Alugou o João um carro, quando a esposa teve alta do hospital, carregaram-na com o vizinho para dentro da casa. «Tudo vai ficar bem, – consolava a esposa, – tu só vive. Mesmo que fiques sentada a conversar comigo. Só vive. E eu consigo tudo. Só não me deixes, minha pomba…!»

Há muitos anos, numa pequena aldeia portuguesa do interior, Inês aos seus 35 anos considerava que nunca sentiria a felicidade de ser mulher, mas o destino ordenou de outra forma. Juntaram-se quando ambos já rondavam os quarenta. António era viúvo há três anos nessa altura. Inês nunca tinha casado, embora tivesse um filho. Como se diz por aí, criou-o só para si. Na juventude manteve um caso com o bonito Miguel de cabelo escuro, que prometeu casamento e encantou a jovem Inês. Ela caiu nas palavras que afinal eram falsas. Depois soube-se que o pretendente, chegado de uma cidade próxima, já tinha esposa.

Até a mulher legítima de Miguel apareceu em casa de Inês a suplicar que a rapariga não destruísse uma família alheia. A jovem inexperiente Inês cedeu. Mas resolveu ficar com a criança.

Assim foi. Inês deu à luz João. O rapaz tornou-se a sua única alegria e consolo. João recebeu boa educação, aprendeu bem. Depois da escola entrou na universidade de economia. António passou várias vezes por casa de Inês. Propôs que vivessem juntos. A mulher hesitava, embora gostasse dele. Inês sentia um certo embaraço por causa do filho e do desejo de ser finalmente feliz. Numa noite João decidiu conversar com a mãe. Disse que não se importava: «Mãe, eu de qualquer maneira já não vou morar em casa. O tio António é um homem de confiança. Desde que não te ofenda. O principal para mim é que tu sejas feliz.» O filho de António, Pedro, também não se opôs.

E assim começaram a viver juntos. Casaram e fizeram uma pequena festa. Inês trabalhava na biblioteca da aldeia, e António era agrónomo. Faziam tudo em conjunto. Cuidavam da casa, mantinham animais e tratavam da horta. Amavam-se e respeitavam-se, pena que Deus não lhes tivesse dado filhos comuns.

Os dois rapazes casaram-se e eles conheceram os netos. Sempre que chegavam as festas preparavam presentes para os filhos e netos. Ovos caseiros, leite, natas, carne de porco e de galinha. Nas festas a casa enchia-se de muitos convidados. Então António e Inês sentavam-se à mesa, contentes. E alegravam-se por terem com quem celebrar.

Só ao anoitecer, quando o casal idoso se deitava, cada um pensava em silêncio: que um partisse primeiro Para nunca se sentirem sozinhos.

Os anos passaram. E um dia a desgraça chegou Pela manhã Inês sentiu-se mal, precisamente quando começava a preparar a sopa na cozinha. A mulher idosa caiu. António com a ajuda dos vizinhos chamou a ambulância. Os médicos disseram que Inês tinha sofrido um derrame. Todas as funções estavam no lugar, menos uma. Inês já não conseguia andar. João e a mulher vieram visitar a mãe. Deu alguns euros para os remédios e partiu.

António alugou um carro e, quando a esposa recebeu alta do hospital, com a ajuda de um vizinho levaram-na para dentro de casa.

«Tudo vai correr bem», consolava a esposa, «tu só tens de viver. Mesmo que fiques sentada a conversar comigo. Só vive. Eu consigo dar conta de tudo. Só não me deixes, minha querida!»

António cuidava bem da esposa. Após um mês ela passou a usar uma cadeira. Ajudava-o na cozinha. Continuavam a fazer tudo juntos. Descascavam batatas e cenouras, escolhiam feijão. Até cozinhavam pão. À noite Inês e António conversavam sobre como iriam viver dali em diante. O inverno aproximava-se. E António já não tinha forças para cortar lenha.

Talvez os filhos nos levassem para passar o inverno com eles, e na primavera e verão poderíamos nos arranjar sozinhos

No fim de semana chegou João com a esposa. A nora Sofia, depois de observar toda a divisão, concluiu:

Vamos ter de vos separar, meus queridos. Levaremos a mãe na próxima semana. Deixa-me preparar o quarto. Depois voltamos.

E eu? murmurou António constrangido. Nós nunca nos separamos. Filhos, como é possível?

Bem, isso era antes, quando tinham forças para a quinta e conseguiam cuidar de si mesmos, mas agora é diferente. Que o teu filho te leve também. Ninguém vos levará juntos.

João e a esposa voltaram para casa. António e Inês suspiraram com tristeza e pensaram no que fazer a seguir. Cada um, ao adormecer, desejava não acordar, para não ver tudo aquilo.

No fim de semana seguinte chegaram os dois filhos. Começaram a arrumar as coisas. António sentou-se ao lado da cama de Inês. Olhava para ela, recordando os tempos jovens. E chorava Aproximou-se da esposa doente. E murmurou:

«Perdoa-me, Inês, que tudo tenha acontecido assim connosco Em algum lugar falhámos na educação dos filhos. Estão a separar-nos como gatinhos indesejados. Perdoa. Amo-te»

Inês quis acariciar o rosto do marido com a mão, mas já não tinha forças António saiu, limpando as lágrimas com a manga. E, ao sentar-se no carro, já não as limpava

Depois, o filho com a esposa e o vizinho começaram a preparar Inês, enrolaram-na num cobertor e começaram a levá-la para fora de casa com os pés à frente. A mulher doente pensou que aquilo era muito simbólico Inês não resistiu, ela partiu quando António saiu. E a mulher doente só desejava não chegar à noite.

Passou uma semana. Num belo dia de outono, exatamente no dia de São Martinho, o seu desejo realizou-se. Inês e António encontraram-se no outro mundo.Há muitos anos, numa pequena aldeia portuguesa do interior, Inês aos seus 35 anos considerava que nunca sentiria a felicidade de ser mulher, mas o destino ordenou de outra forma. Juntaram-se quando ambos já rondavam os quarenta. António era viúvo há três anos nessa altura. Inês nunca tinha casado, embora tivesse um filho. Como se diz por aí, criou-o só para si. Na juventude manteve um caso com o bonito Miguel de cabelo escuro, que prometeu casamento e encantou a jovem Inês. Ela caiu nas palavras que afinal eram falsas. Depois soube-se que o pretendente, chegado de uma cidade próxima, já tinha esposa.

Até a mulher legítima de Miguel apareceu em casa de Inês a suplicar que a rapariga não destruísse uma família alheia. A jovem inexperiente Inês cedeu. Mas resolveu ficar com a criança.

Assim foi. Inês deu à luz João. O rapaz tornou-se a sua única alegria e consolo. João recebeu boa educação, aprendeu bem. Depois da escola entrou na universidade de economia. António passou várias vezes por casa de Inês. Propôs que vivessem juntos. A mulher hesitava, embora gostasse dele. Inês sentia um certo embaraço por causa do filho e do desejo de ser finalmente feliz. Numa noite João decidiu conversar com a mãe. Disse que não se importava: «Mãe, eu de qualquer maneira já não vou morar em casa. O tio António é um homem de confiança. Desde que não te ofenda. O principal para mim é que tu sejas feliz.» O filho de António, Pedro, também não se opôs.

E assim começaram a viver juntos. Casaram e fizeram uma pequena festa. Inês trabalhava na biblioteca da aldeia, e António era agrónomo. Faziam tudo em conjunto. Cuidavam da casa, mantinham animais e tratavam da horta. Amavam-se e respeitavam-se, pena que Deus não lhes tivesse dado filhos comuns.

Os dois rapazes casaram-se e eles conheceram os netos. Sempre que chegavam as festas preparavam presentes para os filhos e netos. Ovos caseiros, leite, natas, carne de porco e de galinha. Nas festas a casa enchia-se de muitos convidados. Então António e Inês sentavam-se à mesa, contentes. E alegravam-se por terem com quem celebrar.

Só ao anoitecer, quando o casal idoso se deitava, cada um pensava em silêncio: que um partisse primeiro Para nunca se sentirem sozinhos.

Os anos passaram. E um dia a desgraça chegou Pela manhã Inês sentiu-se mal, precisamente quando começava a preparar a sopa na cozinha. A mulher idosa caiu. António com a ajuda dos vizinhos chamou a ambulância. Os médicos disseram que Inês tinha sofrido um derrame. Todas as funções estavam no lugar, menos uma. Inês já não conseguia andar. João e a mulher vieram visitar a mãe. Deu alguns euros para os remédios e partiu.

António alugou um carro e, quando a esposa recebeu alta do hospital, com a ajuda de um vizinho levaram-na para dentro de casa.

«Tudo vai correr bem», consolava a esposa, «tu só tens de viver. Mesmo que fiques sentada a conversar comigo. Só vive. Eu consigo dar conta de tudo. Só não me deixes, minha querida!»

António cuidava bem da esposa. Após um mês ela passou a usar uma cadeira. Ajudava-o na cozinha. Continuavam a fazer tudo juntos. Descascavam batatas e cenouras, escolhiam feijão. Até cozinhavam pão. À noite Inês e António conversavam sobre como iriam viver dali em diante. O inverno aproximava-se. E António já não tinha forças para cortar lenha.

Talvez os filhos nos levassem para passar o inverno com eles, e na primavera e verão poderíamos nos arranjar sozinhos

No fim de semana chegou João com a esposa. A nora Sofia, depois de observar toda a divisão, concluiu:

Vamos ter de vos separar, meus queridos. Levaremos a mãe na próxima semana. Deixa-me preparar o quarto. Depois voltamos.

E eu? murmurou António constrangido. Nós nunca nos separamos. Filhos, como é possível?

Bem, isso era antes, quando tinham forças para a quinta e conseguiam cuidar de si mesmos, mas agora é diferente. Que o teu filho te leve também. Ninguém vos levará juntos.

João e a esposa voltaram para casa. António e Inês suspiraram com tristeza e pensaram no que fazer a seguir. Cada um, ao adormecer, desejava não acordar, para não ver tudo aquilo.

No fim de semana seguinte chegaram os dois filhos. Começaram a arrumar as coisas. António sentou-se ao lado da cama de Inês. Olhava para ela, recordando os tempos jovens. E chorava Aproximou-se da esposa doente. E murmurou:

«Perdoa-me, Inês, que tudo tenha acontecido assim connosco Em algum lugar falhámos na educação dos filhos. Estão a separar-nos como gatinhos indesejados. Perdoa. Amo-te»

Inês quis acariciar o rosto do marido com a mão, mas já não tinha forças António saiu, limpando as lágrimas com a manga. E, ao sentar-se no carro, já não as limpava

Depois, o filho com a esposa e o vizinho começaram a preparar Inês, enrolaram-na num cobertor e começaram a levá-la para fora de casa com os pés à frente. A mulher doente pensou que aquilo era muito simbólico Inês não resistiu, ela partiu quando António saiu. E a mulher doente só desejava não chegar à noite.

Passou uma semana. Num belo dia de outono, exatamente no dia de São Martinho, o seu desejo realizou-se. Inês e António encontraram-se no outro mundo.

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Alugou o João um carro, quando a esposa teve alta do hospital, carregaram-na com o vizinho para dentro da casa. «Tudo vai ficar bem, – consolava a esposa, – tu só vive. Mesmo que fiques sentada a conversar comigo. Só vive. E eu consigo tudo. Só não me deixes, minha pomba…!»