequena mas toda jeitosa. Aqui metemos o sofá para a tua mãe, que achas? O frigorífico já tem uns aninhos, mas vai-se trocando. Tenho até ali um cartão de descontos para o supermercado…
-Pai! Mas por que voltas sempre à mesma conversa? Não me interessa o frigorífico, nem os papéis de parede, nem o cartão… comecei a perder a paciência.
-Então porquê? Filha, tens de ver como seria antes de mudares, não? Preparares-te para a tua nova casa, não achas? olhava-me, mas tinha ar de quem olhava através de mim.
-Pai, desculpa ter-te deixado esperançoso… Mas não vou mudar para aqui. A minha casa serve-me bem. disse com algum receio.
-Está bem, está bem. Mas olha só para a nova casa de banho! Ainda ontem pus, está nova. E a sanita é polaca, de primeira! continuava, como se nem me ouvisse.
-Estás a gozar!? Eu disse-te não me vou mudar! Sinto-me bem na minha casa, não quero trocas! Acabou! irritei-me, zangada com ele, comigo e com o que esta situação me obrigava a viver.
-Não vai haver troca? Estás a fazer-te de esquisita, é isso? Então para que vieste cá? E porque continuas a passar por aqui? Não é justo. Teresa, eu estava a contar contigo. E tu tu desiludiste-me os olhos dele tornaram-se estranhos. Baixei a cabeça e saí em silêncio…
Percorri as ruas alfacinha de outono sem saber se havia de rir ou chorar. Parei, peguei no telemóvel e apaguei o número do meu pai, todos os contactos. Só então respirei fundo, aliviado. Que se há de fazer talvez tenha sido a única decisão sensata. E o pai? Se quiser, encontra-me. Pode sempre ligar, até aparecer. Mas cá no fundo, eu sentia que não, que não iria acontecer. Porque, afinal, já não tinha mais nada de mim a tirar. A troca não se fez…
