O Último Desafio

O Último Chamado

Desde as primeiras horas da manhã, Beatriz sentia um estranho pressentimento de que algo estava para acontecer.

Algo mau…

Ligou imediatamente para a mãe, mas Dona Rosário tranquilizou-a:

A tensão está ótima, não sinto dores de cabeça. Por que perguntas isso, filha?

Só por precaução respondeu Beatriz. Bom, vou-me despachar para o trabalho. Liga-me se precisares de alguma coisa.

Claro, meu amor.

Era de esperar que, depois daquela chamada, Beatriz ficasse mais calma, mas a inquietação não se desfez e o pressentimento continuava a pairar.

Beatriz não conseguia perceber de onde vinha aquela sensação, pois não havia motivos evidentes para preocupação.
Com o tipo de trabalho que tinha, tudo podia acontecer. Ainda por cima era segunda-feira e, como diz o povo, segunda é sempre custosa.

Acabou o café, olhou para o relógio marcava seis e meia vestiu-se apressadamente, pegou num lanche e saiu de casa rumo ao hospital.

*****

No parque de ambulâncias, Beatriz encontrou o motorista com quem ia passar todo o turno Manuel. Ao vê-la, Manuel acenou com simpatia, mas ela devolveu-lhe apenas um aceno cansado.

Então, Beatriz, parece-me que estás com cara de sexta-feira treze brincou Manuel acendendo um cigarro. Passou-se alguma coisa?

Não, Manuel, ainda não aconteceu nada Mas sinto que algo vai acontecer respondeu ela, pensativa.

Credo que não, mulher! Mas que ideia é essa, logo de manhã cedo? Não dormiste direito?

Beatriz nada respondeu.

Limitou-se a olhar para o céu, que estava carregado de nuvens a qualquer momento, Lisboa ia ficar sob um verdadeiro dilúvio.

E desde miúda ela odiava chuva…

Será da chuva? Se calhar, isto não é pressentimento, mas simplesmente irritação por causa do tempo Beatriz até se permitiu um sorriso, convencida de ter descoberto a origem das suas inquietações.

Mas, num instante, o mau agouro voltou com força redobrada.

Bom turno, colegas! gritou uma jovem que passava a correr.

Manuel engasgou-se com o fumo e, depois de tossir, ameaçou a rapariga com o punho, fazendo-a arregalar os olhos de medo.

Ai, desculpem Esqueci-me completamente murmurou ela, atrapalhada.

Era nova ali, começara como socorrista há menos de uma semana, e ainda não se habituara à velha superstição: nunca se deseja bom turno a quem está de serviço. Dá azar.

Bem, agora de certeza que vai acontecer alguma coisa sussurrou Beatriz, sentindo um calafrio percorrer-lhe as costas.

Bate na madeira resmungou Manuel, apagando o cigarro no cinzeiro de metal.

*****

Beatriz mordia nervosamente o lábio enquanto o despachador enviava pelos auscultadores, através do tablet, o próximo endereço e informava o motivo do chamado:

Homem, 35 anos, queixa-se de uma forte dor de cabeça. Aparenta confusão, possível AVC.

Logo hoje, era só o que me faltava pensou Beatriz. Uma médica de emergência deve estar pronta para tudo, mas…

Cada chamada era uma dor no peito, e sofria ainda mais nos casos em que não se podia evitar o pior. E num AVC tudo pode acontecer.
Especialmente hoje.

Felizmente, o homem que atenderam não estava a ter um AVC.

A fala enrolada era resultado da festa de aniversário do amigo que se prolongara até de madrugada, e a dor de cabeça era só ressaca. Beatriz deu-lhe um comprimido e aconselhou-o a descansar.

Se beber uma cervejinha agora, ajuda? perguntou o homem, esperançado.

Nem pensar! Fica é pior. Se quer viver muitos anos, é melhor esquecer o álcool.

Beatriz saiu da casa aliviada. Podia ter sido pior muito pior.

Talvez o Manuel tenha razão, e este mau pressentimento, do qual lhe falei enquanto íamos de caminho, não seja mais do que cansaço acumulado e desgaste emocional…
Começava a sossegar quando o rádio voltou a chamar agora, para o cemitério municipal…

Onde? perguntou Manuel, incrédulo.

Cemitério respondeu Beatriz, segurando com força o tablet.

Lá iriam enterrar um famoso artista lisboeta (estranhamente, Beatriz nunca ouvira falar dele).

O cemitério estava cheio.

Jovens e idosos, homens e mulheres. Uns em silêncio com flores na mão, outros choravam. Alguns recordavam o falecido com palavras bondosas.
Beatriz sentia-se presa naquele instante, à espera de algo terrível. Manuel fumava sem parar.

No entanto, nada aconteceu, e felizmente ninguém precisou da ambulância.

Depois, vieram outros chamados, mas eram situações rotineiras, casos que se repetiam dia após dia.

Assim voaram quase doze horas, e o turno aproximava-se do fim.

Faltavam uns dez minutos apenas para voltarem à base.

Beatriz já se imaginava a chegar a casa, tomar banho e atirar-se na cama. Amanhã seria um novo dia, esperava acordar de melhor humor.

Por precaução, ainda ligou outra vez à mãe era a décima vez nesse dia.

Está tudo bem disse Dona Rosário. Agora vou jantar e depois vejo um bocadinho de televisão.

Então, como está a mãe? perguntou Manuel, ao vê-la guardar o telefone.

Tudo ótimo.

Estás a ver? sorriu Manuel. Não disse eu que hoje não se passava nada de mau? E tu, sempre com esse mau pressentimento

O pior é que ele continua aqui, Manuel Não percebo bem o que me inquieta tanto.

Devias arranjar um animal de estimação eles são um bálsamo para o stress.

Estás a gozar?

Nada disso! Olha, eu tenho o meu gato Tobias. Mal chego a casa, salta-me para o colo a ronronar e sinto logo o peso do dia a desaparecer. Depois durmo feito um bebé.

Oh Manuel, mas com o meu horário? E quando passo o dia todo fora, quem olha por ele? Tu tens mulher e filhos. Eu vivo sozinha!

Queria continuar, mas subitamente o tablet vibrou e ouviu-se a voz da despachadora:

Beatriz, desculpa, mas ainda não terminaste. Última chamada, Rua Eça de Queirós, nº23. Apartamento… Um momento

Não será o 48?

Exatamente, Beatriz respondeu a despachadora, surpreendida. Como sabes?

É lá que vive o Sr. António Marinho. Já sou visita habitual Que se passa, dores no peito outra vez?

O silêncio pesado do outro lado gelou o ar.

Ele faleceu, Beatriz Ainda de manhã, ao que parece. A Polícia já está lá, e pediram que compareças sabes como é…

Sim respondeu Beatriz, estranhamente calma.

Com a mão a tremer, repousou o tablet no colo e olhou para Manuel. Ele tivera tempo de ouvir tudo.

Murmurou:

Que pena do senhor António. Do que me contaste dele, era boa gente. Mas Beatriz, não te culpes. Ele não quis ir para o hospital nem para o posto médico. Não tens culpa nenhuma, ouviste?

Pois

Encostou-se à cadeira, fechou os olhos e ficou alguns minutos mergulhada em si mesma.

*****

Tinha conhecido António Marinho há mês e meio. Fora ele próprio a pedir a ambulância, aflito com uma dor forte no peito.

O senhor deixou a porta destrancada, pode entrar logo avisou a despachadora.

Está bem.

Ao entrar no apartamento, foi recebida por um pequenino cachorro, do tamanho da mão dela.

Primeiro, rosnou de forma cómica à invasora, depois ladrava, mas assim que o dono chamou, correu para ao pé dele, a abanar a cauda.
Apanhei-o na rua contou o senhor António, sorrindo, tentando levantar-se da cama. Agora não me larga, defende-me de tudo.

Fique deitado, ouça interrompeu Beatriz. E este cãozinho é um mimo! Também gostava de ter, se pudesse.

E porque não pode?

Tenho as minhas razões Mas deixemos isso. Fale-me de si: o que sente, quanto tempo, tem sido seguido no centro de saúde?

Respondeu a tudo. As dores começaram após a morte da esposa, há mais de um ano. Ia ao centro, mas nada resultava…

Acha que vale a pena ficar a penar aquele tempo nas filas, para nada? As dores vão e vêm Tomo um comprimido quando me incomodam.

Bem sei, mas isso não é tratamento sorriu Beatriz. Vamos fazer um electrocardiograma.

Detectou alterações preocupantes. Queria logo hospitalizá-lo, mas ele recusou-se.

E quem fica com o Rufas? Dê-me antes uma injecção ou um comprimido, por favor.

Sr. António, só adia o problema. O melhor era ir ao hospital

Olhe, os seus colegas anteriores sempre faziam assim, e cá me vejo ainda vivo. Não vou a lado nenhum. Se quiser, faço já o papel de recusa.

Nunca conseguiu convencê-lo. Nem dessa vez, nem nas seguintes.

Aos poucos, Beatriz passou a ser a única a ir aos seus chamados, que passaram a ser semanais.

Antes não me acontecia isto. Agora, cada vez pior.

Porque não faz tratamento, por isso a saúde degrada-se. E Rufas, quem olha por ele se acontecer algo?

Se acontecer, há sempre pessoas boas. Já combinei com a minha vizinha. Até lhe mostrei onde guardo o dinheiro para comprar ração.

Dinheiro?

Claro! Assim ela não gasta do dela. Nem todos podem acolher um cão de rua por falta de meios.

Era boa gente, pensou Beatriz.

Agora, voltava à casa dele, mas desta vez, sem poder conversar como antes. Que pena

O último chamado foi, de facto, o último.

E, sinceramente, não concordava com Manuel claro que sentia culpa. Devia tê-lo convencido a ir ao hospital. Devia…

Beatriz, já chegámos.

O quê? sentiu, pesadamente, a mão de Manuel no ombro.

Chegámos.

Subiu, quase em transe, ao terceiro andar. Encontrou já lá o agente da polícia e a vizinha Dona Celeste, com quem também se cruzara antes.

Certa vez, António Marinho sentiu-se mal na rua, com Rufas ao colo, e pediu a Dona Celeste que chamasse a ambulância. E assim Beatriz os conheceu.

Boa tarde, Beatriz.

Boa tarde, Dona Celeste. Foi a senhora quem chamou a polícia?

Fui, claro. Não havia mais ninguém. O cachorro dele não parava de ladrar desde manhã. Estranhei não terem ido passear, mas pensei que fosse falta de vontade. Depois fui à quinta; quando regressei ao fim do dia, o bicho não parava de ladrar. Chamei a polícia, vieram com um serralheiro, abriram a porta e lá… apontou para o quarto.

Percebo. Obrigada.

Beatriz entrou no quarto, permaneceu algum tempo a olhar para o senhor António, tentando segurar as lágrimas. Depois preencheu o relatório. Lembrou-se então do cachorro. Procurou-o em todas as divisões.

Desculpem, mas viram um cão pequenino? perguntou ao agente.

Pretinho, não era? Sim, andava aqui metido entre os pés, a rosnar, depois a vizinha parece que o levou.

Graças a Deus! suspirou Beatriz.

Temeu que o tivessem posto na rua. António jamais lhe perdoaria se isso acontecesse.

Despediu-se, saiu do apartamento e foi bater à porta de Dona Celeste, que já se tinha escapado.

Beatriz? espantou-se Dona Celeste. Aconteceu algo?

Só queria agradecer lhe ter ficado com o Rufas. Ele está muito aflito?

Quem?

O Rufas Ficou consigo, não?

Ah, o cãozinho? Não, querida. Tenho mais que fazer! Só o levei para a rua para acalmar o berreiro, mais nada. Um animal desses, a ladrar o dia todo, não dá.

Mas o António dizia que a senhora tinha combinado ficar com ele, até lhe mostrou onde estava o dinheiro para a ração.

Dona Celeste franziu o sobrolho, entre o choque e a irritação:

Desculpa lá, Beatriz. Não fiz acordo nenhum. E não ouvi nada de dinheiro.

Mas ele disse-me

Olha, agora não posso conversar. Se o cão tem vontade de viver, que se safe. Alguém há-de olhar por ele.

*****

Beatriz desceu apressada e saiu do prédio. Nesses minutos, o tempo virara por completo e a chuva teimava em tornar-se cada vez mais pesada.

Estás aí debaixo de água porquê? gritou Manuel. Anda para dentro ou ficas ensopada!

Ela abriu a porta do carro, deixou o estojo dos medicamentos e

…fechou-a de novo.

Que raio se passa? exclamou Manuel, já fora do carro.

Vai indo, Manuel, o nosso turno acabou. Tenho ainda algo a fazer.

O quê?

Encontrar o cachorro.

Mas que conversa é essa, Beatriz? Explica lá.

Resumiu tudo a Manuel, que acendeu silenciosamente outro cigarro.

Ele não pode ter ido longe. Deve estar por aqui. Vai indo, que eu trato disto.

Manuel atirou a beata para a estrada e esmagou debaixo do pé. Depois olhou-a firme:

Nem penses! Não te deixo aqui sozinha. Já está quase a anoitecer. Juntos, vemos melhor.

Andaram uns bons dez minutos pelo bairro à procura, sem sinal do cachorro. Se juntou a eles o agente, assim que os viu pelos arredores, oferecendo ajuda.

Encontrei! gritou Manuel, alegria na voz. Beatriz correu até ele.

O agente apressou-se atrás.

Olha-me este! ria Manuel, junto ao banco do jardim do outro lado da rua. Em vez de agradecer, ainda me rosna!

Debaixo do banco, escondido, estava Rufas. E, de facto, rosnava a Manuel, não deixando que se aproximasse.

Rufas, meu fofinho Beatriz quase chorava. Ou talvez chorasse mesmo, as lágrimas confundiam-se com a chuva. Reconheceste-me, querido?

O cachorro reconheceu quem tantas vezes chegava com simpatia e comida. Saiu lentamente, olhos tristes, gemendo baixinho.

Eu sei, pequenino O nosso António partiu. Não está mais connosco.

Manuel virou-se para não mostra lágrimas. O agente também disfarçava, olhos no céu, pois homens não choram. Especialmente os de farda.

Eu nunca poderei substituir o teu dono. Mas posso tentar, meu amor. Vens comigo?

E Rufas foi. Porque pressentia que Beatriz era boa pessoa e nunca lhe faria mal.
E também porque ele odiava chuva

*****

Nos primeiros tempos, Beatriz temia não dar conta. Mas a mãe ajudava.

Durante os turnos longos, Dona Rosário ia a casa, alimentava e passeava Rufas.

E nos dias livres, as duas e o cachorro passavam as tardes no jardim da Estrela, uma família improvável mas feliz.

Beatriz nunca se arrependeu de o acolher aquele ser indefeso e rejeitado deu-lhe nova razão de viver. Começou a perceber António Marinho, mesmo que, como médica, não aprovasse ter recusado tratamento.

Com o tempo, outra pessoa se juntou à família.

O agente, aquele mesmo que os apoiou na procura de Rufas, apaixou-se logo por Beatriz. Mas os acontecimentos daquele dia não permitiam intimidades. Só depois, quando Bernardo levou-lhe flores à porta, foi Rufas quem abriu caminho: cheirou-o, olhou de baixo para cima e, satisfeito, latiu, num convite claro de boas-vindas.

Assim, Beatriz sabia: nada de mau lhe podia acontecer a não ser, quem sabe, ser feliz como sempre sonhou.

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